terça-feira, 3 de março de 2015

A NINFO


Samuel Castiel Jr.


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    Tinha uma silhueta sensual, bunda  arrebitada e lábios grossos, inspirados em Angelina Jolie. Também suas pernas eram grossas com as coxas roliças da Claudia Raia. Mas quando teve seus primeiros namorados, sentiu que algo estranho a arrebatava de forma involuntária e compulsiva.  Quando seu primeiro namorado a levou para um cinema, achou uma coisa muito sem graça. Mas quando no  escuro ele beijou sua boca, sentiu um arrepio correr pela sua espinha. Quando ele acariciou seus seios, quase desmaiou. 
       Ainda era uma ninfeta quando um de seus namorados se apaixonou a ponto de noivar e casar. No início ele adorava fazer sexo com ela, mas começou a perceber que ela era insaciável. De manhã, a tarde e a noite queria que ele estivesse em cima dela ou ela estivesse em cima dele. Foi cansando, definhando, adoeceu e morreu sem um diagnóstico convicente. A viúva não ficou muito tempo sem ninguém. Alfredão era um mulato sarado e foi ele que se aproximou da Jusmara. Foram logo direto ao assunto, ou melhor, direto pra cama. O mulato Alfredão ficou entusiasmado com o furor sexual da viúva. Nunca vira antes uma viuvinha tão fogosa. A mulher era insaciável! No início conseguia acompanhá-lá, mas com o tempo foi esmorecendo. Nos finais de semana, Ju queria sexo de manhã, a tarde e a noite! Alfredão começou a voltar mais tarde pra casa. Saia do Banco onde trabalhava e ficava no boteco, jogando sinuca com os amigos. Mas, mesmo chegado tarde em casa, lá estava a Ju toda arrumada com roupas íntimas e insinuantes, debaixo dos lençóis. Aí...a Ju pegava o Alfredão. De manhã cedo, ela acordava e já pulava em cima dele. Tinha que fazer alguma coisa! Já tinha ouvido falar em "furor uterino". Eram mulheres sexualmente insaciáveis, também conhecidas como ninfomaníacas. As vezes, mesmo depois de uma noite de sexo, Alfredão ao voltar pra casa a encontrava assistindo filmes pornôs. Realmente, ele não sabia mais o que fazer. Arquitetou um plano de separação , mas não deu tempo. Adoeceu, foi definhando, perdendo as forças e morreu. O Sushimuro era um japa lutador de artes marciais e foi o terceiro marido da Ju. Apesar de ter um bom físico, era forte, musculoso e "bombado". Mas a estória se repetiu, ou seja, o fogo da Ju aos poucos foi apagando o japa que também definhou, enfraqueceu e Ju o enterrou literalmente.
      Para os amigos e amigas, Ju passou a ser chamada de enterra-marido. Passou também a ter dificuldade para conseguir um novo companheiro. O quarto marido de Ju teve o mesmo fim, pois já não agüentando tanto sexo, ele se trancava no banheiro, num gesto de desespero. Também definhou e aos poucos morreu. Mesmo fogosa como era, quando os pretendentes sabiam da estória, sumiam simplesmente. Ju começou a ter dificuldades para novos relacionamentos duradouros. Saía com um ou com outro, mas ficava só por aí. Chegou mesmo a ter um relacionamento homo, quando entregou-se as volúpias do Sado-masoquismo. Marylu foi sua última paixão. Faziam excurções, cruzeiros, viajavam e estavam sempre juntas. Freqüentavam sex shoppings, onde compravam as últimas novidades do prazer sexual. Mas... a Ju era mesmo uma ninfomaníaca inveterada e aos poucos voltou a desejar homens. Sentia falta do cheiro, das mãos e da penetração masculinas. Certa noite, deu uma escapulida com Jorjão, um crioulo avantajado, cujo membro media cerca de 25 cm. Foi uma noite memorável que quase satisfez a Ju. Chegou até em pensar devaneios conquistando aquele negão para ir morar e viver com ela. Sonhou, sonhou e se aconchegou debaixo do seu edredom. Mas, pra sua surpresa, quando se virou para o seu parceiro, ele não estava mais lá! Foi ao banheiro mas ele também não estava lá. Ficou lívida e quase desmaiou quando leu no seu espelho, escrito com batom vermelho:  "Desculpe Ju, mas sou HIV positivo! Agora você é uma das nossas. A eternidade nos separa ou melhor, nos espera!" - do sempre seu Jorjão"
Antes cair ao chão desfalecida soluçando, Ju ainda pensou:
--Fui mais uma vítima  de  um "bareback"!




Nota do Autor:   “bareback ou barebaking" é uma palavra do inglês que se refere a prática de atos sexuais, sem o uso de preservativos, mais especificamente de sexo anal. Literalmente significa montar a cavalo, sem o uso de sela, ou seja, pele-a-pele. Alguns grupos de americanos e europeus estão aderindo a essa prática suicida, uma verdadeira roleta-russa do sexo. Eles saem pela noite, vão pra cama com vários parceiros ou parceiras sem usar preservativos. Tanto podem contrair como transmitir o vírus HIV e também outras doenças sexualmente transmissíveis. Realmente uma verdadeira roleta russa do sexo.


PVH-RO, 25/2/15






quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

TRÁFICO NA FRONTEIRA
  
Samuel Castiel Jr.











         A tarde ia findando. Martinho Ferry e sua esposa Valeria, como faziam todos os dias, pegaram suas cadeiras de palhinha e as puseram na calçada de sua casa. Ele com 78 e ela com 65 anos, casados a 35 anos, data que lhes parecia tão próxima. Ali sentados, ficavam conversando, com a brisa suave do final da tarde soprando em seus rostos. Nesse dia Valeria havia preparado um suco natural de tamarino que pusera numa jarra com bastante gelo e os dois ali estavam sentindo aquela brisa do crepúsculo ao sabor de tamarino. Valeria adorava aquelas árvores de tamarino, que ela mesma plantara em frente a sua casa, e que produziam frutos tão deliciosos, além da sombra refrescante e convidativa que propiciavam. Conversando viam aparecer no céu as primeiras estrelas e depois a lua.

     Pablo Benites montava uma Honda 1.200 cilindradas, viajava em alta velocidade. Suas vestes escuras e o capacete, faziam-no parecer a figura de uma vespa em movimento. Vinha de Santa Cruz – Bolívia em direção a Guajará Mirim – Brasil. Reduziu a velocidade ao se aproximar da casa dos anciões. Não tiveram ação para nada: o motoqueiro sem dizer uma palavra, sacou uma metralhadora USI e metralhou os dois que ficaram caídos no chão envoltos por uma escura mancha de sangue, que se misturava com os pedaços de vidro da jarra de suco. O cheiro de tamarino e sangue espalhou-se pelo ar.

