quinta-feira, 4 de julho de 2013

GOSTO NÃO SE DISCUTE


Samuel Castiel Jr.

             Aristóbullus sempre foi tímido  desde menino, na adolescência e, agora, já homem feito! Em virtude dessa tamanha timidez, principalmente com as mulheres, ainda era virgem! Descendente de pais e avós gregos, solteirão já aos 35 anos, bancário de profissão, brevilineo, pícnico, vermelho, careca e gordo. Isto é, tinha todos os requisitos para ser ainda mais tímidos com as mulheres! Últimamente passara a ter insônias e, para não ficar numa vigília irritante e sem sentido, pensando num amor que não conseguia, ia para a Lanhouse próxima a sua casa e ficava longas horas nas salas de “chats”. Batia papo com as pessoas mais diversas e diferentes! Aí sim, foi perdendo toda a timidez! Sua preferência eram os sites de relacionamento, onde ficava por horas a fio conversando com mulheres, desde jovens adolescentes até “coroas” aposentadas. Gostava mesmo era das solteironas de meia idade. Já eram resolvidas, tinham mais experiência!...No início tal era sua timidez que, mesmo pela internet, ruborizava quando a conversa descambava para sexo. Depois foi ficando mais solto, já comentava até sobre relação sexual por telepatia ou virtual!...O tempo foi passando e o Aristóbullus gastando mais as suas noites nas salas de “chats”. No trabalho do Banco durante o expediente, sentia muito sono, chegando mesmo até a ser repreendido pelo seu gerente:

--- Aristóbullus, me desculpe, mas parece que você passou a noite acordado!...

     Desculpava-se alegando que estava estudando para fazer um concurso para a Receita Federal.

      Numa noite dessas, quando estava ligado num site de relacionamento, viu um anuncio que chamou sua atenção:   “ Se você é um homem entre 30 e 45 anos, solteiro, e deseja relacionar-se com mulheres solteiras ou descompromissadas visando relacionamento estável, cadastre-se já e brevemente não estará mais só! Possuimos um banco de dados de milhões de pessoas que se relacionam no mundo inteiro! Não fique mais sozinho!...A solidão deixa o ser humano neurótico e mata você mais rápido!...” Aristóbullus não pensou duas vezes: cadastrou-se imediatamente! Ficou ansioso durante toda a semana, até que começaram chegar mensagens no seu e-mail: eram as mais diversas possíveis! Louras, morenas, ruivas, magras, musculosas, bombadas, rechonchudas, baixinhas, altas, de bum-buns arrebitados, outras nem tanto, mas falando de pernas grossas, torneadas, de voz mansa, românticas, mandonas, submissas, masoquistas, sádicas, bi-sexuais, lésbicas,  adeptas ao “ménage-a-trois”, etc. Interessou-se particularmente por uma loura, branca, de 38 anos, com 1,75m de altura, corpo esguio e seios fartos, com cerca de 350 ml de silicone cada um, apenas para melhorar seu perfil e torná-la mais atraente! Priscylla era o seu nome.  De lábios carnudos, sabia beijar como ninguém! Adorava chamegos e carinhos, desde pequenos afagos até caricias mais audaciosas... Tinha pernas grossas, bum-bum arrebitado, solteira, sem nenhum filho. Dividia o apartamento  em uma estância com uma amiga de repartição, no bairro do Meier, no Rio. Tinha muito em comum com o Aristóbullus, mas principalmente porque era também muito tímida! A partir daí falavam-se todos os dias. Não só pela internet mas também pelos celulares, quando a saudade crescia muito!... Aristóbullus ficava ansioso quando a Pri não ligava durante alguns dias. Ficou mais ansioso quando ela pediu que gostaria de ver uma foto sua. Afinal, a quase três meses já se correspondiam e, pelo menos por foto, queria conhecê-lo. E agora? – pensava o Aristóbullus. Vai acabar tudo! Quando ela souber que, por trás da minha voz de locutor de travesseiro, esconde-se um baixinho, careca, barrigudo e ainda por cima tímido! Qual será sua reação? Vai acabar toda a empolgação e volto pra minha solidão!...Pensou em mandar uma foto de óculos escuros e de boné. Mas ela não iria gostar. Depois de refletir muito sobre a foto e o seu perfil físico, resolveu mandar a foto verdadeira, ou seja, de como ele é mesmo! A sua sorte estaria lançada! De qualquer forma, a Pri teria que saber como ele é, mais cedo ou mais tarde. Enviou suas fotos pelo “Whats App”, sorrindo, uma de frente e outra em plano obliquo,  ambas ao lado de uma moto “Halley Davidson” que tinha tirado recente, no parque do Anhembi, em uma Exposição de motos em São Paulo. A Priscylla, pra sua surpresa, parece que gostou do seu visual de bancário e sedentário. Enviou-lhe também algumas fotos suas, onde aparecia montada em um cavalo manga-larga, num haras, usando um traje de competição, com botas longas e rebenque na mão. Em outras aparecia de “fio dental” ”pegando” uma cor na praia de Ipanema. Linda gata! – pensou o Aristóbullus. Não posso perder essa oportunidade de encontrar a minha cara-metade que vai me salvar das noite de solidão e insônia. Um mês depois,  marcaram para se encontrar finalmente. O Aristóbullus tirou suas férias e voou de ponte aérea  para o Rio, de encontro aquela que seria a mulher de sua vida, a primeira e única! Do aeroporto seguiram para o Savoy Hotel em Copacacabana, onde havia feito reserva num apartamento pra casal. --Não vamos ficar aqui por enquanto – disse Aristóbullus. Só deixamos nossas malas e vamos ao restaurante comemorar esse encontro que começou virtual e hoje passou a ser presencial!

