sábado, 25 de abril de 2015

O MERCADO CULTURAL

Samuel Castiel Jr







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                 Fincado no centro da antiga Porto Velho, o Mercado Cultural inicialmente denominado Mercado Municipal, representa um dos símbolos da nossa Capital. Criado em 1913, pelo Superintendente Major Guapindaia, passou por reformas e adaptações na administração do Prefeito Joaquim Augusto Tanajura, porém só foi consolidado e inugurado oficialmente pelo Prefeito Ruy Brasil  Cantanhede, em 1950.    Construído no estilo colonial, abrigou no passado  um comércio forte de estivas e mercadorias em geral, peixarias, açougues, frutas,  legumes e verduras, etc. Podia-se encontrar ali também material de construção, botecos, sorveterias, barbearias e também muitas guloseimas como açaí, tacacá, sandubas de “boi-ralado”, cachorros quentes, pasteis e mingaus dos mais variados sabores. Lá também podia-se encontrar  materiais para caça e pesca, peles de animais selvagens, armas e munições. Era um verdadeiro shopping Center de sua época. Esse comércio forte existente no Mercado Municipal, atraía comerciantes e empresários de secos e molhados dos mais variados  setores. Assim é que relembramos alguns dos comerciantes e estabelecimentos que ali se instalaram e marcaram sua época:  Casa Flora, de Luiz Lemos, Casa Pará, de Samuel Castiel, Casa Girão, de José Girão Machado,  Casa de Ferragens de Eneas Cavalcante, Casa das Noivas, de Albertino Lopes,  Loja A Motorista, de Wilson Queiroz, Casa das Peles, de José Oceano Alves, Bar do Zizi e tantos outros. Lembramos ainda do ambulante Dega e dos mingaus da Dona Chiquinha.
                Assim é que o Mercado Municipal foi atravessando o tempo e escrevendo sua história. Foi parcialmente destruído por um incêndio na década de 50.  Sofreu especulação imobiliária, perdendo parte de sua configuração  arquitetônica.  Chega finalmente ao século 21 recebendo uma restauração que o transformou em Mercado Cultural. Um espaço público aberto as artes culturais, principalmente a música. Uma programação semanal apresentada a cada dia da semana,  leva as suas dependências e entorno, centenas de pessoas que são adeptas da boa música.  Apresentadores como Heitor Fecundo apresentando as quintas feiras  a Seresta Cultural, Ernesto Melo, as sextas feiras, levando o Grupo A Fina Flor do Samba,  Beto Cezar com a Roda de Samba, aos sábados, etc. Enfim, o Mercado Cultural passou a ser o ponto de encontro de sambistas, pagodeiros, compositores, artistas, escritores e todos os boêmios notívagos da cidade.
                Para a surpresa de todos, paira  agora no ar, a ameaça de que essa programação cultural do Mercado vai acabar no próximo dia 30 deste mês. O motivo é que os contratos com essa programação não serão renovados. Ainda não se sabe quais os motivos  alegados pelo gestores municipais. Mas, seja lá quais forem, certamente vão frustrar um dos poucos momentos de lazer gratuito, numa cidade onde é cada vez mais raro e caro para que o contribuinte possa desfrutar desses momentos. Esperemos que prevaleça o bom senso desses gestores municipais de plantão.



PVH-RO., 26/04/15

quarta-feira, 15 de abril de 2015







A REVOADA DAS ANDORINHAS

Samuel Castiel Jr.












            Como nuvens negras  em deslocamento, formando grandes desenhos geométricos no céu, elas sempre chegam, ano após ano, anunciando o verão. Atiram-se como flechas buscando um pouso seguro e um abrigo para a noite que chega.  Árvores e  fios elétricos são seus principais alvos. Quando a tarde  vai caindo, fios elétricos e árvores ficam cheios desses pássaros negros, que fazem um barulho estridente com seus milhares de piados. As fezes das andorinhas são ácidas e sujam qualquer carro ou qualquer coisa que fique embaixo delas. Essas aves são da família Hirundinidae, com várias espécies e se destacam de outros pássaros pelas adaptações desenvolvidas para alimentação aérea, pois caçam insetos no ar e para isso desenvolveram corpo fusiforme e asas relativamente longas e pontiagudas. Medem cerca de 13 cm de comprimento,podendo viver até oito anos ou mais. As fêmeas fazem uma postura de 4 ou 5 ovos que são incubados por 25 dias nascendo os jovens pássaros que são alimentados por ambos progenitores. Embora embelezem o pôr do sol, servindo para aguçar a inspiração de poetas e encher  páginas da literatura, muitas  vezes são mortas ou rechaçadas pela sujeira e incômodo que causam. Essas andorinhas são pássaros migratórios e voam milhares de quilômetros, atravessam  oceanos, as cordilheiras dos Andes, vão até os Estados Unidos e voltam a cada ano, preanunciando a chegada do verão. Comem milhões de insetos, contribuindo para o equilíbrio do eco-sistema. Representam também mais um milagre e uma incógnita da natureza e do Criador. O que sabemos na realidade, e  ensinado por nossos avós, é que enquanto houver mais de uma andorinha, haverá verão!...