           Gilbert Volmann, fumava um charuto no hall de sua mansão em Miami Beach, sorvendo uma dose de Royal Salute, na pérgola de sua piscina olímpica, quando vibrou seu celular:
 --Serviço executado, Chefe. 
--Ok, desligo.
           Soltou uma baforada do Monte Cristo cubano e pensou:
 --Gostaria de ver a cara daquele filhinho de papai, pra não dizer filho da puta, quando souber o que aconteceu com seus velhinhos e queridinhos pais!... 
           Gilbert Volmann era um homenzarrão, de origem germânica. Seus pais e avós eram alemães e racistas. Alex Ferry agente da Policia Federal, tinha acabado de comandar uma operação que conseguiu apreender uma gigantesca carga de entorpecentes que, saindo da Bolívia, passando pelo Brasil, na fronteira em Guajará Mirim, conhecida rota de tráfico de entorpecente, seguiria pra S.Paulo e finalmente chegaria aos Estados Unidos e também a Europa. A carga toda chegava quase a 3 toneladas e estava acondicionada em varões e outras estruturas tubulares de bicicletas. Essa operação representou um forte golpe no tráfico internacional de drogas entorpecentes, e cujo chefão era o temível e todo poderoso Gilbert Volmann e que, ao saber que sua "mercadoria" tinha sido apreendida na fronteira brasileira, ainda tentou através de seus tentáculos, corromper o agente brasileiro Alex Ferry. O telefonema que Alex recebeu foi curto e grosso:

 --O chefão soube que você está no comando dessa operação e oferece um milhão de reais para que deixe essa "mercadoria" seguir   em frente até seu destino.

 --Pois diga ao seu chefão que enfie esse dinheiro no seu traseiro! Diga-lhe também que brevemente o FBI vai colocá-lo atrás das grades.
 --Se eu fosse você não faria isso, rapaz, pois o chefão não gosta de ser contrariado...e pode tomar a sua recusa como uma ofensa.

 --Diga a ele que sua casa começou a cair! Já estamos no seu encalço. Brevemente ele vai ver o sol nascer quadrado!
               Desligou.
               Aquela operação realmente desbaratou uma quadrilha de perigosos traficantes e que tinha como chefão o temível Gilbert Volmann. Seis meses depois, um outro carregamento de cocaína e ecstasy foi remetido e chegou com êxito na Europa. Gilbert Volmann programou uma grande comemoração, em sua mansão no   elegante bairro de Sunny Isles em Miami Beat. Aproveitou o casamento de sua filha mais nova, Susan, para fazer uma grandiosa festa. Contratou o melhor Bufett, a melhor banda, cantores de rock e country. Convidou também mágicos famosos e vocais que iriam entoar canções e hinos durante o cerimonial do casamento. As festas promovidas por Gilbert Volmann costumavam durar nunca menos de três dias, com abundância de bebidas, comidas e também muitas mulheres bonitas e famosas, dando sempre ao evento um glamour cinematográfico. A festa começou em grande estilo com queima de fogos e o casamento de sua única filha caçula Susan foi recheado de grandes emoções. A cerimônia foi celebrada por Dom Angelus, o conhecido e popular bispo de Miami. Mas também houve a participação de pastores evangélicos e líderes religiosos de   outros credos. Gilbert Volmann queria agradar a todos. Não queria que alguém saísse falando mal ou insatisfeito de sua festa. Cantores pops como J'BIEBS, Ricky Martin, Shakira e Enrique Iglesias, além de várias bandas se alternaram num palco decorado e muito iluminado com lâmpadas multicoloridas. Havia um glamour em cada detalhe. Um perfume suave campestre foi borrifado na grama e no entorno do grande palco para tornar e o evento ainda mais agradável. Tudo impecável. As comidas eram servidas por um Buffet luxuoso do Monasterio Bay, cujo chef e garçons impecavelmente vestidos serviam ágapes a base caviar, salmão e vitela de cordeiro flambada numa mistura de conhaques e champagnes. As bebidas eram variadas, em destaques os whiskys escoceses e americanos, tipo Royal Salute, The Glenlivet, Black e Blue Label, etc, todos porém com envelhecimento de 21 anos, é claro! As festas de Gilbert Volmann sempre foram glamurosas.

          Na madrugada do segundo dia dessa ruidosa festa, um caminhão furgão estacionou na porta dos fundos da mansão de Gilbert. Em grandes letras lia-se: Buffet Monasterio Bay. Seu motorista desceu e se dirigiu a guarita onde 3 seguranças fortemente armados com metralhadoras portáteis e fuzis esperavam curiosos.

 --Pare e se identifique. Caso contrário abriremos fogo.

 --Calma senhores, falou num inglês arrastado com sotaque latino --venho em paz e estou fazendo apenas o meu serviço. Meu chefe ligou pedindo reforço de canapés, vitelas de cordeiro e mais whiskys. Esse povo come e bebe pra valer!...

 --Just a moment, Guy. Vou falar com o Chef e checar sua informação.

--Ok.

                  Alex Ferry vestia um macacão folgado, bege com a logomarca do Buffet Monasterio Bay. Um boné enfiado em sua cabeça e uns óculos com armação amarela completavam seu disfarce e lhe davam um aspecto mais jovial, um rapaz de classe trabalhadora, talvez um imigrante hispânico. O segurança era um colossal galego, louro e muito alto. Falou no interfone e pediu pra falar com o Chef enquanto os outros cercavam o furgão de Alex empunhando suas metralhadoras e fuzis.

--O Chef Antonny não está na cozinha--respondeu uma voz afeminada.Foi atender pessoalmente ao chamado de Mr. Gilbert. Mas em que posso servi lo?

--Chegou aqui na portaria um furgão trazendo reforço de comida e bebidas. Só quero checar.

--Não tô sabendo... mas do jeito que essa multidão come e bebe é possível que o Chef tenha se antecipado pra não pedir reforço depois que as comidas e bebidas se acabarem. Tenha um pouco de paciência e já retorno e satisfaço a sua interrogação.

 O segurança voltou e dirigiu-se ao Alex com mal humor:

--Você vai ter que esperar meu rapaz! O Chef não está a postos. Foi   atender pessoalmente ao Mr. Gilbert. Entre no seu caminhão e aguarde.

          Alex não discutiu. Subiu no estribo do furgão e jogou-se na poltrona almofada do motorista. Depois de esperar aproximadamente uns quarenta minutos sem que nada acontecesse, desceu novamente do furgão e dirigiu-se a guarita.

