sexta-feira, 17 de agosto de 2012



LOBO ERRANTE

Samuel Castiel Jr.
Eixo longo da noite,
sombrios e furtivos seres se movem
nos confins da escuridão!...

O céu reluzente
com estrelas fugidias e silenciosas
completa a sinfonia
da perplexidade extrema!...

Pássaros noturnos, o frescor da madrugada,
tudo conspira e a uma reflexão conduz!...
Recuso-me a pensar, quero somente a luz
que chega em breve com o novo dia!...

Distante ouço o uivar perdido
de um lobo errante que passa
na floresta escura e fria!...

Mas, dessa inquietude silenciosa e austera
algo me diz gritando forte do seu apogeu
que esse lobo errante sou eu!...

VENTURA OU MORTE

Samuel Castiel Jr.
Atirei-me a Tua procura,
corri mares e oceanos,
rompi desertos e sóis!...
E como os livres ciganos,
fui de hemisferio a hemisferio,
vaguei de Sul para o Norte!...

Mas agora que afinal Te encontrei
e que Te tenho a meu lado,
eu já nem sei ao certo se és a Ventura
ou se és a Morte!...


( Do Livro " Letra de Médico ")

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

CARATER

Na essência cristalina do homem
                     Mortal
Sobressai a mais nobre herança
                     Vital
Que o diferncia de todo o reino
                      Animal
E o projeta muito além da escala
                       Imortal
Liberta-o dos grilhões da estupidez
                       Venal
Chama-se  carater essa humana essência
                       Final.

( Do livro " Letra de Médico ")


terça-feira, 7 de agosto de 2012


A IMAGEM, A CLÍNICA E O DIAGNÓSTICO

           

            Desde que Wilhem Conrad Rontgen descobriu os raios – x em 1985, houve uma verdadeira revolução na medicina que continua  em curva ascendente até os dias de hoje. Em princípio um feixe de ondas invisíveis que atravessa um corpo sólido e o revela estruturalmente no filme radiográfico. Por tras dessa aparente simplicidade, anos de pesquisa e estudos foram realizados. No final do século passado, o diagnóstico por imagem tomou um impulso até antes nunca visto. O impacto da Ultra-Sonografia Diagnóstica, da Tomografia Computadorizada (TC) da Ressonância Magnética Nuclear (RMN) da Tomografia por Emissão de PósitronS (PET)  ultrapassaram as fronteiras da radiação ionizante e, associados a computação de alta resolução, trouxeram o  “estado – de – arte” da imagem para a medicina moderna.

            Em que pesem todos estes avanços tecnológicos na área de diagnóstico, continua mais verdadeiro do que nunca o aforisma de que “a clinica é soberana”! Não devemos nos esquecer de que por tras dessas máquinas maravilhosas há necessidade de um médico no mínimo com a boa formação clinica, para associar as imagens com os sintomas e dados clínicos de cada paciente. Caso contrário, delegamos a máquina a “falsa” impressão de poder diagnosticar. As imagens são mudas, sempre indefinidas e anônimas. Somente o médico especialista em imagens, de posse dos dados clínicos, poderá efetivamente contribuir para elucidar diagnósticos. De nada valerão as máquinas mais sofisticadas do mundo se não houver esta sincronia com um bom especialista, estudioso da clínica, para produzir bons diagnósticos. Por outro lado, há necessidade que este pensamento se torne unânime na categoria médica e que seja prática de cada dia. Infelizmente, são poucos os médicos que, ao solicitarem um exame complementar de diagnóstico por imagem, informam os dados clínicos de seus pacientes, tão precioso para o radiologista. Não há mágica nem bola de cristal: para um bom diagnóstico há necessidade de informar os dados clínicos do paciente.  O raciocínio na interpretação das imagens sempre esteve e estará visceralmente associado a clínica médica. Não adianta inventar. Esta é a realidade!



Médico Radiologista

Membro das Academias de Letra e Medicina de Rondônia.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

FLOR  TROPICAL

Flor tropical, soberba e encantadora
Que cresce e floresce em terrenos hostis
Como guardiã desafiadora,
Do belo nativo, de essências sutis!...

Como a brisa que soprou todas as vidas
Nasceste bela, livre e agreste,
Repartindo-te em pétalas coloridas
Invejam-te o crisântemo e o cipreste!...

És a mais nobre, a mais  altiva rainha
E assim foste sempre a preferida minha!
Fascinam-me teu porte, tua cor...

Quero-te sempre assim bela e formosa
Como um livro escrito em verso e em prosa,
Como a mulher que me ensinou o amor!...

( Autoria:  Samuel Castiel Jr. )

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

SOLIDÃO  III

                            Samuel Castiel Jr.

Rompeu o silêncio
de minhas conjecturas pásmicas,
quebrou o mimetismo
de velhas orações estáticas!

Chegou assim, sem palmas
em pleno gozo
sem anunciar-se,
varrendo todos os fantasmas

De milenares fluidos
e ignotos plasmas...
Veio despir-se toda, por inteiro
no reluzente ectoplasma

Do meu tecido celular
mais íntimo: obscessão!