--Ok Aristó, você é quem manda! – Sussurou a Pri na orelha do Aristóbullus, que sentiu um arrepio!

   Desceram até o restaurante, pediram um champanhe francês, “scargot”, caviar, etc... Brindaram aquele encontro que começava e tinha tudo pra dar certo.

   Depois de alguns taças do champanhe, a Pri fez uma cara de preocupada, dizendo ao apaixonado Aristóbullus:

-- Aristó, eu preciso lhe contar um pequeno detalhe. Ouça-me, quero que fique bem a vontade para se decidir depois de ouvir esse meu segredo. Você tem sido um cavalheiro comigo. Acho que até gosta mesmo de mim. Por isso sinto-me na obrigação de revelar-lhe que sou um caso raro de intersexo, ou seja, apesar dessa aparência toda feminina, nasci com meus órgãos genitais internos femininos e os externos masculinos. Tenho vagina, útero, trompas e ovários, mas também tenho bolsa escrotal, testículos e pênis. Os órgãos femininos são perfeitos, ou seja, de função e volumes normais. Já os masculinos são menores que o normal, quase atróficos. O meu pênis, por exemplo, em estado de ereção chega a medir 12 cm, quando o normal atinge 15, 18, 20 ou até mais. Mas, sou consciente desse meu problema, já consultei vários especialistas, sendo que essa anomalia é considerada rara, pois ocorre 1 caso entre  100.000 nascimentos. Já realizei todos os exames, decidi por fazer a cirurgia de correção, extirpando os órgãos masculinos que são menores e mantendo os femininos. Aí então serei uma mulher absoluta! A cirurgia será daqui a uma semana. Já fiz todos os exames pré-operatórios. Apenas transferi a cirurgia para poder encontá-lo. Mas antes, eu precisava contar-lhe toda a verdade sobre essa minha situação sexual.

    O Aristóbullus permanecia mudo e perplexo! Nervoso, já tinha sorvido quase toda a garrafa de champanhe. Disse apenas:

--Pri, vamos pedir o jantar, dormir, e amanhã voltaremos ao assunto. Gosto de você Pri, e apenas quero dizer-lhe que não tenho nenhum preconceito pelo intersexo que você possui e acaba de me revelar.

    Foram para o quarto, e a vigília do amor foi inevitável. No dia seguinte, após o café da manhã, sem muitos arrodeios, o Aristóbullus ficou ruborizado e disse:

--Pri, pensei muito no seu caso e cheguei a conclusão de que, para o nosso bem, você deveria era cancelar definitivamente essa cirurgia!...