--Olha aqui gente, eu acho que esse negócio tá demorando muito e as coisas aí dentro são perecíveis, as comidas vão acabar se estragando. Além do mais tenho muitas coisas a fazer lá no restaurante, onde ganho polpudas gorjetas como garçon. Estou aqui praticamente de favor! Venho atender ao chamado do Chef e acabo tendo que ficar aqui esperando não sei o que!... Vou lhe dizer uma coisa seu segurança: mais cinco minutos aqui dou meia volta no furgão e volto pro restaurante.

           O segurança resmungou alguma coisa e pegou novamente o telefone: --Shet! Agora nem chama. Vamos fazer o seguinte cara: você entra com esse maldito furgão, descarrega essa droga na cozinha e volta imediatamente. Vou lhe dar meia hora no máximo. Caso contrário eu mesmo vou lá dentro e trago você na porrada. Entendeu?

--Ok. Prometo que volto já, pois o interesse de acabar com isso mais rápido é só meu.

            Os portões e abriram e o furgão entrou no entorno da mansão. Alex dirigiu seu furgão para os fundos da mansão. Ia pensando em todos os detalhes de seu plano. Estacionar seu carro junto aos demais furgões com os letreiros do Buffet Monastério Bay. Precisava misturar-se com os garçons e cozinheiros. Sabia de todos os hábitos de Gilbert Volmann, mas principalmente aquele que mais lhe interessava: só utilizava seu próprio banheiro, ou seja, do seu próprio quarto, pois era portador de Nosofobia, ou seja tinha neurose por limpeza e pavor de bactérias ou de adoecer. Lavava suas mãos três ou mais vezes quando saia do vaso sanitário, sempre usando alcool-gel Alex entrou na carroceira do seu furgão, já estacionado no meio dos demais caminhões,  trocou suas roupas. Era mais um garcon a servir aos convidados de Gilbert Volmann. Checou o estoque de Guttalax que trazia nos seus bolsos. Pendurou sua pistola 9 mm, com silenciador num coldre axilar. Agora só restava juntar-se aos mais de 100 garçons e inúmeros cozinheiros. Aproximou-se do Chef Antonny o suficiente para ouvi-lo ordenar a um garçon que levasse mais canapés e bebidas para o camarim de Mr. Gilbert. Imediatamente Alex seguiu o garçon e se ofereceu:

--Posso ajudar? Ouvi o Chef Antonny lhe passar essa missão. Sei que Mr.Gilbert é apressado e nós dois poderemos levar seus comes-e-bebes mais rápidos.

 --Ok. Mãos a obra então. Pegue os canapés de caviar e eu levo os champagnes e whiskys.

               Era o que Alex esperava. Aproximou-se das bandejas de guloseimas, e marcou uma das bandejas com um pedacinho inexpressivo de adesivo. A seguir tirou de seu bolso uma embalagem de Gutalax e derramou toda sobre os canapés de caviar. Depois repetiu a operação mais umas três ou quatro vezes. O Gutalax liquido  tinha a vantagem de ser inodoro. Não seria percebido, tinha certeza. A seguir chamou seu parceiro garçon:

--Vamos nos apressar, Will. O chefão já deve estar esbravejando!...

--Ok, boy, vamos lá!

          A cena era digna do filme "Mil e uma Noites"--pensou o agente. O camarim de Gilbert todo decorado com pufs coloridos, tapetes persas, com iluminação indireta, fechado com vidros fumê e climatizado. Sentado, como se fora um pachá, em uma grande poltrona, usando óculos escuros, Gilbert Volmann recebia carinhos e afagos de duas belas louras de seios fartos, que pareciam querer saltar de suas roupas. A fumaça do charuto Havana de Gilbert impestava o ambiente. Quando nos viu entrar vociferou:

 --Malditos garçons! Faz quase uma hora que pedi reforço ao Chef e só agora vocês aparecem?! --É que...

 --Shut up! --Sirvam primeiro essas duas lindas bonecas! Ou não aprenderam bons modos?

       O agente teve o cuidado de virar a bandeja marcada com o adesivo, servindo a elas o caviar isento do Guttalax. A seguir postou toda a bandeja-bomba a frente do chefão. Gilbert era um homem guloso. Comia muito e estava muito acima de seu pêso. Alex sabia que teria no máximo uns vinte minutos para agir. Saiu da cozinha e entrou nos grandes salões da mansão. Precisava encontrar rapidamente o quarto do chefão. Havia um luxo em todos os detalhes, porém com muito espalhafato. Sem dúvida alguma Gilbert era além de mafioso, traficante e contrabandista, dotado também de um péssimo gosto. Literalmente, um deslumbrado "Young Rich"(novo rico). Subiu uma escadaria curva, estilizada, contruída em aço escovado, com os detalhes e corrimãos em uma liga de ouro. Não foi difícil achar os aposentos de Gilbert pois duas arrumadeiras quase o surpreenderam ao deixarem o quarto de Gilbert comentando:

--Ainda bem que o festão já vai pro seu último dia! Que trabalheira, heim?!

 --É. E o chefe só reclama! Esse seu quarto fica um chiqueiro de sujeira quando ele traz pra cá essas piriguetes. Até as cortinas estão   impregnadas desse maldito charuto!

            O agente rapidamente se escondeu na reentrança da parede. Esperou as duas camareiras se afastarem e dirigiu-se para o quarto do chefão. Não teve dificuldade de abrir a porta com sua gazua. As camareiras tinham razão: uma suntuosa cama com um espaldar alto, entalhado em madeira nobre, onde estavam esculpidas figuras da mitologia grega, como A deusa do amor Afrodite e o todo poderoso Zeus, o deus da Guerra. Mas, o odor de tabaco cubano estava impregnado no ambiente. Um enorme closet separava o dois ambientes. O banheiro muito espaçoso, revestido por grandes espelhos e iluminação indireta, saindo de sancas de gesso. O lavatório tinha uma grande cuba de marfim e a torneira central estilizada imitando o pescoço de um ganso, era de ouro, ladeada de outras duas menores, com canoplas e componentes também em ouro maciço. A banheira era em marfim com duchas laterais para hidromassagem. A temperatura da água era regulada por controles digitais. Tudo era um luxo! O exagero porém de alguns detalhes era da figura excêntrica de um novo-rico! Alex espantou-se com o barulho da chave abrindo a porta do quarto. Rapidamente escondeu-se num dos muitos guarda-roupas do closet. Gilbert entrou quase correndo e passou direto para o vaso sanitário.Sabia que o efeito do Guttalax era rápido, mas não tanto. Essa composição do Guttalax ou seja: pisicossulfatosódico a 7,5 mg, com excipiente metilparabenzeno e sorbitol a 70%, associado a água desionizada nunca falhara, principalmente na superdosagem que usara. Não deu tempo de tirar sua calça, apenas afrouxou o cinto e a baixou. O efeito purgativo do dulcolax foi fatal. E pelos gemidos ele estava com muitas cólicas. O agente ainda esperou alguns minutos até sair do guarda-roupa. Empunhando sua pistola com silenciador entrou no banheiro. Gilbert esboçou levantar-se do vaso mas o disparo da pistola o impediu, acertando seu ombro e o atirando para trás.