PVH-RO., 15/04/15







quarta-feira, 1 de abril de 2015


AS PRAÇAS COLORIDAS
Samuel Castiel Jr.













  Sempre as praças me inspiram a sensação de lazer, paz e relaxamento. Os mais atrativos brinquedos, fontes luminosas etc são usados para chamar a atenção das crianças e também dos  adultos. No centro da antiga Porto Velho, lembro-me de todas elas, pois foi nesses espaços que corri de peito aberto, joguei peteca, tomei sorvete e comi pipoca; foi nessas praças que vadiei, escorreguei nos escorregadores, namorei e vi a banda passar. Quantas vezes a noite ficava na praça  Aluizio Ferreira com meu violão, esperando a luz apagar para fazer seresta na casa das meninas do Caiari. O blackout era programado: começava meia noite e terminava as 5:00h. Assim que cortavam a energia, saía com outros amigos para cantar e tocar na porta das minas. Quando era noite de lua cheia a seresta ficava ainda mais romântica. Na praça Mal.Rondon, a paquera seguia rodando nas calçadas, antes do  Cine Resky iniciar sua 1a. sessão de cinema com um forte e imponente sinal sonoro. Muitas vezes a Banda de Música da Guarda Territorial tocava no coreto da praça.
       Essas praças coloridas com matizes de lembranças foram ponto de encontro de muitos casais, que tiveram seus primeiros beijos testemunhados por elas. São o testemunho remanescente de uma época lúdica, dourada, onde não havia lugar para a violência. Acho que todo mundo queria mesmo era ver a banda passar para tocar nos coretos, ou ir assistir aos filmes de Tarzan, as chanchadas brasileiras com Oscarito e Grande Otelo, Costinha e Zé Trindade. Os filmes de faroeste também faziam grande sucesso, com os mocinhos como John  Wyne, Kirk Douglas, Dean Martin, Your Briner, etc. A troca de gibis era também uma atração a mais para nós adolescentes. Com o cabelo penteado, armado com glostora, lá estávamos nós aos domingos trocando aquelas revistas com os colegas.
--Você já leu essa? É a ultima do Jesse James!
--Não. Mostra aí!
--Troco por 2 do Mandraque.
    E assim prosseguia o troca-troca das revistinhas.
     São reminiscências de uma época dourada, onde as praças quase sempre contribuíam para o bem-estar das pessoas que nela iam buscar o relaxamento e o prazer. Hoje muitas delas estão abandonadas, servindo apenas para viciados e assaltantes espreitarem suas vítimas. Longe vão aqueles anos dourados das praças coloridas...




PVH-RO,30/03/15

quarta-feira, 4 de março de 2015

A LISTA DE SCHINDLER E A LISTA DE JANOT

Samuel Castiel  Jr.





















           


      Há um paradoxo histórico entre a lista de Oscar Schlinder e a do Procurador Geral da República Rodrigo Janot. Enquanto o empresário alemão salvou dos campos de concentração e consequentemente da morte mais de mil judeus durante o holocausto, empregando-os em sua fábrica, a lista de Janot contem mais de setenta nomes que deverão ser julgados e processados, dentre os quais parlamentares de diferentes siglas partidárias da base governista e que, pelo contrário, poderão até ficar sem os seus respectivos empregos. Enquanto Schlinder empregava os judeus para livrá-los de Hitler, Janot os leva para a guilhotina. Entregue ontem ao STF, a lista de Janot causou  mal estar e desconforto no Concresso. Correram rumores na mídia que os chefes das duas casas, ou seja Renan Calheiros e Eduardo Cunha, estavam na lista de Janot. Imediatamente o Presidente do Senado e da Câmara se apressaram em desmentir que teriam sido avisados da inclusão de seus nomes na maldita lista de Janot. No final da tarde um grupo de ativistas se aglomerou nos portões de Janot, pedindo justiça e moralidade para soerguer o País do caos da corrupção que se encontra. Apesar da promessa do Procurador de que os culpados serão processados até o fim e punidos  com todo o rigor da lei, ficou muito controverso quando alguns ministros do STF já se manifestaram contra a quebra do sigilo processual, impedindo assim que a sociedade tome conhecimento dos nomes de parlamentares envolvidos no esquema do petrolão. A julgar pelas decisões  da suprema corte, tudo se pode esperar, inclusive nada! Que saudades do ministro Joaquim Barbosa!
            Mas, voltando a lista de Schindler e a de Janot, ambas tem um ponto de convergência: enquanto a primeira abriga e salva judeus do holocausto, a segunda abriga e pode salvar o sonho do povo brasileiro, depurando o Congresso  de abutres que são eleitos apenas  para trabalhar em benefício próprio, insuflando cada vez mais as assas da corrupção. Coitada da Petrobrás!... 

PVH-RO, 04/03/15 

terça-feira, 3 de março de 2015

A NINFO


Samuel Castiel Jr.