--Ok Aristó, é como eu sempre digo, gosto não se discute...O importante é vê-lo feliz!
    Casaram-se naquele mesmo mês, aproveitando as férias do Aristóbullus. A Pri com certeza absoluta era a mulher com quem ele sempre sonhara!...


                                                                     PVH-RO, 04/07/13

terça-feira, 2 de julho de 2013

ENTRE A CRUZ E O SABRE


Samuel Castiel Jr.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

    Filho legítimo de beata paraibana, coroinha da igreja e acostumado com as novenas em sua casa toda primeira segunda-feira do mês, onde sua mãe juntamente com outras amigas beatas, costumavam “puxar” o terço, Apollônio não relutou quando foi matriculado no seminário da Ordem Franciscana, em cidade interiorana da Paraíba! Não era bem isso que queria mas, afinal, era o desejo de sua mãe! O que mais o incomodou foi ter que deixar pra trás a namoradinha de quem já começava a gostar! Quando depois de alguns meses soube que ela já estava “ficando” com um de seus melhores amigos, chegou a adoecer! Não quis mais comer, praticar esportes nem pensar! Desde essa época, fez um juramento que jamais viria a gostar de qualquer outra mulher! Pelo contrário, seria um homem frio, até mesmo porque estava a caminho do celibato!...Os padres chegaram até a encaminhá-lo para o ambulatório médico, onde fez exame de sangue, fezes e urina, sem ter nenhum diagnóstico orgânico para aquela sua apatia! Tinha que ser mesmo coisa da mente! Mas, como sempre o tempo tudo acomoda, o Apollônio voltou a sorrir! Nos anos seguintes, com novos seminaristas chegando, o Apollônio foi entrando na rotina do seminário: assistia missa bem cedo, as 6:00h da manhã, as aulas de teologia começavam as 7:30 se prolongavam até as 17:00h, com intervalo para o almoço. Depois da última aula praticava esporte até as 18:30, tomava banho, jantava, outra missa noturna, a leitura do breviário e cama! Aguentou ainda dois anos! Abandonou o seminário como entrou, ou seja, sem sentir nem deixar saudades! Sua mãe chorou mas acabou tendo que se conformar: eram os designos de Deus! Melhor sair antes de ser padre do que depois ter que largar a batina por causa de uma perua qualquer!...

      Apollônio começou então a cultuar seu próprio corpo! Entrou para a Academia, “puxou” ferro e tomou muita “bomba”!Acabou ficando bombadão! Trabalhar nem pensar! Vivia de limitada mesada que sua pobre e beata mãe lhe dava! Terminou o segundo grau na “marra”, arrastando-se que nem cobra! Mas gostava de vestir-se bem, com grifes das melhores marcas. Só tinha amigos da classe media alta. Procurava namorar com as “patricinhas”, filhinhas de papai, desfrutando assim de mordomias, mimos e confortos! Especializou-se nessas conquistas e se transformou num verdadeiro “caça-dotes”. Foi assim que conheceu a patricinha Takiki Mamimandu Sabre, uma nissei legítima, filha do samurai Furubuchi Sabre e sua esposa, ex-gueixa em Tóquio,Fuchichiko Ikuta Sabre. A família de grandes posses, podia ser classificada como classe média alta, ou classe A, como queiram! Era tudo que o Apollônio desejava! A Nissei era quase perfeita, e chegava até ser atraente, com pernas grossas e um corpinho sarado, como uma orquídea desabrochando, nos seus primaveris 15 aninhos!...Ela também freqüentava a Academia, e foi lá que se conheceram. Alguns meses andaram “ficando”, mas Takiki queria uma relação mais séria! Apresentou Apollônio a seus pais. E, como filha única, gozava de todos os mimos e afagos! O samurai Furubuchi não gostou muito da cara do Apollônio! Era bem mais velho que a Takiki, já com 26 primaveras no lombo! Mas, fazer o quê? Sua esposa Fuchichiko sempre o advertia, que a coisa é pior quando se proíbe o namoro entre os jovens. Vira “birra”! Aí é que o” bicho pega, né?!”...Por ele, samurai e acostumado com as tradições japonesas de seus ancestrais, jamais teria consentido aquele namoro! Como samurai, lutou em varias frentes na defesa de sua cidade lá no Japão, quando invadida por mercenários e matadores de focas e baleias! Era um homem exótico, praticante de artes marciais, tendo conquistado vários Dans até chegar a faixa-preta de Judô, Jiu-Jitse, Takendô, esgrima e lutas com sabre. Também era ninja! Tinha um temperamento forte e esses esportes o ajudavam a manter o equilíbrio!