 --Quem é você, maldito! E o que quer de mim?

--Isso você vai já saber, seu porco imundo! Aproximou-se, pegou o   chefão baleado pelos cabelos e olhando bem dentro de seus olhos, disse quase sussurrando no seu ouvido:

 --Sou Alex Ferry, agente da Policia Federal do Brasil. Órfão de meus pais porque você mandou matá-los seu canalha! Vim para vingá-los e livrar o mundo de um verme como você! Os olhos de Gilbert se arregalaram quando a faca do agente penetrou seu abdome ao nível do umbigo decepando sua aorta. O sangue esguichou enquanto o agente o arrastou para a banheira luxuosa, jogando-o para dentro e abrindo as torneiras. A água começou a subir na banheira, mesclada de sangue. O agente Alex saiu rapidamente dos aposentos de Gilbert, trancando antes a porta pesada do quarto. Desceu a escadaria quase correndo, quando ouviu vozes no corredor. Eram as loiras de peitos fartos Estavam embriagadas e chamavam por Guil. Alex esgueirou-se escondendo-se das loiras e entrou no quarto destinado aos garçons. Rapidamente trocou sua roupa sujas de sangue pelo macacão do Buffet Monasterio Bay. Colocou sua roupa suja na mochila, seus óculos de armação amarela, enfiou o boné em sua cabeça e saiu correndo para o furgão. Ao chegar na guarita, o segurança mostrengo apontou sua metralhadora para ele e falou mal humorado:

 --Alto aí meu caro! Mais dois minutos e eu já iria trazer você no ponta-pé, entendeu?

 --Calma aí meu amigo! Eu já voltei, cumpri a minha missão e estou caindo fora. Se bem que eu gostaria mesmo era de aproveitar um pouco mais essa festança.

 --Get out! ( cai fora ) antes que eu me arrependa.

         Alex dirigiu seu furgão para o aeroporto de Miami. Os painéis com letreiros de embarque anunciavam que o chek in de seu vôo estava se encerrando. Correu para a sala de embarque e foi o ultimo passageiro a entrar na aeronave. Nas alturas, o agente Alex declinou sua poltrona e pensou: --Certos vermes tem que ser eliminados para que se interrompa o seu ciclo de morte! Só acordou quando a comissária anunciou: --Senhores passageiros queiram voltar suas patronas para a posição normal. Dentro de poucos minutos pousaremos no aeroporto internacional Brigadeiro Eduardo Gomes,em Manaus. Alex pegou a.noite uma conexão para Porto Velho, e no mesmo dia seguiu para Guajará-Mirim, onde deveria fazer mais um plantão na sede da Policia Federal naquela fronteira que já era considerada uma das mais importantes rotas do tráfico internacional de entorpecentes.




 PVH-RO, 9/1/15

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

INCÊNDIO NO CUNIÃ

INCÊNDIO NO CUNIÃ

Samuel Castiel Jr.









          





           
             
             (  Macacos me mordam, mas nunca fumem!...)