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    Tinha uma silhueta sensual, bunda  arrebitada e lábios grossos, inspirados em Angelina Jolie. Também suas pernas eram grossas com as coxas roliças da Claudia Raia. Mas quando teve seus primeiros namorados, sentiu que algo estranho a arrebatava de forma involuntária e compulsiva.  Quando seu primeiro namorado a levou para um cinema, achou uma coisa muito sem graça. Mas quando no  escuro ele beijou sua boca, sentiu um arrepio correr pela sua espinha. Quando ele acariciou seus seios, quase desmaiou. 
       Ainda era uma ninfeta quando um de seus namorados se apaixonou a ponto de noivar e casar. No início ele adorava fazer sexo com ela, mas começou a perceber que ela era insaciável. De manhã, a tarde e a noite queria que ele estivesse em cima dela ou ela estivesse em cima dele. Foi cansando, definhando, adoeceu e morreu sem um diagnóstico convicente. A viúva não ficou muito tempo sem ninguém. Alfredão era um mulato sarado e foi ele que se aproximou da Jusmara. Foram logo direto ao assunto, ou melhor, direto pra cama. O mulato Alfredão ficou entusiasmado com o furor sexual da viúva. Nunca vira antes uma viuvinha tão fogosa. A mulher era insaciável! No início conseguia acompanhá-lá, mas com o tempo foi esmorecendo. Nos finais de semana, Ju queria sexo de manhã, a tarde e a noite! Alfredão começou a voltar mais tarde pra casa. Saia do Banco onde trabalhava e ficava no boteco, jogando sinuca com os amigos. Mas, mesmo chegado tarde em casa, lá estava a Ju toda arrumada com roupas íntimas e insinuantes, debaixo dos lençóis. Aí...a Ju pegava o Alfredão. De manhã cedo, ela acordava e já pulava em cima dele. Tinha que fazer alguma coisa! Já tinha ouvido falar em "furor uterino". Eram mulheres sexualmente insaciáveis, também conhecidas como ninfomaníacas. As vezes, mesmo depois de uma noite de sexo, Alfredão ao voltar pra casa a encontrava assistindo filmes pornôs. Realmente, ele não sabia mais o que fazer. Arquitetou um plano de separação , mas não deu tempo. Adoeceu, foi definhando, perdendo as forças e morreu. O Sushimuro era um japa lutador de artes marciais e foi o terceiro marido da Ju. Apesar de ter um bom físico, era forte, musculoso e "bombado". Mas a estória se repetiu, ou seja, o fogo da Ju aos poucos foi apagando o japa que também definhou, enfraqueceu e Ju o enterrou literalmente.
      Para os amigos e amigas, Ju passou a ser chamada de enterra-marido. Passou também a ter dificuldade para conseguir um novo companheiro. O quarto marido de Ju teve o mesmo fim, pois já não agüentando tanto sexo, ele se trancava no banheiro, num gesto de desespero. Também definhou e aos poucos morreu. Mesmo fogosa como era, quando os pretendentes sabiam da estória, sumiam simplesmente. Ju começou a ter dificuldades para novos relacionamentos duradouros. Saía com um ou com outro, mas ficava só por aí. Chegou mesmo a ter um relacionamento homo, quando entregou-se as volúpias do Sado-masoquismo. Marylu foi sua última paixão. Faziam excurções, cruzeiros, viajavam e estavam sempre juntas. Freqüentavam sex shoppings, onde compravam as últimas novidades do prazer sexual. Mas... a Ju era mesmo uma ninfomaníaca inveterada e aos poucos voltou a desejar homens. Sentia falta do cheiro, das mãos e da penetração masculinas. Certa noite, deu uma escapulida com Jorjão, um crioulo avantajado, cujo membro media cerca de 25 cm. Foi uma noite memorável que quase satisfez a Ju. Chegou até em pensar devaneios conquistando aquele negão para ir morar e viver com ela. Sonhou, sonhou e se aconchegou debaixo do seu edredom. Mas, pra sua surpresa, quando se virou para o seu parceiro, ele não estava mais lá! Foi ao banheiro mas ele também não estava lá. Ficou lívida e quase desmaiou quando leu no seu espelho, escrito com batom vermelho:  "Desculpe Ju, mas sou HIV positivo! Agora você é uma das nossas. A eternidade nos separa ou melhor, nos espera!" - do sempre seu Jorjão"
Antes cair ao chão desfalecida soluçando, Ju ainda pensou:
--Fui mais uma vítima  de  um "bareback"!




Nota do Autor:   “bareback ou barebaking" é uma palavra do inglês que se refere a prática de atos sexuais, sem o uso de preservativos, mais especificamente de sexo anal. Literalmente significa montar a cavalo, sem o uso de sela, ou seja, pele-a-pele. Alguns grupos de americanos e europeus estão aderindo a essa prática suicida, uma verdadeira roleta-russa do sexo. Eles saem pela noite, vão pra cama com vários parceiros ou parceiras sem usar preservativos. Tanto podem contrair como transmitir o vírus HIV e também outras doenças sexualmente transmissíveis. Realmente uma verdadeira roleta russa do sexo.


PVH-RO, 25/2/15






quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

TRÁFICO NA FRONTEIRA
  
Samuel Castiel Jr.