     Alguns meses depois de aceito o namoro, num descuido de Takiki, aconteceu a indesejável gravidez! Foi aí que a coisa começou a dar errado para o Apollônio! Não queria deixar aquela vida, no bem-bom, com seu boi na sombra, como costumava dizer! Mas casar mesmo, de papel passado, queria não! Ia perder sua liberdade, seus amigos do futebol, do botequim, as paqueras e as conquistas nas quais tinha se especializado! Como poderia perder tudo isso pra ficar com a japinha, tendo hora pra sair, pra chegar, tendo que dar mamadeira para o bebê madrugada a dentro! Essa não! Não iria resistir! Tinha plena convicção! Primeiro falou para a Takiki que o casamento nem passava pela sua cabeça! Ela se decepcionou, se deprimiu! Quando a conversa chegou para sua mãe Fuchichiko, a coisa piorou ainda mais para o Apollônio. Pediu então que não falasse ainda para seu pai.

-- Sabe como o seu pai é! Não vai aceitar! Pode ficar violento. Tenho medo que perca o controle!

    Quando perdia o controle e ficava violento, ninguém conseguia dominá-lo. Ainda mais com aqueles sabres!...Quebrava tudo que via pela frente, seus olhos ficavam injetados, vermelhos, pareciam que iam saltar das órbitas, cuspindo chispas de fogo! Tinha que tomar sedativos durante vários dias para voltar ao normal.

    Apollônio tinha medo dele! Mas não podia esperar mais! A barriga da moça crescendo... Resolveu enfrentar a fera!

-- Seu Furubuchi, quero falar-lhe sobre sua filha. Ela está gávida! Nós não queríamos, mas aconteceu!

   Os olhos do samurai Furubuchi chisparam, seus dentes rangiram!

--Que estória é essa rapaz? Você enlouqueceu?

--Calma Seu Furubuchi! Nada que não se possa resolver! Podemos providenciar para que ela se livre dessa gravidez!

   Agora não foram só o olhos do samurai que chisparam! Pegou um de seus muitos sabres que decoravam as paredes do seu escritório, cheio também de espadas e armaduras medievais, e investiu contra o Apollônio.

--Vagabundo, né?! Pensando que filha minha ser vagal qualquer, né?! Vou mostrar pra você como samurai decapita vagabundo tarado como você!

    Com gritos de ataque nas lutas marciais, uma perna na frente e outra pra trás, ambas semi-fletidas para manter o equilíbrio, levantou o sabre com ambas as mãos e  cortou ao meio a mesinha de centro! O segundo golpe passou raspando o pescoço do Apollônio que pulou de banda e procurou abrigo atrás da poltrona, tirando antes um grande crucifixo em bronze da parede, agarrando-se a cruz, implorou:

--Arr Maria Maínha, pelo sangue do Menino Jesus, salvai-me desse samurai!

   Nisso, ouvindo os gritos de ataque do japonês, sua secretária abre a porta e entra correndo na sala, deparando-se com aquela cena! Agarra-se ao japonês:

--Pelo amor de Deus não faça isso Sr. Furubuchi!

   Apollônio aproveitando-se da oportunidade e da porta aberta, “vaza” descendo aos saltos pela escada abaixo, em desabalada carreira! No dia seguinte, o Diretor Geral do Seminário Franciscano (SF) recebe o ex-aluno Apollônio pedindo por tudo que lhe fosse mais sagrado, que reconsiderasse o seu abandono a instituição, e o aceitasse de volta ao seminário. Além de cansado e arrependido da vida mundana, tinha tido uma visão sinistra e aterradora, onde um samurai enloquecido queria decapita-lo, colocando-o entre a Cruz e o Sabre! Mas ele Apollônio, é claro,tinha optado pela Cruz!