        
Ele sempre foi um "bon-vivant". Filhinho de papai, carrão importado, nunca se formou em nada, apesar de estar sempre matriculado em alguma faculdade. Freqüentava as melhores casas da noite carioca. Viciado em maconha, ecstasy e cocaína. O crack não o atraia, pois tinha medo do seu efeito deletério no cérebro. Sempre teve um porte físico atraente, era alto e musculoso. Freqüentava academias quando não estava em crises de depressão. Seus pais abastados viviam criticando sua maneira irresponsável de viver.
        Certa noite, Marcelão, curtia uma balada na boate 021, depois de já ter passado em mais umas 3 na Lapa quando se deparou com Julieta, mais conhecida por Ju. Cruzaram olhares e logo se identificaram. Tinham tudo a ver  um o outro! Ela também era
"patricinha"filhinha de papai, geneticamente rica por herança, nunca trabalhara e nunca quis nada com os estudos. Freqüentou algumas faculdades mas não se formou em nada. Beberam alguns whiskys a mais e foram para o apartamento do Marcelão no Leblon, onde puderam se conhecer mais profundamente!...Ju estava encantada com aquele homem, rico, bon vivant e que sabia aproveitar as coisas boas da vida. Como ela, sua filosofia de vida era viver a vida mesmo que fosse na corda bamba, linha divisória entre o bom viver dos abastados e o imensurável abismo das drogas. Marcelão também achou  a Ju muito interessante. Principalmente quando soube que ela era rica, que vivia de renda e que seu pai deixou para ela inúmeros imóveis e até mesmo prédios na capital de Rondônia, Porto Velho. Ficou também muito interessado nas terras que Ju lhe disse possuir, cerca de 50 hectares, na Reserva Extrativista do Cuniã,  nos arredores de Porto Velho. A reserva toda era imensa, com  uma extensão de cerca de 55.850 hectares, a margem esquerda do rio Madeira, no sentido de Humaitá. Lá a Ju explicou-lhe com detalhes seu projeto de piscicultura, onde mantinha tanques naturais para a criação do pirarucu, tido como peixe nobre para exportação para os Estados Unidos e Europa. Vários tanques foram criados dentro do próprio lago do Cuniã, com cercagem especial de nylon. Ali os peixes eram colocados como alevinos, alimentados com Tilápias e ração especial para crescimento e, em cerca de 3 anos, já podiam ser abatidos para exportação. Os contratos seriam fechados com grandes frigoríficos internacionais, com pagamento certo em dólar e euro. Tudo parecia muito atraente para o Marcelão, principalmente porque ele não iria precisar meter a mão na massa. Um bom gerente e alguns colaboradores resolveriam todos os problemas. Além do mais, poderia mostrar aos seus pais que não era aquela pessoa inerte que eles sempre acharam que fosse! Aceitou quase de imediato a proposta de Ju, de ir com ela para gerenciar seus negócios e seus tanques de pirarucu. Poderia sair daquela selva- de- pedra, respirar o ar puro da floresta, comer peixes saldáveis das águas doces do Cuniã. Sabia também que teria que viver e desfilar com a Ju em todas as baladas. Mas, pensando bem entre a vida vazia e monótona que levava e naquela vida cheia de aventuras que lhe acenava, resolveu encarar:
-- Minha doce Ju, você acabou de arrumar um companheiro e um gerentão para os seus negócios! Vamos ser os maiores exportadores desse pirarucu.
            Viajaram em lua-de-mel, primeiro para Miami, voltaram por São Paulo e finalmente chegaram a Porto Velho.  As terras de Ju eram extensas e privilegiadas, a margem do lago Cuniã. A reserva era lindíssima, extremamente bem cuidada e vigiada, ficando a cerca de 130 km de Porto Velho. Ali se reproduziam milhares de espécies, vegetais e animais. Revoadas de araras coloridas, papagaios e curicas passavam em bandos mal o dia começava a clarear. Borboletas multicoloridas formavam como se fosse um tapete nas areias brancas das praias que se formavam quando as águas baixavam. Macacos diversos desciam das árvores e vinham  buscar comida nas cozinhas e até mesmo nas mãos de quem lhes oferecesse.  A noite, o canto de pássaros noturnos misturava-se com ruídos longínquos de onças e outros felinos. Era um verdadeiro paraíso no meio da selva tropical. A casa de Ju era uma verdadeira mansão, porém obedecendo aos padrões da reserva, ou seja construída em madeira e coberta de palha artesanalmente trançada. Os cômodos eram de luxo, climatizados, com iluminação indireta, TV LED, HD FULL, Multimídia, DVD Play, som com Home Theater, frigobar, espelhos nas paredes, etc. No hall uma grande piscina, com deck, um bar muito iluminado e com uma variedade incrível de bebidas. Marcelão gostava mesmo era de atar sua rede na varanda do hall, onde ficava a se embalar por horas até o sono chegar. Quando a Ju vinha da cidade para dormir com ele, os dois ficavam a se embalar na rede, tomando whiskys importados e fumando charutos cubanos. Nas noites de lua cheia, apagavam todas as lâmpadas e deixavam que uma réstia de luz prateada viesse iluminar aquela rede onde se amavam até que o clarão  do raiar de um  novo dia os surpreendesse sonolentos! Amaram-se assim por alguns meses, até que Marcelão e Ju andaram se desentendendo. Marcelão além de não gostar de trabalhar, estava  sentindo-se cansado de tudo. Bebia demais, fumava também demais. Voltou a usar drogas, porém usava todas as noites a maconha, que era mais fácil de  comprar. Deitava-se naquela rede, tomava uns whiskys e acendia um charuto que não era mais cubano e sim um tarugo de maconha. Certa noite de sexta-feira, sentindo-se deprimido, Marcelão estirou-se na rede, colocou uns três tarugos de maconha na mesinha de cabeceira, próximo a rede, serviu uma dose dupla de whisky com bastante gelo e embalou-se maciamente algumas vezes na rede até que adormeceu. Alguns macacos pregos e barrigudos  haviam entrado sorrateiramente na mansão e se alojado sobre os caibros de madeira, próximos a cobertura de palha, onde eram praticamente invisíveis para o Marcelão. Esses macacos já estavam acostumados a entrar e dormir ali todas as noites, saindo bem cedo para comer frutas e folhas das arvores. Estavam também acostumados a assistir o Marcelão beber whisky, acender e fumar seus tarugos de maconha.  Nessa noite o macaco-chefe do bando, foi mais ousado: desceu, aproximou-se da escrivaninha perto da rede do Marcelão, pegou um tarugo de maconha e a caixa grande de fósforos. A seguir subiu novamente para os caibros da cobertura, colocou o tarugo na boca e, imitando o Marcelão, riscou o fósforo tentando acender o tarugo de maconha, mas como não conseguia, levantou o braço com o fósforo aceso, tocando na palha seca da cobertura. O fogo pegou de imediato, pois a palha estava muito seca pelo sol abrasador daquele verão. Não deu tempo para mais nada. Os macacos fugiram rapidamente, o Marcelão quase morreu intoxicado pela fumaça, não deu pra salvar nada. Quando os bombeiros chegaram só encontraram as cinzas na mansão da Ju. O fogo destruiu ainda mais de cem hectares de floresta da reserva, com um prejuízo incalculável da flora e fauna do reservatório. O incêndio durou quase uma semana para ser controlado, mesmo usando todos os recursos disponíveis, inclusive helicópteros da força aérea.
         Marcelão voltou para o Rio. Depois de alguns dias deixou uma mensagem de voz na caixa da Ju:
--Espero que me perdoe, Ju. Juro que foi um acidente, até agora não sei como aquele incêndio começou. Mas independente de tudo que aconteceu, quero dizer a você que eu já havia chegado a conclusão que não tinha mesmo nenhuma aptidão para seus tanques de pirarucu.
          Os contratos com os frigoríficos internacionais não foram cumpridos, gerando multas que tornaram insolventes os negócios da Ju.

Nota do Autor: O presente conto é baseado em fato real ocorrido naquela reserva. Os personagens entretanto são fictícios e qualquer semelhança terá sido mera coincidência.


PVH-RO., 1º/12/14

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

MISTÉRIO NO GARIMPO



MISTERIO NO GARIMPO

Samuel Castiel Jr.


