quarta-feira, 13 de agosto de 2014

GLADIADORES DO ASFALTO


GLADIADORES  DO  ASFALTO

Samuel Castiel Jr.












       Mesmo quem estivesse presente naquele local não acreditava no que via. Motos de 1.200 cilindradas em alta velocidade e   em sentido contrário voavam uma de encontro a outra. Os motoqueiros vestindo roupas pretas, capacetes e botas, traziam um garupa igualmente vestido. Esse homem da garupa portava uma vara longa que apontava para o motoqueiro que vinha em sentido contrario. O objetivo era atingir e derrubar a dupla de motoqueiros adversários. Tinha muito a ver com os esportes medievais japoneses, só que os “cavalos” eram de aço. Quando o motoqueiro era atingido, era jogado a distância, a moto se desequilibrava, caía e saía se arrastando pelo asfalto. Algumas se despedaçavam ou pegavam fogo, explodindo em poucos minutos. Tudo isso aplaudido em delírios e gritos de uma platéia que vibrava histérica. Feridos ou mortos eram retirados do local por ambulâncias particulares, as quais tinham seus médicos e paramédicos. Ninguém podia obstruir a pista, a não ser para retirar pedaços de motos ou de corpos. As disputas eram seqüenciais, frenéticas. Mal uma dupla caía, já vinha outra acelerando, até que toda uma bateria tivesse disputado.
          Esse evento era clandestino, proibido pela polícia e chamado de Os Gladiadores do Asfalto. Ocorria uma vez por ano em um trecho vicinal da autopista BR-316, da Regis Bitencourt,  na divisa do Paraná com  Santa Catarina.
    Oscar Willis tinha 19 anos, filho único de pais abastados, era louro, atlético, e seu hoby era colecionar motos. Halley Davis, Suzuki, Ducati, Honda, Yamaha, tinha motos de todas as marcas. Preferia as de  1200 cilindradas, que eram as mais possantes e que serviam para as competições. Jonhy Aroeira era seu amigo inseparável e costumava competir sempre como garupa, pois era firme, agüentava os trancos e manobras arriscadas,  tinha uma boa pontaria para derrubar seus adversários com a vara, conhecida entre eles com “lança-ponta”. Naquele ano, a competição tinha tudo pra “bombar”, pois as redes sociais estavam cheias de desafios, apostas encontros e convites. Segundo a organização,  que se mantinha sempre anônima, eram esperadas naquele ano mais de cinco mil pessoas no local para assistir o grande show dos Gladiadores do Asfalto.
       Quando o sinal foi dado por um disparo de pistola .40, os pneus cantaram no asfalto, e teve inicio a mais arrojada competição do século XXI, onde os perdedores pagavam muito caro, as vezes com a própria vida, como no histórico Coliseu de Roma antiga. Não havia lugar para fracos ou perdedores. Varias baterias se enfrentaram. Algumas motos caíram, pegaram fogo, motoqueiros caíram mortalmente feridos, tudo sob os aplausos e gritos histéricos de uma platéia delirante. Faltava apenas a última bateria, a mais esperada.  