Um ano depois foi ordenado o padre Apollônio!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                           PVH-RO, 28/06/13

quinta-feira, 20 de junho de 2013


O  SONHO DE VOAR
Samuel Castiel Jr.

Bandidos, assassinos cruéis

Perseguiam meu carro pra me matar!

E eu fugia com asas velozes, fiéis

Cantando os pneus do meu velho Jaguar!

 

Metralhadoras surgiram disparando

E os vidros foram se estilhaçando!...

Virei a direita, a esquerda e pisei mal

No freio, dei um “cavalo de pau”!

 

Furiosos  também eles foram voltando

Pegando o vácuo, no meu carro atirando!...

Impiedosos,  queriam apagar-me de vez!...

Quando o Jaguar inclinou-se eu senti

 

 Era o pneu estilhaçado,  explodindo
 
Com  mais uma rajada de tiros! Insensatez!...

Saí então do Jaguar furado, a cabeça rodando

Corri  e já no ar  me senti voando!...

                                                                                                            PVH-RO, 20/06/13

terça-feira, 18 de junho de 2013


MASSA DE MANOBRA

Samuel Castiel Jr.

 

 

 

 
Aonde vai essa turba ensandecida

Deixando um rastro de destruição?

Depredando e atirando bombas molotov,

Saqueando e expondo sua própria vida!

 

Rostos cobertos, palavras de ordem

Cartazes, megafones na mão

Polícia! Cavalaria! Todos fogem

Gás lacrimogêneo, fumaça e pimenta

 

Caos, tumulto, o fraco se arrebenta

Balas de borracha cruzam a multidão,

Caem os feridos, o sangue  no rosto,

A batalha é cruel e desigual!...
 

Ao final desse massacre de rua

Contabilizam mortos e feridos!

Os jovens acham que lutaram com raça,

E os políticos é que manobraram a massa!...

                                                                                                   PVH-RO, 18/06/13

SEIS HORAS

 Samuel Castiel Jr.

 

 

Seis horas da tarde!

Fluidos de mistério e de ansiedade

misturam-se nas grande mãos

da noite que desce...

Sinto que existe

uma invisível cortina

que também desce c om a noite

e faz brotar de dentro de nós

esse indomável silencio!...

E, ao contemplar mais essa noite

que chega,

compreendo que existe

uma grande  barreira entre nós

toda feita e tecida

nas malhas do silencio,

nas malhas da vida!...

                                                                                                                 PVH-RO, 17/06/13

segunda-feira, 17 de junho de 2013


O  PIOLHO

 

 

            Apelido é uma coisa que pega!  E existem pessoas que são “experts”  em colocar apelidos. Basta chamar a primeira vez que pega!  Com o Jorginho foi assim. Lembra-se  que ainda na infância,  pegou  uma parasitose de piolho que  foi difícil  acabar. Sua mãe  gastou várias latas de Neocid e acabou tendo que raspar sua cabeça e sobrancelhas, já todas feridas de tanto coçar. Na hora do recreio,  na escola do primeiro grau, costumava  jogar futebol com a garotada. Alguém que não sabe quem, certo dia, quando ele pegou a bola e ficou sozinho   de frente para o gol, gritou bem alto -- chuta piolho! Pronto! Foi o suficiente para todo mundo passar a chamá-lo de piolho. E daquele dia em diante passou a sofrer de “bulling”  primeiro na escola, depois na rua da sua casa, no primeiro e segundo  graus, por onde andava, sempre  teve que conviver com esse apelido que detestava! Primeiramente adotou atitudes que sua mãe sugeriu, ou seja, tinha que ser indiferente.  Fazer que não estava nem aí!  Quando lhe chamassem por esse apelido, não devia atender! Não deu certo. Ficava incomodado. Depois passou a pedir amigavelmente que lhe chamassem pelo nome: JORGINHO. Mas não adiantava, sempre  era piolho pra cá, piolho pra lá.  Já adulto, passou a freqüentar a academia e a praticar judô. Levantou  muito peso, puxou muito ferro, deu muito traço nos adversários  em cima do tablado! Ficou “bombado” com músculos  volumosos, que exibiam veias  azuladas, grossas e tortuosas sob a pele. Pensou, e chegou a conclusão de que ia acabar com aquele maldito apelido por bem ou por mal!  Avisou a todos que não aceitava mais aquele apelido. Tinha sido coisa do passado, quando ainda era criança! Agora era outra fase de sua vida. Era um rapaz do bem, desportista, chegara até a faixa preta do judô! Tinha namorada, amigos e amigas. Seus pais também não gostavam daquela  maldita  alcunha! Dava a impressão que era  sujo, que estava sempre parasitado pelos ftirápteros. Aos poucos o apelido foi desaparecendo nos meios que mais freqüentava: o clube e a academia de judô.  Certo dia, já  andava até meio esquecido desse apelido, quando chegou  ao Clube  num domingo para nadar um poço na piscina. Era também um bom nadador, fazia com facilidade  dez  voltas indo e vindo na piscina semi-olimpica. Quando  estava  começando  seu alongamento para cair n’agua, eis que ouviu alguém gritando escandalosamente, do outro lado do complexo aquático:

-- Piolho! Tenho certeza que é você!  Olha pra mim piolho!                                                           

    No início, ficou estático, fez de conta que não era com ele!  Mas, aquela voz irritante, remeteu-lhe  ao antigo “bulling” da escola:

-- Piolho, é teu colega do “ Classe A” o Alfredinho! Pensava que eu não ia te reconhecer, né?  Olha pra mim piolho!  A galera toda que estava na piscina e também nas outras quadras de esportes, parou! Ficou aquele silêncio!  Não tinha outro jeito. Virou a cabeça e encarou o tal Alfredinho.  Era ele mesmo! Baixinho, entroncado, com um cavanhaque bem fino e uma cara de eterno gozador que o fazia  parecer sempre sorrindo da desgraça de alguém! Respirou fundo e sem alongamento caiu na piscina. Foi até a outra borda e voltou! Parou, sentou-se na borda da piscina achando que aquele idiota o tinha esquecido!... Mas, agora, ainda mais perto do seu ouvido, o gritou outra vez:

--Piolho, seu ingrato! Tu não me conhece mais?  Mas eu te conheço ainda e muito bem! Tu és o piolho! Não vai me enganar com essa musculatura toda! Agora tu és o piolho “bombado”!  E aquela risada parece que  ecoou em todo o Clube. Todos continuavam olhando para aquela cena com a qual ele já até nem estava mais acostumado.  Falou:

-- Não me chame mais pelo apelido! Aquilo foi coisa do passado!  Meu nome é Jorge!

-- Jorge coisa nenhuma, cara! Tu é o piolho e vai ser o piolho de sempre!  Ouviu algumas  risadas em volta deles.

-- Pare com isso! Eu conheço você, mas por  favor me chame pelo meu nome. Não gosto de ser chamado por esse apelido!

-- Porque isso agora, cara? Só porque ficou fortão? Mas pra mim tu continua sendo o P-I-O-L-H O!

    Jorge levantou-se, aproximou-se do tal Alfredinho e disse-lhe  quase  sussurrando:

-- Se você não parar com esse apelido, vou bater em você!

-- Que é isso, rapaz! Agora a violência?! Vem  me  ameaçar só por causa de um piolho?! E dobrou aquela gargalhada!

     Jorge então primeiro deu-lhe um empurão que o fez cair na pedra quente de ardósia na pérgola da piscina. Todos que estavam por perto se levantaram!  Pairou no ar o suspense  que antecede o chamado “ vias- de- fato “!  Deu um golpe em seu braço, um soco na altura do estômago e o atirou na na parte funda da piscina! Antes que alguém chamasse o segurança, o Jorginho deu-lhe as costas, pegou sua toalha e foi saindo calmamente.  Já lá na frente, ouviu muitas risadas e então resolveu olhar para trás. O que viu quase o matou de ódio e cólera: o Alfredinho, ainda mergulhado na piscina, com os dois braços  levantados  para fora d’água, fazia um gesto de esmagar alguma coisa  minúscula  entre as unhas de seus polegares!...