       
          A água era escura e barrenta. A visibilidade não deveria passar de uns dois metros mas foi suficiente para ver aquele vulto de mulher sem nenhuma roupa de mergulho, ou melhor, sem nenhuma roupa de nada.Estava absolutamente nua. Olhava-me com um sorriso malicioso. De repente apontou na direção oposta para onde eu nadava como se me chamasse. Senti-me atraído e não pude resistir. Nadei em sua direção, seguindo aquele corpo de mulher nua e sensual, de cabelos compridos e negros. Quem seria? Havia muitas mulheres naquele garimpo, mas todas elas tinham outras atividades, como cozinheiras, amantes ou simplesmente vendendo seus corpos. Mas nenhuma delas tinha aquela  silhueta, aquelas formas sensuais. Também nenhuma delas mergulhava aquela profundidade em busca de ouro, muito menos sem nenhum equipamento... Como se estivesse hipnotizado, continuei nadando seguindo aquela mulher misteriosa. Quando nos aproximávamos de um barranco profundo, ela parou e apontou mais uma vez em direção ao barranco e nadou rapidamente até desaparecer nas águas barrentas daquele rio. Cheguei bem perto do barranco, cravei meu "abacaxi" no barro e acionei o botão elétrico fazendo aquela tralha se aprofundar no barro, cavando e ao mesmo tempo aspirando todo o barro, jogando-o para a superfície, onde toda aquela terra misturada com pedras iria ser lavada e decantada, sobrando no final do processo só o ouro amarelo em forma de pepitas ou mesmo como pequenos grãos de areia fina. Depois de mais ou menos uma hora nesse trabalho, parei e dei sinal para ser içado. Pouco tempo depois de subir na Balsa, fui surpreendido com a euforia de meus companheiros, que gritando vieram cumprimentar-me:
--Viva ARTHUR! Vamos "bamburrar"! Pelo jeito estamos em cima de um filão. É muito ouro, cara!
      No garimpo as notícias correm rápido. No dia seguinte, quando o dia mal clareou, nossa balsa estava toda cercada por dezenas de outras balsas e dragas, todos ávidos por mergulhar e também extrair aquele ouro das profundezas do rio, no mesmo filão que eu descobrira, com a orientação, é claro, daquela mulher misteriosa. Garimpeiros experientes começaram a mergulhar bem cedo. Levavam seus equipamentos de mergulho com o tubo de oxigênio e pipetas enfiadas nas suas bocas. Alguns portavam "pés-de-pato". Mas levavam também seus "abacaxis" para perfurar e sugar a barranqueira. Estava assim formada o que eles chamavam de "muvuca". Nesse dia, começaram os mistérios e problemas: dois garimpeiros não mais voltaram de seus mergulhos. Foram encontrados boiando rio abaixo, depois de 2 dias de buscas sem nenhum êxito. Nos dias que se seguiram mais mortes foram contabilizadas. Sempre os corpos boiando rio abaixo. Nos meus mergulhos continuava a ver a mesma mulher que ora apontava para um lado, ora para outro, fazendo com que minha produção de ouro sempre fosse a melhor daquele garimpo. Como aparecia, desaparecia nas águas barrentas. Depois de alguns dias, com as mortes acontecendo, todos os mergulhadores estavam em pavorosa, com medo de mergulhar. Até que um dia um garimpeiro foi içado quase morto. Conseguiu sobreviver, após ser acometido de febre altíssima por vários dias, quando delirou muito, sempre falando de uma mulher que encontrou lá embaixo das águas barrentas.
--Ela estava lá! Era linda, corpo perfeito, cabelos longos e negros. Chamou-me para nadar com ela e afastou-se levando-me para o canal do rio, longe da barranqueira. Em determinado momento aproximou-se mais de mim e rapidamente cortou meu tubo de oxigênio. Quando ia cortar minha corda de içamento, liguei o botão do "abacaxi" e apontei em sua direção. Imediatamente ela se afastou e desapareceu nas águas revoltas e barrentas. Fui içado e estou salvo graças ao meu bom Deus! Escapei por pouco!
Ouvi tudo que aquele garimpeiro contou e não tive dúvida: era ela! A mesma mulher misteriosa que me levou até aquele filão de ouro. Não contei nada a ninguém, pois iriam achar que eu estava blefando ou ficando louco. As coisas começavam a se encaixar. Mas porque aquela mulher misteriosa matava os garimpeiros? Porque comigo ela foi agradável e levou-me para o filão de ouro? A noticia se espalhou rapidamente e ninguém mais se atreveu a mergulhar naquelas águas. Com medo mas muito curioso, depois de alguns dias, quando as balsas e dragas já haviam deixado aquele local e quando o nosso entorno já estava livre daquela "muvuca", aproveitei para dar um último mergulho, pois a noite estava muito clara com uma grande lua que deixava dourada a superfície do rio. Ao descer a cerca de uns 5 metros, fiquei apavorado, pois a mesma mulher apareceu na minha frente. Procurei acalmar-me, pois seu semblante era amistoso e havia em seu rosto o esboço de um leve sorriso. A lembrança da morte inexplicável de muitos amigos garimpeiros, com medo daquela silhueta encantadora e fatal de mulher, puxei a corda dando sinal para ser içado. Imediatamente ela se postou a minha frente e cortou a corda de içamento. Senti que era chegada a minha vez de morrer...Mas, em vez de arrastar-me para o meio do rio, como fez com os outros, ficou colada abraçando  o meu corpo, tocou a minha face com seus dedos, beijou meu rosto e abraçou-me num gesto  de afago sensual. Fiquei estático e arrebatado, tomado de um sentimento de profundo amor! Na seqüência ela impulsionou-me para a superfície e num gesto de carinho despediu-se com um aceno de adeus.
Quando cheguei a superfície, meus companheiros estavam em pavorosa agitação              e gritaria:
--Home, que aconteceu lá embaixo? Pensávamos que seria mais um morto pra aparecer boiando!...Você é louco? Bem que avisamos o perigo que iria correr!...
       A lua silenciosa e indiferente continuava iluminando como um farol aquelas águas barrentas.
        No dia seguinte nossa balsa desatracou e fomos embora com alguns quilos de ouro e eu, com essa lembrança inexplicável que irá comigo até meus últimos dias!...


PVH-RO, 19/11/14.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O QUIABO

O QUIABO

Samuel Castiel Jr.