         A tarde ia findando. Martinho Ferry e sua esposa Valeria, como faziam todos os dias, pegaram suas cadeiras de palhinha e as puseram na calçada de sua casa. Ele com 78 e ela com 65 anos, casados a 35 anos, data que lhes parecia tão próxima. Ali sentados, ficavam conversando, com a brisa suave do final da tarde soprando em seus rostos. Nesse dia Valeria havia preparado um suco natural de tamarino que pusera numa jarra com bastante gelo e os dois ali estavam sentindo aquela brisa do crepúsculo ao sabor de tamarino. Valeria adorava aquelas árvores de tamarino, que ela mesma plantara em frente a sua casa, e que produziam frutos tão deliciosos, além da sombra refrescante e convidativa que propiciavam. Conversando viam aparecer no céu as primeiras estrelas e depois a lua.

     Pablo Benites montava uma Honda 1.200 cilindradas, viajava em alta velocidade. Suas vestes escuras e o capacete, faziam-no parecer a figura de uma vespa em movimento. Vinha de Santa Cruz – Bolívia em direção a Guajará Mirim – Brasil. Reduziu a velocidade ao se aproximar da casa dos anciões. Não tiveram ação para nada: o motoqueiro sem dizer uma palavra, sacou uma metralhadora USI e metralhou os dois que ficaram caídos no chão envoltos por uma escura mancha de sangue, que se misturava com os pedaços de vidro da jarra de suco. O cheiro de tamarino e sangue espalhou-se pelo ar.

           Gilbert Volmann, fumava um charuto no hall de sua mansão em Miami Beach, sorvendo uma dose de Royal Salute, na pérgola de sua piscina olímpica, quando vibrou seu celular:
 --Serviço executado, Chefe. 
--Ok, desligo.
           Soltou uma baforada do Monte Cristo cubano e pensou:
 --Gostaria de ver a cara daquele filhinho de papai, pra não dizer filho da puta, quando souber o que aconteceu com seus velhinhos e queridinhos pais!... 
           Gilbert Volmann era um homenzarrão, de origem germânica. Seus pais e avós eram alemães e racistas. Alex Ferry agente da Policia Federal, tinha acabado de comandar uma operação que conseguiu apreender uma gigantesca carga de entorpecentes que, saindo da Bolívia, passando pelo Brasil, na fronteira em Guajará Mirim, conhecida rota de tráfico de entorpecente, seguiria pra S.Paulo e finalmente chegaria aos Estados Unidos e também a Europa. A carga toda chegava quase a 3 toneladas e estava acondicionada em varões e outras estruturas tubulares de bicicletas. Essa operação representou um forte golpe no tráfico internacional de drogas entorpecentes, e cujo chefão era o temível e todo poderoso Gilbert Volmann e que, ao saber que sua "mercadoria" tinha sido apreendida na fronteira brasileira, ainda tentou através de seus tentáculos, corromper o agente brasileiro Alex Ferry. O telefonema que Alex recebeu foi curto e grosso:

 --O chefão soube que você está no comando dessa operação e oferece um milhão de reais para que deixe essa "mercadoria" seguir   em frente até seu destino.

 --Pois diga ao seu chefão que enfie esse dinheiro no seu traseiro! Diga-lhe também que brevemente o FBI vai colocá-lo atrás das grades.
 --Se eu fosse você não faria isso, rapaz, pois o chefão não gosta de ser contrariado...e pode tomar a sua recusa como uma ofensa.

 --Diga a ele que sua casa começou a cair! Já estamos no seu encalço. Brevemente ele vai ver o sol nascer quadrado!
               Desligou.
               Aquela operação realmente desbaratou uma quadrilha de perigosos traficantes e que tinha como chefão o temível Gilbert Volmann. Seis meses depois, um outro carregamento de cocaína e ecstasy foi remetido e chegou com êxito na Europa. Gilbert Volmann programou uma grande comemoração, em sua mansão no   elegante bairro de Sunny Isles em Miami Beat. Aproveitou o casamento de sua filha mais nova, Susan, para fazer uma grandiosa festa. Contratou o melhor Bufett, a melhor banda, cantores de rock e country. Convidou também mágicos famosos e vocais que iriam entoar canções e hinos durante o cerimonial do casamento. As festas promovidas por Gilbert Volmann costumavam durar nunca menos de três dias, com abundância de bebidas, comidas e também muitas mulheres bonitas e famosas, dando sempre ao evento um glamour cinematográfico. A festa começou em grande estilo com queima de fogos e o casamento de sua única filha caçula Susan foi recheado de grandes emoções. A cerimônia foi celebrada por Dom Angelus, o conhecido e popular bispo de Miami. Mas também houve a participação de pastores evangélicos e líderes religiosos de   outros credos. Gilbert Volmann queria agradar a todos. Não queria que alguém saísse falando mal ou insatisfeito de sua festa. Cantores pops como J'BIEBS, Ricky Martin, Shakira e Enrique Iglesias, além de várias bandas se alternaram num palco decorado e muito iluminado com lâmpadas multicoloridas. Havia um glamour em cada detalhe. Um perfume suave campestre foi borrifado na grama e no entorno do grande palco para tornar e o evento ainda mais agradável. Tudo impecável. As comidas eram servidas por um Buffet luxuoso do Monasterio Bay, cujo chef e garçons impecavelmente vestidos serviam ágapes a base caviar, salmão e vitela de cordeiro flambada numa mistura de conhaques e champagnes. As bebidas eram variadas, em destaques os whiskys escoceses e americanos, tipo Royal Salute, The Glenlivet, Black e Blue Label, etc, todos porém com envelhecimento de 21 anos, é claro! As festas de Gilbert Volmann sempre foram glamurosas.