                                                                                                                           PVH-RO, 13/06/13

terça-feira, 11 de junho de 2013


"ENTIDADE" TAMBÉM TEM PRESSA

 Samuel Castiel Jr.





      Agnóstico,  cético, ateu  e outros termos  sempre me foram atribuídos  quando se discute o imponderável e outros assuntos metafísicos, de mediunidade ou  de para-normalidade.  Acontece que entre o céu e a terra, muitas coisas existem que não tem  explicação! Com essa assertiva bíblica, sempre me pautei com muito cuidado quando esbarro com esse assunto!  As vezes me pego, eu mesmo fazendo o papel de advogado do diabo, e então acabo  recebendo todos esses adjetivos,  quase sempre injustos, precipitados,  no meio de polêmicas acaloradas! Até os Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs) já serviram para questionamentos que ficam sempre sem  respostas!  Procurando dar maior embasamento para essas questões, preferi  ir ver pessoalmente como esses rituais todos se processam nos diversos centros de mediunidade.  Visitei vários “terreiros” de umbanda,  participei de festas em datas comemorativas, deixei que ciganas sujas e coloridas lessem as minhas mãos, paguei para que jogassem búzios e cartas, ouvi cartomantes e videntes, sempre com o olhar crítico,  mas na realidade  procurando encontrar respostas para minhas próprias indagações. O que vi deixou-me algumas vezes mais intrigado, outras vezes mais confuso e na maioria das vezes fortemente revoltado! Rituais de vodu com imolação de animais, oferendas de sangue quente a entidades perversas! Verdadeiros banhos de sangue eu presenciei! Copos que se movem sobre as superfície da mesa, escrevendo mensagens do além! Vozes conhecidas que respondem perguntas de familiares inconsoláveis! Mensagens de paz e consolo que vem do além!
     Nos dias de festa de Iemanjá segui todos os passos, vestido de branco, joguei flores ao mar! Acompanhei de barco a procissão da deusa das águas!...

      Vi bocas de sapos costuradas com o nome de pessoas desafetas, para que definhassem enquanto o bicho fosse secando!...

      Andei com pessoas que colocavam “despachos” nas encruzilhadas  toda segunda-feira, com garrafa de “marafo” e galinha preta!

      Mas, entre tantas formas e ritos populares, alguns  grosseiramente feitos para contemplar o mal, outros nem tanto,  praticados  mais por pessoas rudes e ignorantes,  sempre tive a curiosidade de saber como é que certas pessoas incorporam “caboclos”, passam a noite  fumando  charutos, baforando a cabeça dos outros e bebendo duas ou mais garrafas de cachaça, sem cair ou sequer ficarem bêbadas!
     Quando certa vez fui a um” terreiro”, chamado Terreiro do Samburucu, em Porto Velho, Rondônia, procurei despir-me de qualquer  olhar cético, mas algo chamou-me a atenção: a “cabocla” pomba-gira baixou em uma mulher  de mais ou menos  30 anos, a qual começou a falar grosso, gemer, pediu charutos e cachaça. Tudo lhe foi entregue e ela começou a dançar freneticamente sob o ritmo alucinante dos tambores!... Acontece que, entre um  gole e outro e umas  baforadas  do charuto, rodava com os cabelos soltos jogados pra frente do rosto, e de vez em quando, disfarçadamente, olhava para o seu relógio de pulso, conferindo a hora. Quando terminou sua incorporação,  segui de longe a moça que acabara de desincorporar a “cabocla”, a qual foi as pressas para a parada de ônibus, entrando no primeiro circular que passou!  Intrigado com o que eu acabara de presenciar, fui até o “pai-de-santo”e, contando-lhe que testemunhara por  varias  vezes a “pomba-gira” conferir a hora em seu relógio e depois sair quase correndo para pegar o ônibus circular. Perguntei-lhe então:

-- Como é que uma “cabocla” que está incorporada, dançando, bebendo cachaça e fumando, fica todo tempo conferindo a hora para não perder o ônibus ?
-- É que  "entidade" também tem pressa, meu filho! – respondeu o pai-de-santo, soltando uma baforada forte de fumaça que envolveu o meu rosto!...

                                                                                                                                  PVH-RO, 10/06/13