         O quiabeiro ( Albemoschus esculentus) é uma planta da família malva ( Malvaceae, de origem africana. Seu fruto é conhecido como quiabo, guingombô, gombô, etc. É uma cápsula fibrosa cônica, verde e peluda, cheia de sementes brancas, redondas, muito usado em culinária antes da maturação quando endurecem. Suas folhas são lobadas e as flores axilares, ou seja, brotam a partir das gemas  axilares. Muito usado em pratos típicos como o caruru, quiabada, etc, bem como também tem propriedades medicinais no combate a diabetes, úlcera gástrica, intestino preso, é anticancerígeno, suaviza as queimaduras e abranda a psoríase, dentre tantas  outras coisas interessantes e milagrosas da medicina alternativa,  devido as suas propriedades oxidantes  e sua  riqueza em vitaminas  A, B e C.  Algumas dessas propriedades medicinais, segundo alguns estudiosos, estão relacionadas a uma gosma extremamente lisa e grossa que é expelida pelo quiabo quando ele é esmagado, cortado ou fervido e cozinhado.
          Mas o nosso personagem Angelino, ganhou o apelido Quiabo desde sua tenra infância, quando no  colégio seus colegas tinham que pagar o seu lanche, pois andava sempre “liso”, ou seja sem nenhum tostão. Parecia até que seus bolsos eram furados, pois não traziam nenhuma moeda sequer. Quando terminavam as aulas do colégio, voltava pra casa a pé ou pegava carona de algum colega que morasse mais ou menos perto da sua casa. Sempre foi assim. No início ficava bravo quando o chamavam de quiabo, chegando mesmo até a brigar na rua. Mas aos poucos foi aceitando a alcunha. Era Quiabo pra cá, Quiabo pra lá e assim ficou conhecido. Quando algum amigo novo perguntava porque o apelido de quiabo, dizia que era porque gostava e era fissurado por comidas  típicas que continham essa fruta gosmenta.
---Não tem comida mais saborosa que um caruru preparado por quem sabe fazer! –dizia o Angelino quando alguém tentava constrange-lo chamando-o de Quiabo. Vivia de uma aposentadoria que mal dava para sua sobrevivência. Mas não se deixava abater. Era boêmio nato e estava sempre nas melhores rodas de pagode e como de costume,  esperando que algum amigo pagasse um trago.
--Bebo bem e tenho sorte, dizia o Quiabo. Bastava que alguém pagasse uma dose de pinga para que ele ficasse logo alegre. Tinha também a mania de tocar um cavaquinho fantasma, pois fazia apenas os gestos como se fosse um grande cavaquinhista, tocando um instrumento que só ele via e ouvia. Certa vez engraçou-se de uma procuradora negra que freqüentava o recinto festeiro e lá pelas tantas começou a tocar seu cavaquinho e a olhar pra mulata com cara de pidão. Bastava que ela se descuidasse e olhasse para em outra direção que o Quiabo imediatamente tocava seu cavaquinho fantasma:
--Neguinha tu tens que ser minha de qualquer maneira!... etc.
        Bastava que ela voltasse seu olhar em sua direção para que ele rapidamente parasse de tocar aquele cavaco imaginário e tomasse  uma  atitude insuspeita. Mas, alguém avisou a procuradora que o Quiabo estava com graça pra ela. Até que ela simulou e  pegou o Quiabo tocando seu cavaco imaginário e cantando: “Neguinha tu tens que ser minha de qualquer maneira...” Brincalhona, a procuradora se levantou, foi até a mesa do Quiabo e pediu:
--Vi o senhor tocando e cantando um samba que eu gosto muito. Pode cantar para mim?
           O Quiabo quase se derreteu. Ficou pálido, sem graça e disse:
--É só de brincaderinha!...
            Mesmo assim ela ainda pagou uns tragos para ele. Mas, o Quiabo era sempre assim, tinha o espírito cheio de alegria, mesmo que seus bolsos sempre estivessem vazios.
            Na vida amorosa, cultivava um amor platônico pela Maria BTL, mulher morena, bem dotada, carinhosa  e de quadris largos. Sempre que estava  bebendo suas pingas, lembrava-se dela, apesar do tempo que já ia longe, quando costumava   levá-la para os “banhos” ( pegando carona dela mesma, é claro! ) principalmente ao balneário chamado Torre, onde ficava a sós com aquela morena voluptuosa, banhando-a e ensaboando-a com sabonete “Lifeboy”nas águas correntes do igarapé. Certo dia lá estava o Quiabo sentado em uma rodada de bons bebedores quando alguém sugeriu ir para um boteco que a Maria BTL tinha inaugurado lá pras bandas do bairro Tucumanzal. Segundo informações, a cerveja lá era estupidamente gelada e o tira-gosto de peixe bem crocante, irresistível. Mas havia um problema: a Maria só abria o seu boteco a noite e era pleno sábado a tarde com um sol causticante. Foi aí que apareceu a figura do Quiabo, dizendo:
--Pode deixar, meu caro! Lá no bar da Maria BTL quem tem moral sou eu. Afinal, foi meu antigo xodó.
           Não foi preciso botar mais pilha no Quiabo. Pegou o telefone e discou. Afastou-se um pouco pra falar e quando voltou foi logo dizendo:
--Tá tudo resolvido. Ela vai abrir o boteco pra mim e ainda vai preparar bons tira-gostos. Quantos de vocês querem me acompanhar? É claro que vão ter que me pagar   alguns tragos, pois afinal consegui que a BTL abrisse nos aceitasse no seu boteco a essa hora.
            Alguns amigos seguiram o Quiabo, rumo ao boteco da Maria BTL. E realmente todos foram bem recebidos. Cerveja gelada, bom tira-gosto e um bom violão fizeram daquele ambiente um oásis naquela tarde quente e ensolarada de Porto Velho. O Quiabo depois de vários tragos, ficou embriagado, mas não esquecia o refrão:
--Bebo bem e tenho sorte!
              A  noite chegou e as primeiras luzes da cidade começaram a se acender. Uma lua dourada apareceu no céu, trazendo mais inspiração ao violeiro Julinho, que cantava e tocava grandes sucessos da MPB e da boemia. Foi quando o Quiabo começou a ficar impaciente, dizendo que já era hora de ir embora, pois sua mulher virava onça quando ele chegava tarde da noite. Depois de muita insistência, o Quiabo pediu pra fechar a conta, mas houve protesto de todos. Após uma votação sumária, foi decidido chamar um taxi e mandar o Quiabo pra sua casa.  A conta da mesa festeira foi fechada parcialmente, e quando a Maria BTL mostrou a conta para o já embriagado Quiabo, ele fez menção de meter a mão no bolso como se fosse pegar um dinheiro que não existia. Foi quando o Julinho do violão parou de tocar, deu um solavanco e puxou o braço do Quiabo, dizendo:
--Para de graça, Quiabo! Sabemos que você não costuma andar com dinheiro. Vou pagar essa conta parcial e depois reabrimos outra conta, OK?
           Meteu a mão no bolso de sua jaqueta,  de onde tirou um talão de cheque de cinquenta folhas. Quando se preparava para preencher o cheque, a Maria BTL esticou o pescoço por cima da cabeça do Quiabo,  olhando aquele grosso talão de cheques, parecendo o pescoço uma garça quando avista o peixe da sua desejada  refeição. Alguém veio correndo informar que o taxi chamado havia chegado.  O Quiabo já embriagado foi conduzido ao taxi e o Julinho do Violão deu o endereço do Quiabo para o motorista. Quando abriu a porta do taxi, junto com a Maria BTL, empurraram o Quiabo para o banco de trás. O motorista ainda advertiu:
--Cuidado com o ancião! Ele pode se machucar.
           Cinco horas da manhã, naquele silêncio do novo dia que chega, após uma noite com a fogosa Maria BTL, sozinho, o Julinho do violão ainda dedilhava as cordas de seu instrumento cantando:
--Acorda Maria Bonita, Acorda vem fazer café, Que o dia já vem raiando....
          E por aí vão muitas estórias e lambanças do Quiabo. Até que certo dia, ele chamou seu melhor amigo Roque e confessou:
--Não quero mais ser chamado de Quiabo.
--Então só tem um jeito, meu velho –disse-lhe o Roque. Você ganha sozinho na Mega-Sena, fica rico, cheio da grana e tudo estará resolvido. Caso contrário, e ainda com muita resistência, você poderá ser chamado de liso.   KkKk -- Roque deu aquela gargalhada e foi-se embora.

Nota do Autor: Qualquer semelhança com fatos e personagens deste conto terá sido mera coincidência


PVH-RO. 04/09/14


 

     





quarta-feira, 13 de agosto de 2014

GLADIADORES DO ASFALTO


GLADIADORES  DO  ASFALTO

Samuel Castiel Jr.