          Na madrugada do segundo dia dessa ruidosa festa, um caminhão furgão estacionou na porta dos fundos da mansão de Gilbert. Em grandes letras lia-se: Buffet Monasterio Bay. Seu motorista desceu e se dirigiu a guarita onde 3 seguranças fortemente armados com metralhadoras portáteis e fuzis esperavam curiosos.

 --Pare e se identifique. Caso contrário abriremos fogo.

 --Calma senhores, falou num inglês arrastado com sotaque latino --venho em paz e estou fazendo apenas o meu serviço. Meu chefe ligou pedindo reforço de canapés, vitelas de cordeiro e mais whiskys. Esse povo come e bebe pra valer!...

 --Just a moment, Guy. Vou falar com o Chef e checar sua informação.

--Ok.

                  Alex Ferry vestia um macacão folgado, bege com a logomarca do Buffet Monasterio Bay. Um boné enfiado em sua cabeça e uns óculos com armação amarela completavam seu disfarce e lhe davam um aspecto mais jovial, um rapaz de classe trabalhadora, talvez um imigrante hispânico. O segurança era um colossal galego, louro e muito alto. Falou no interfone e pediu pra falar com o Chef enquanto os outros cercavam o furgão de Alex empunhando suas metralhadoras e fuzis.

--O Chef Antonny não está na cozinha--respondeu uma voz afeminada.Foi atender pessoalmente ao chamado de Mr. Gilbert. Mas em que posso servi lo?

--Chegou aqui na portaria um furgão trazendo reforço de comida e bebidas. Só quero checar.

--Não tô sabendo... mas do jeito que essa multidão come e bebe é possível que o Chef tenha se antecipado pra não pedir reforço depois que as comidas e bebidas se acabarem. Tenha um pouco de paciência e já retorno e satisfaço a sua interrogação.

 O segurança voltou e dirigiu-se ao Alex com mal humor:

--Você vai ter que esperar meu rapaz! O Chef não está a postos. Foi   atender pessoalmente ao Mr. Gilbert. Entre no seu caminhão e aguarde.

          Alex não discutiu. Subiu no estribo do furgão e jogou-se na poltrona almofada do motorista. Depois de esperar aproximadamente uns quarenta minutos sem que nada acontecesse, desceu novamente do furgão e dirigiu-se a guarita.

--Olha aqui gente, eu acho que esse negócio tá demorando muito e as coisas aí dentro são perecíveis, as comidas vão acabar se estragando. Além do mais tenho muitas coisas a fazer lá no restaurante, onde ganho polpudas gorjetas como garçon. Estou aqui praticamente de favor! Venho atender ao chamado do Chef e acabo tendo que ficar aqui esperando não sei o que!... Vou lhe dizer uma coisa seu segurança: mais cinco minutos aqui dou meia volta no furgão e volto pro restaurante.

           O segurança resmungou alguma coisa e pegou novamente o telefone: --Shet! Agora nem chama. Vamos fazer o seguinte cara: você entra com esse maldito furgão, descarrega essa droga na cozinha e volta imediatamente. Vou lhe dar meia hora no máximo. Caso contrário eu mesmo vou lá dentro e trago você na porrada. Entendeu?

--Ok. Prometo que volto já, pois o interesse de acabar com isso mais rápido é só meu.

            Os portões e abriram e o furgão entrou no entorno da mansão. Alex dirigiu seu furgão para os fundos da mansão. Ia pensando em todos os detalhes de seu plano. Estacionar seu carro junto aos demais furgões com os letreiros do Buffet Monastério Bay. Precisava misturar-se com os garçons e cozinheiros. Sabia de todos os hábitos de Gilbert Volmann, mas principalmente aquele que mais lhe interessava: só utilizava seu próprio banheiro, ou seja, do seu próprio quarto, pois era portador de Nosofobia, ou seja tinha neurose por limpeza e pavor de bactérias ou de adoecer. Lavava suas mãos três ou mais vezes quando saia do vaso sanitário, sempre usando alcool-gel Alex entrou na carroceira do seu furgão, já estacionado no meio dos demais caminhões,  trocou suas roupas. Era mais um garcon a servir aos convidados de Gilbert Volmann. Checou o estoque de Guttalax que trazia nos seus bolsos. Pendurou sua pistola 9 mm, com silenciador num coldre axilar. Agora só restava juntar-se aos mais de 100 garçons e inúmeros cozinheiros. Aproximou-se do Chef Antonny o suficiente para ouvi-lo ordenar a um garçon que levasse mais canapés e bebidas para o camarim de Mr. Gilbert. Imediatamente Alex seguiu o garçon e se ofereceu:

--Posso ajudar? Ouvi o Chef Antonny lhe passar essa missão. Sei que Mr.Gilbert é apressado e nós dois poderemos levar seus comes-e-bebes mais rápidos.

 --Ok. Mãos a obra então. Pegue os canapés de caviar e eu levo os champagnes e whiskys.