Veio, chegou assim todinha
sem nenhum pudor,
instalou-se ávida,
levantou bandeira: SOLIDÃO!...

( Do livro Letra de Médico )

quarta-feira, 25 de julho de 2012


O VELÓRIO

Samuel Castiel Jr.











                      Nepomuceno, mais conhecidos nas rodas como “51”, pela sua inefável identificação com a branquinha, morreu. Negão boêmio, figura padrão em todas as rodas de pagodes. De muitas amizades, destaque na bateria da escola de Samba da Castanheira, na Arigolândia, em Porto Velho, Rondônia  onde fora anteriormente passista.

            Órfão de mãe, pai desconhecido, fora criado pela avó, Dona Guiné, crioula beata por convicção, “puxadora” de cânticos sagrados nas missas de domingo. “51” em vida, fora o oposto de sua mãe-avó. Mas nem por isso ela o renegou. Era seu neto, seu sangue!

            Viveu e morreu como sempre quis. Foram 42 anos bem vividos dizia ele. O infarto agudo foi fulminante e fatal.

            O pior de tudo é que hoje é sábado! Dizia Zequinha, inconformado, e um dos primeiros a chegar ao velório.

            Ninguém escolhe dia e hora para morrer! Retrucava Zé do Pandeiro, também perplexo com a notícia que já se espalhava por toda cidade.

            E em pouco tempo a casa de Dona Guiné foi se enchendo de gente que chegava de todos dos cantos da cidade.

            A mortalha na frente da casa anunciava o luto e o velório que se iniciava.

            “51” estendido num caixão de segunda, sobre a mesa parecia sorrir de olhos fechados, como se fosse mais uma de suas gozações.

            Dona Guiné, confortadas pelas amigas beatas, recebia os pêsames pelo neto que batera as botas, ainda tão moço!

            A noite seria longa! Alguém sugeriu que se preparasse um café com biscoitos para enfrentar essas horas todas, onde ninguém sabe o que dizer!...

            Quando o terço começou a ser rezado por Dona Guiné, Zequinha e Zé do Pandeiro já haviam se instalado na cozinha da casa, onde parecia ter menor movimentação. Logo depois,  a eles se juntaram mais dois amigos do peito, “Biritinha” e “Beija-Copo”. Todos constrangidos, ninguém aceitava a morte do “51”. O Zé do Pandeiro, como sempre, chegou com seu macaco de estimação no ombro,  bichinho do qual não se separava jamais. Era um macaco prego.

            - Como é que pode morrer assim rapaz? De repente! dizia um.

            - Pois é, cara, ninguém vale nada mesmo! respondia o outro com ar de revoltado.

            O tempo começou a passar, quando “Biritinha” sugeriu ir lá fora tomar um trago. Ninguém aceitou! A casa lotada, a reza do terço, o olhar triste mas recriminador de Dona Guiné!...

            Essa não! Afinal, “pé-de-cana” tudo bem! Mas tem que ser respeitador!

            - Se vocês toparem propôs “Biritinha”, eu mesmo vou lá no bar e trago uma garrafa de pinga, bem escondida é claro! A noite vai ser longa!...

            - Vai pegar mal insinuou Zequinha, a casa é de beata, a reza lá fora, o morto...

            É só a gente tomar cuidado! Bebemos com discrição, ninguém fica sabendo.

            Foi feita a coleta, a garrafa de pinga veio embrulhada e escondida nas roupas folgadas de “Biritinha”. Era preciso ter cuidado, toda discrição seria pouca!

            Nos primeiros goles, o dedo indicador era colocado entre a boca e o copo, para evitar o barulho do atrito dos vidros ao servir a pinga. E assim foi.

            Depois da primeira garrafa, esqueceram alguns detalhes. Na segunda e terceira discutiram o futebol do “Brasileirão” e depois ensaiaram a batucada na caixa de fósforo, lembrando o “Mal acostumado” do Araketu. Todos já falavam e cantavam bem alto, acompanhados por um pandeiro, concorrendo de forma desleal e acintosa com o terço puxado que vinha lá da sala do morto.

            Foi quando Dona Guiné, entrou na cozinha e colocou todo mundo pra fora!

            - O “51” iria gostar Dona Guiné, se estivesse aqui e agora. Ainda tentou argumentar um dos bêbados.
              Foi nesse momento que o macaco do Zé do Pandeiro recebeu um “cascudo” do Biritinha e saltou gritando e fazendo um escândalo no ambiente. Acabou saltando em cima do caixão que, no alvoroço e corre-corre das beatas,  caiu no chão com o defunto dentro.

            Mas Dona Guiné apressou-se em pegar um cabo de vassoura e foi assim que todos os amigos do “51” saíram trôpegos, mas todos com o dedo indicador na parede que era para não perder o rumo da porta.  Acontece que, uma das beatas amigas de Dona Guiné, vendo a confusão do macaco e dos bêbados na cozinha, não vacilou em ligar para a polícia e, para a surpresa dos amigos "alegres" do "51", o "Camburão" já os aguardava na porta da casa, com as luzes vermelhas piscando!....