Oscar Willis, apesar e ter sofrido a perda de dois garupas ainda continuava no pareo, para a grande disputa final. Quando os motoqueiros tomaram suas posições para a largada, Oscar Willis foi advertido por seu garupa e amigo inseparável Jhony que havia algo estranho naquela última bateria. O competidor que se postara para a largada não era o conhecido Marley Cilindrada que tinha conquistado sua posição com muita garra para a bateria final. Em seu lugar estava posicionado um motoqueiro desconhecido e estranho, cujo rosto não se deixava visualizar encoberto  pelo capacete com um  visor fumê espelhado, montado em uma moto cuja marca ou modelo eram desconhecidos de todos, porém transparecendo ser máquina de alta potência. Seu garupa igualmente parecia enigmático, com o rosto também coberto por um capacete igual ao do motoqueiro. O ronco do motor dessa máquina também era estranho. E a sua fumaça era preta, tinha com um odor forte de enxofre.
--Oscar, meu caro, olha esse motoca que vai disputar essa última bateria com a gente. Você o conhece?  Não lhe parece estranho?
--Não o conheço, mas deve ser alguém de outro estado ou até mesmo do exterior. Esse esporte anda ganhando adeptos em todo o mundo. Mas não se preocupe, meu velho, vamos derrubar os dois e ganhar esse troféu. Esse ano nem Satanás   vai estragar a nossa festa.  Seremos os  novos campeões dos Gladiadores do Asfalto/14. Não tenha medo, Jhony, vamos vencer!
--Mas... Oscar e essa fumaça com odor de enxofre também  não acha estranho?
--Deve ser algum maluco querendo envenenar o motor da sua moto misturando  combustível e algum aditivo a base de enxofre, o que eu particularmente não concordo, mas se o regulamento permite, nada podemos fazer. Volto a dizer, fique “frio” e vamos ganhar fácil mais essa prova.
      Nesse momento ouviu-se o disparo da pistola .40, dando início a última competição daquela noite.
          As motos roncaram seus motores e partiram em alta velocidade, frente-a-frente em sentido contrário. Quando já faltavam uns duzentos metros para o encontro final, o garupa Jhony falou pelo microfone de capacete com seu piloto:
--Oscar, não falei pra você? Veja só o que está acontecendo:  o motoca e seu garupa tiraram seus capacetes. Não são gente desse mundo, cara! Olha a cabeça deles. São esqueletos, são caveiras humanas! Estão dando risadas e soltando chamas  de fogo pela boca e pelo nariz. Suas motos também  vem pegando fogo, deixando um rastro de chamas pelo asfalto. A “lança-ponta” também está em chamas e sua ponta é de brasa.
     Não deu tempo para falar mais nada. Jhony foi atingido de cheio no peito pela “ponta-lança” que o transfixou, arrancando-o da grupa e ficando com ele pegando fogo e preso na vara. Oscar ainda atônito e sem nada entender, fez uma rápida manobra radical, voltando pra cima de seu  adversário. agora já sem o seu garupa. O estranho motoca e seu garupa também  voltaram dando altas e sonoras gargalhadas, soltando fogo por suas bocas e narinas, como se fossem dragões com suas motos incendiárias. Desta vez, o estranho garupa apontou e acertou sua “ponta-lança”  na cabeça de Oscar Willis, transfixando seu crânio e também exibindo-o dependurado na vara, onde permaneceu pegando fogo. A platéia em pânico tentava fugir daquele local, mas seus carros se chocavam. O tumulto se estabeleceu. Nesse cenário de carros que se chocavam, pegavam fogo, explodiam, gente que se pisoteava,  gritos de pavor, uma fumaça negra com forte odor de enxofre espalhou-se pelo ar.