               Era o que Alex esperava. Aproximou-se das bandejas de guloseimas, e marcou uma das bandejas com um pedacinho inexpressivo de adesivo. A seguir tirou de seu bolso uma embalagem de Gutalax e derramou toda sobre os canapés de caviar. Depois repetiu a operação mais umas três ou quatro vezes. O Gutalax liquido  tinha a vantagem de ser inodoro. Não seria percebido, tinha certeza. A seguir chamou seu parceiro garçon:

--Vamos nos apressar, Will. O chefão já deve estar esbravejando!...

--Ok, boy, vamos lá!

          A cena era digna do filme "Mil e uma Noites"--pensou o agente. O camarim de Gilbert todo decorado com pufs coloridos, tapetes persas, com iluminação indireta, fechado com vidros fumê e climatizado. Sentado, como se fora um pachá, em uma grande poltrona, usando óculos escuros, Gilbert Volmann recebia carinhos e afagos de duas belas louras de seios fartos, que pareciam querer saltar de suas roupas. A fumaça do charuto Havana de Gilbert impestava o ambiente. Quando nos viu entrar vociferou:

 --Malditos garçons! Faz quase uma hora que pedi reforço ao Chef e só agora vocês aparecem?! --É que...

 --Shut up! --Sirvam primeiro essas duas lindas bonecas! Ou não aprenderam bons modos?

       O agente teve o cuidado de virar a bandeja marcada com o adesivo, servindo a elas o caviar isento do Guttalax. A seguir postou toda a bandeja-bomba a frente do chefão. Gilbert era um homem guloso. Comia muito e estava muito acima de seu pêso. Alex sabia que teria no máximo uns vinte minutos para agir. Saiu da cozinha e entrou nos grandes salões da mansão. Precisava encontrar rapidamente o quarto do chefão. Havia um luxo em todos os detalhes, porém com muito espalhafato. Sem dúvida alguma Gilbert era além de mafioso, traficante e contrabandista, dotado também de um péssimo gosto. Literalmente, um deslumbrado "Young Rich"(novo rico). Subiu uma escadaria curva, estilizada, contruída em aço escovado, com os detalhes e corrimãos em uma liga de ouro. Não foi difícil achar os aposentos de Gilbert pois duas arrumadeiras quase o surpreenderam ao deixarem o quarto de Gilbert comentando:

--Ainda bem que o festão já vai pro seu último dia! Que trabalheira, heim?!

 --É. E o chefe só reclama! Esse seu quarto fica um chiqueiro de sujeira quando ele traz pra cá essas piriguetes. Até as cortinas estão   impregnadas desse maldito charuto!

            O agente rapidamente se escondeu na reentrança da parede. Esperou as duas camareiras se afastarem e dirigiu-se para o quarto do chefão. Não teve dificuldade de abrir a porta com sua gazua. As camareiras tinham razão: uma suntuosa cama com um espaldar alto, entalhado em madeira nobre, onde estavam esculpidas figuras da mitologia grega, como A deusa do amor Afrodite e o todo poderoso Zeus, o deus da Guerra. Mas, o odor de tabaco cubano estava impregnado no ambiente. Um enorme closet separava o dois ambientes. O banheiro muito espaçoso, revestido por grandes espelhos e iluminação indireta, saindo de sancas de gesso. O lavatório tinha uma grande cuba de marfim e a torneira central estilizada imitando o pescoço de um ganso, era de ouro, ladeada de outras duas menores, com canoplas e componentes também em ouro maciço. A banheira era em marfim com duchas laterais para hidromassagem. A temperatura da água era regulada por controles digitais. Tudo era um luxo! O exagero porém de alguns detalhes era da figura excêntrica de um novo-rico! Alex espantou-se com o barulho da chave abrindo a porta do quarto. Rapidamente escondeu-se num dos muitos guarda-roupas do closet. Gilbert entrou quase correndo e passou direto para o vaso sanitário.Sabia que o efeito do Guttalax era rápido, mas não tanto. Essa composição do Guttalax ou seja: pisicossulfatosódico a 7,5 mg, com excipiente metilparabenzeno e sorbitol a 70%, associado a água desionizada nunca falhara, principalmente na superdosagem que usara. Não deu tempo de tirar sua calça, apenas afrouxou o cinto e a baixou. O efeito purgativo do dulcolax foi fatal. E pelos gemidos ele estava com muitas cólicas. O agente ainda esperou alguns minutos até sair do guarda-roupa. Empunhando sua pistola com silenciador entrou no banheiro. Gilbert esboçou levantar-se do vaso mas o disparo da pistola o impediu, acertando seu ombro e o atirando para trás.

 --Quem é você, maldito! E o que quer de mim?