       Mesmo quem estivesse presente naquele local não acreditava no que via. Motos de 1.200 cilindradas em alta velocidade e   em sentido contrário voavam uma de encontro a outra. Os motoqueiros vestindo roupas pretas, capacetes e botas, traziam um garupa igualmente vestido. Esse homem da garupa portava uma vara longa que apontava para o motoqueiro que vinha em sentido contrario. O objetivo era atingir e derrubar a dupla de motoqueiros adversários. Tinha muito a ver com os esportes medievais japoneses, só que os “cavalos” eram de aço. Quando o motoqueiro era atingido, era jogado a distância, a moto se desequilibrava, caía e saía se arrastando pelo asfalto. Algumas se despedaçavam ou pegavam fogo, explodindo em poucos minutos. Tudo isso aplaudido em delírios e gritos de uma platéia que vibrava histérica. Feridos ou mortos eram retirados do local por ambulâncias particulares, as quais tinham seus médicos e paramédicos. Ninguém podia obstruir a pista, a não ser para retirar pedaços de motos ou de corpos. As disputas eram seqüenciais, frenéticas. Mal uma dupla caía, já vinha outra acelerando, até que toda uma bateria tivesse disputado.
          Esse evento era clandestino, proibido pela polícia e chamado de Os Gladiadores do Asfalto. Ocorria uma vez por ano em um trecho vicinal da autopista BR-316, da Regis Bitencourt,  na divisa do Paraná com  Santa Catarina.
    Oscar Willis tinha 19 anos, filho único de pais abastados, era louro, atlético, e seu hoby era colecionar motos. Halley Davis, Suzuki, Ducati, Honda, Yamaha, tinha motos de todas as marcas. Preferia as de  1200 cilindradas, que eram as mais possantes e que serviam para as competições. Jonhy Aroeira era seu amigo inseparável e costumava competir sempre como garupa, pois era firme, agüentava os trancos e manobras arriscadas,  tinha uma boa pontaria para derrubar seus adversários com a vara, conhecida entre eles com “lança-ponta”. Naquele ano, a competição tinha tudo pra “bombar”, pois as redes sociais estavam cheias de desafios, apostas encontros e convites. Segundo a organização,  que se mantinha sempre anônima, eram esperadas naquele ano mais de cinco mil pessoas no local para assistir o grande show dos Gladiadores do Asfalto.
       Quando o sinal foi dado por um disparo de pistola .40, os pneus cantaram no asfalto, e teve inicio a mais arrojada competição do século XXI, onde os perdedores pagavam muito caro, as vezes com a própria vida, como no histórico Coliseu de Roma antiga. Não havia lugar para fracos ou perdedores. Varias baterias se enfrentaram. Algumas motos caíram, pegaram fogo, motoqueiros caíram mortalmente feridos, tudo sob os aplausos e gritos histéricos de uma platéia delirante. Faltava apenas a última bateria, a mais esperada.  Oscar Willis, apesar e ter sofrido a perda de dois garupas ainda continuava no pareo, para a grande disputa final. Quando os motoqueiros tomaram suas posições para a largada, Oscar Willis foi advertido por seu garupa e amigo inseparável Jhony que havia algo estranho naquela última bateria. O competidor que se postara para a largada não era o conhecido Marley Cilindrada que tinha conquistado sua posição com muita garra para a bateria final. Em seu lugar estava posicionado um motoqueiro desconhecido e estranho, cujo rosto não se deixava visualizar encoberto  pelo capacete com um  visor fumê espelhado, montado em uma moto cuja marca ou modelo eram desconhecidos de todos, porém transparecendo ser máquina de alta potência. Seu garupa igualmente parecia enigmático, com o rosto também coberto por um capacete igual ao do motoqueiro. O ronco do motor dessa máquina também era estranho. E a sua fumaça era preta, tinha com um odor forte de enxofre.
--Oscar, meu caro, olha esse motoca que vai disputar essa última bateria com a gente. Você o conhece?  Não lhe parece estranho?
--Não o conheço, mas deve ser alguém de outro estado ou até mesmo do exterior. Esse esporte anda ganhando adeptos em todo o mundo. Mas não se preocupe, meu velho, vamos derrubar os dois e ganhar esse troféu. Esse ano nem Satanás   vai estragar a nossa festa.  Seremos os  novos campeões dos Gladiadores do Asfalto/14. Não tenha medo, Jhony, vamos vencer!
--Mas... Oscar e essa fumaça com odor de enxofre também  não acha estranho?
--Deve ser algum maluco querendo envenenar o motor da sua moto misturando  combustível e algum aditivo a base de enxofre, o que eu particularmente não concordo, mas se o regulamento permite, nada podemos fazer. Volto a dizer, fique “frio” e vamos ganhar fácil mais essa prova.
      Nesse momento ouviu-se o disparo da pistola .40, dando início a última competição daquela noite.
          As motos roncaram seus motores e partiram em alta velocidade, frente-a-frente em sentido contrário. Quando já faltavam uns duzentos metros para o encontro final, o garupa Jhony falou pelo microfone de capacete com seu piloto:
--Oscar, não falei pra você? Veja só o que está acontecendo:  o motoca e seu garupa tiraram seus capacetes. Não são gente desse mundo, cara! Olha a cabeça deles. São esqueletos, são caveiras humanas! Estão dando risadas e soltando chamas  de fogo pela boca e pelo nariz. Suas motos também  vem pegando fogo, deixando um rastro de chamas pelo asfalto. A “lança-ponta” também está em chamas e sua ponta é de brasa.
     Não deu tempo para falar mais nada. Jhony foi atingido de cheio no peito pela “ponta-lança” que o transfixou, arrancando-o da grupa e ficando com ele pegando fogo e preso na vara. Oscar ainda atônito e sem nada entender, fez uma rápida manobra radical, voltando pra cima de seu  adversário. agora já sem o seu garupa. O estranho motoca e seu garupa também  voltaram dando altas e sonoras gargalhadas, soltando fogo por suas bocas e narinas, como se fossem dragões com suas motos incendiárias. Desta vez, o estranho garupa apontou e acertou sua “ponta-lança”  na cabeça de Oscar Willis, transfixando seu crânio e também exibindo-o dependurado na vara, onde permaneceu pegando fogo. A platéia em pânico tentava fugir daquele local, mas seus carros se chocavam. O tumulto se estabeleceu. Nesse cenário de carros que se chocavam, pegavam fogo, explodiam, gente que se pisoteava,  gritos de pavor, uma fumaça negra com forte odor de enxofre espalhou-se pelo ar.

PVH-RO, 13/08/14