--Isso você vai já saber, seu porco imundo! Aproximou-se, pegou o   chefão baleado pelos cabelos e olhando bem dentro de seus olhos, disse quase sussurrando no seu ouvido:

 --Sou Alex Ferry, agente da Policia Federal do Brasil. Órfão de meus pais porque você mandou matá-los seu canalha! Vim para vingá-los e livrar o mundo de um verme como você! Os olhos de Gilbert se arregalaram quando a faca do agente penetrou seu abdome ao nível do umbigo decepando sua aorta. O sangue esguichou enquanto o agente o arrastou para a banheira luxuosa, jogando-o para dentro e abrindo as torneiras. A água começou a subir na banheira, mesclada de sangue. O agente Alex saiu rapidamente dos aposentos de Gilbert, trancando antes a porta pesada do quarto. Desceu a escadaria quase correndo, quando ouviu vozes no corredor. Eram as loiras de peitos fartos Estavam embriagadas e chamavam por Guil. Alex esgueirou-se escondendo-se das loiras e entrou no quarto destinado aos garçons. Rapidamente trocou sua roupa sujas de sangue pelo macacão do Buffet Monasterio Bay. Colocou sua roupa suja na mochila, seus óculos de armação amarela, enfiou o boné em sua cabeça e saiu correndo para o furgão. Ao chegar na guarita, o segurança mostrengo apontou sua metralhadora para ele e falou mal humorado:

 --Alto aí meu caro! Mais dois minutos e eu já iria trazer você no ponta-pé, entendeu?

 --Calma aí meu amigo! Eu já voltei, cumpri a minha missão e estou caindo fora. Se bem que eu gostaria mesmo era de aproveitar um pouco mais essa festança.

 --Get out! ( cai fora ) antes que eu me arrependa.

         Alex dirigiu seu furgão para o aeroporto de Miami. Os painéis com letreiros de embarque anunciavam que o chek in de seu vôo estava se encerrando. Correu para a sala de embarque e foi o ultimo passageiro a entrar na aeronave. Nas alturas, o agente Alex declinou sua poltrona e pensou: --Certos vermes tem que ser eliminados para que se interrompa o seu ciclo de morte! Só acordou quando a comissária anunciou: --Senhores passageiros queiram voltar suas patronas para a posição normal. Dentro de poucos minutos pousaremos no aeroporto internacional Brigadeiro Eduardo Gomes,em Manaus. Alex pegou a.noite uma conexão para Porto Velho, e no mesmo dia seguiu para Guajará-Mirim, onde deveria fazer mais um plantão na sede da Policia Federal naquela fronteira que já era considerada uma das mais importantes rotas do tráfico internacional de entorpecentes.




 PVH-RO, 9/1/15

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

INCÊNDIO NO CUNIÃ

INCÊNDIO NO CUNIÃ

Samuel Castiel Jr.









          





           
             
             (  Macacos me mordam, mas nunca fumem!...)


        
Ele sempre foi um "bon-vivant". Filhinho de papai, carrão importado, nunca se formou em nada, apesar de estar sempre matriculado em alguma faculdade. Freqüentava as melhores casas da noite carioca. Viciado em maconha, ecstasy e cocaína. O crack não o atraia, pois tinha medo do seu efeito deletério no cérebro. Sempre teve um porte físico atraente, era alto e musculoso. Freqüentava academias quando não estava em crises de depressão. Seus pais abastados viviam criticando sua maneira irresponsável de viver.
        Certa noite, Marcelão, curtia uma balada na boate 021, depois de já ter passado em mais umas 3 na Lapa quando se deparou com Julieta, mais conhecida por Ju. Cruzaram olhares e logo se identificaram. Tinham tudo a ver  um o outro! Ela também era
"patricinha"filhinha de papai, geneticamente rica por herança, nunca trabalhara e nunca quis nada com os estudos. Freqüentou algumas faculdades mas não se formou em nada. Beberam alguns whiskys a mais e foram para o apartamento do Marcelão no Leblon, onde puderam se conhecer mais profundamente!...Ju estava encantada com aquele homem, rico, bon vivant e que sabia aproveitar as coisas boas da vida. Como ela, sua filosofia de vida era viver a vida mesmo que fosse na corda bamba, linha divisória entre o bom viver dos abastados e o imensurável abismo das drogas. Marcelão também achou  a Ju muito interessante. Principalmente quando soube que ela era rica, que vivia de renda e que seu pai deixou para ela inúmeros imóveis e até mesmo prédios na capital de Rondônia, Porto Velho. Ficou também muito interessado nas terras que Ju lhe disse possuir, cerca de 50 hectares, na Reserva Extrativista do Cuniã,  nos arredores de Porto Velho. A reserva toda era imensa, com  uma extensão de cerca de 55.850 hectares, a margem esquerda do rio Madeira, no sentido de Humaitá. Lá a Ju explicou-lhe com detalhes seu projeto de piscicultura, onde mantinha tanques naturais para a criação do pirarucu, tido como peixe nobre para exportação para os Estados Unidos e Europa. Vários tanques foram criados dentro do próprio lago do Cuniã, com cercagem especial de nylon. Ali os peixes eram colocados como alevinos, alimentados com Tilápias e ração especial para crescimento e, em cerca de 3 anos, já podiam ser abatidos para exportação. Os contratos seriam fechados com grandes frigoríficos internacionais, com pagamento certo em dólar e euro. Tudo parecia muito atraente para o Marcelão, principalmente porque ele não iria precisar meter a mão na massa. Um bom gerente e alguns colaboradores resolveriam todos os problemas. Além do mais, poderia mostrar aos seus pais que não era aquela pessoa inerte que eles sempre acharam que fosse! Aceitou quase de imediato a proposta de Ju, de ir com ela para gerenciar seus negócios e seus tanques de pirarucu. Poderia sair daquela selva- de- pedra, respirar o ar puro da floresta, comer peixes saldáveis das águas doces do Cuniã. Sabia também que teria que viver e desfilar com a Ju em todas as baladas. Mas, pensando bem entre a vida vazia e monótona que levava e naquela vida cheia de aventuras que lhe acenava, resolveu encarar:
-- Minha doce Ju, você acabou de arrumar um companheiro e um gerentão para os seus negócios! Vamos ser os maiores exportadores desse pirarucu.
            Viajaram em lua-de-mel, primeiro para Miami, voltaram por São Paulo e finalmente chegaram a Porto Velho.  As terras de Ju eram extensas e privilegiadas, a margem do lago Cuniã. A reserva era lindíssima, extremamente bem cuidada e vigiada, ficando a cerca de 130 km de Porto Velho. Ali se reproduziam milhares de espécies, vegetais e animais. Revoadas de araras coloridas, papagaios e curicas passavam em bandos mal o dia começava a clarear. Borboletas multicoloridas formavam como se fosse um tapete nas areias brancas das praias que se formavam quando as águas baixavam. Macacos diversos desciam das árvores e vinham  buscar comida nas cozinhas e até mesmo nas mãos de quem lhes oferecesse.  A noite, o canto de pássaros noturnos misturava-se com ruídos longínquos de onças e outros felinos. Era um verdadeiro paraíso no meio da selva tropical. A casa de Ju era uma verdadeira mansão, porém obedecendo aos padrões da reserva, ou seja construída em madeira e coberta de palha artesanalmente trançada. Os cômodos eram de luxo, climatizados, com iluminação indireta, TV LED, HD FULL, Multimídia, DVD Play, som com Home Theater, frigobar, espelhos nas paredes, etc. No hall uma grande piscina, com deck, um bar muito iluminado e com uma variedade incrível de bebidas. Marcelão gostava mesmo era de atar sua rede na varanda do hall, onde ficava a se embalar por horas até o sono chegar. Quando a Ju vinha da cidade para dormir com ele, os dois ficavam a se embalar na rede, tomando whiskys importados e fumando charutos cubanos. Nas noites de lua cheia, apagavam todas as lâmpadas e deixavam que uma réstia de luz prateada viesse iluminar aquela rede onde se amavam até que o clarão  do raiar de um  novo dia os surpreendesse sonolentos! Amaram-se assim por alguns meses, até que Marcelão e Ju andaram se desentendendo. Marcelão além de não gostar de trabalhar, estava  sentindo-se cansado de tudo. Bebia demais, fumava também demais. Voltou a usar drogas, porém usava todas as noites a maconha, que era mais fácil de  comprar. Deitava-se naquela rede, tomava uns whiskys e acendia um charuto que não era mais cubano e sim um tarugo de maconha. Certa noite de sexta-feira, sentindo-se deprimido, Marcelão estirou-se na rede, colocou uns três tarugos de maconha na mesinha de cabeceira, próximo a rede, serviu uma dose dupla de whisky com bastante gelo e embalou-se maciamente algumas vezes na rede até que adormeceu. Alguns macacos pregos e barrigudos  haviam entrado sorrateiramente na mansão e se alojado sobre os caibros de madeira, próximos a cobertura de palha, onde eram praticamente invisíveis para o Marcelão. Esses macacos já estavam acostumados a entrar e dormir ali todas as noites, saindo bem cedo para comer frutas e folhas das arvores. Estavam também acostumados a assistir o Marcelão beber whisky, acender e fumar seus tarugos de maconha.  Nessa noite o macaco-chefe do bando, foi mais ousado: desceu, aproximou-se da escrivaninha perto da rede do Marcelão, pegou um tarugo de maconha e a caixa grande de fósforos. A seguir subiu novamente para os caibros da cobertura, colocou o tarugo na boca e, imitando o Marcelão, riscou o fósforo tentando acender o tarugo de maconha, mas como não conseguia, levantou o braço com o fósforo aceso, tocando na palha seca da cobertura. O fogo pegou de imediato, pois a palha estava muito seca pelo sol abrasador daquele verão. Não deu tempo para mais nada. Os macacos fugiram rapidamente, o Marcelão quase morreu intoxicado pela fumaça, não deu pra salvar nada. Quando os bombeiros chegaram só encontraram as cinzas na mansão da Ju. O fogo destruiu ainda mais de cem hectares de floresta da reserva, com um prejuízo incalculável da flora e fauna do reservatório. O incêndio durou quase uma semana para ser controlado, mesmo usando todos os recursos disponíveis, inclusive helicópteros da força aérea.
         Marcelão voltou para o Rio. Depois de alguns dias deixou uma mensagem de voz na caixa da Ju:
--Espero que me perdoe, Ju. Juro que foi um acidente, até agora não sei como aquele incêndio começou. Mas independente de tudo que aconteceu, quero dizer a você que eu já havia chegado a conclusão que não tinha mesmo nenhuma aptidão para seus tanques de pirarucu.
          Os contratos com os frigoríficos internacionais não foram cumpridos, gerando multas que tornaram insolventes os negócios da Ju.

Nota do Autor: O presente conto é baseado em fato real ocorrido naquela reserva. Os personagens entretanto são fictícios e qualquer semelhança terá sido mera coincidência.


PVH-RO., 1º/12/14