PVH-RO, 13/08/14

segunda-feira, 21 de julho de 2014

A PEDRA DAKÁ

A PEDRA DAKÁ.
Samuel Castiel Jr
















               Tudo pode acontecer numa delegacia, principalmente quando é uma delegacia do interior. O delegado Homero ficou perplexo quando chegou a sua delegacia naquela manhã. Havia uma situação inédita esperando por sua decisão: dois desafetos haviam sido presos, foram as vias fato e conduzidos a sua delegacia por um motivo absolutamente insólido: uma pedra. A princípio achou que fosse uma pedra preciosa ou semipreciosa, que pudesse ter  algum valor de mercado. Mas não. Era uma dessas pedras comuns, chamadas de pedras-jacaré, usadas para construir baldrames de casas de alvenaria. E ainda estava suja, com alguns pedaços de terra agregados. Certo que aquele seu plantão seria mais um cheio de casos escabrosos, mandou que fossem buscar um dos brigões que estava detido.
--Como é o seu nome? –perguntou o delegado.
       Todo vestido de branco, calças e camisas folgadas e um colar comprido de conchas, sentou-se calmamente  a sua  frente e respondeu:
-- Sou Manelzinho de Orixá, doutor.
--O senhor quer me explicar que estória é essa de brigar por causa de uma pedra? O senhor quase matou o seu desafeto!
--Ele não vale nada, doutor! É um ladrão vagabundo.
--Calma seu Manelzinho! Não se esqueça que você está numa delegacia e não pode ficar aí espraguejando e desrepeitando as pessoas na frente do delegado. Posso deixar vocês dois detidos por mais tempo.
--Sim senhor doutor. Eu explico tudo: acontece que o lazarento roubou a pedra Daká que estava sob a minha responsabilidade e depositada no meu congá.
--O senhor quer me explicar que pedra é essa?
--Pois não doutor: a pedra Daká é uma pedra que confere poderes as pessoas para se tornarem Pais-de-Santo, ou seja, de abrir seus próprios terreiros, desde que sejam médiuns, é claro. Acontece que esse poder só pode ser dado, seguindo todo um ritual. E esse ritual prevê que uma pedra seja depositada no congá de um pai-de-santo reconhecido pela comunidade umbandista. Essa pedra fica ali no congá deposita por prazo indeterminado, até que o Pai-de-Santo responsável receba a mensagem para liberar tal pedra. Assim sendo, o novo Pai-de-Santo recebe a sua pedra e com ela  está autorizado a abrir seu próprio congá,  a praticar e presidir todos os atos e rituais umbandistas. Acontece, doutor, que essa pedra já estava no meu congá a quase um ano, porém eu não tinha recebido ainda a instrução do meu santo para entregar essa pedra a ele. O lazarento aproveitou-se da minha ausência, e como a casa estava toda fechada e sem ninguém, arrombou uma das minhas janelas, entrou em casa e roubou a pedra. Como eu já desconfiava desse elemento, fui atrás, botei o cavalo em cima e ele confessou o roubo. Aí eu perdi a cabeça e dei umas porradas nele. Mas como o senhor tá vendo,  ele mereceu.
            O delegado chamou seu ajudante Moi,  pediu que levasse o seu Manelzinho de Orixá de volta pra cela e trouxesse o outro brigão da pedra.
             Entrou na sala do delegado um elemento com andar e voz de malandro, camiseta regata e boné virado pra trás.
--Pronto, Chefia. As suas ordens! 
                 O hálito era de pura cachaça.
--Seu nome por favor.
--Alcides do Tarô, mais conhecido como Alcidinho.
--Pode contar sua estória seu Alcidinho.
--Vai fazer mais de ano que eu tô tentando pegar minha pedra Daká. Mas o infeliz do Manelzinho tá me matando na canseira. Querendo me fazer de trouxa, doutor. Já fui varias vezes a sua casa, mas ele só promete e não me atende. Não quer liberar a minha pedra. Acho que ele tem medo da concorrência, sabe? Não quer que eu tenha meu próprio terreiro. Fica com essa estória que ainda não recebeu instrução pra me liberar e nada. Mas na última vez que eu fui a sua casa, vi que não tinha ninguém e entrei por uma janela que estava só na tranca. Peguei a minha pedra Daká e fui embora. Não mexi em mais nada, juro pro senhor doutor. Só quero o que é meu. E essa pedra é minha! É através dela e de seus poderes que vou poder trabalhar no que é meu!...
           O delegado Homero mandou chamar o Manelzinho de Orixá e frente a frente com o Alcides do Tarô disse:
--Olha aqui vocês dois. Não vou mais continuar com essa conversa de doido. Também não vou manter vocês aqui presos por causa de uma pedra que não tem nenhum valor de mercado, portanto não configura crime no Código Penal Brasileiro. Mas eu juro que caso vocês voltem a brigar ou a se xingar por causa dessa pedra,  eu vou prender os dois por tempo indeterminado.
-- Moi, pode soltar esses dois, porém antes mande assinem o BO ( Boletim de Ocorrência ) bem como os seus respectivos depoimentos.
     Quando já ia saindo, o Alcides do Tarô perguntou:
--Doutor, eu vou poder levar a minha Pedra Daká?
-- Claro que não! Eu vou ficar com ela. É a  prova que ainda tem gente capaz de brigar e até se matar por causa de uma pedra sem nenhum valor. Vá-se embora  daqui seu Alcides, antes que eu me arrependa.
                  Passados alguns minutos olhando para aquela  pedra, o delegado Homero chamou o Moi, mandou buscar aquela marreta  pesada que tinha sido apreendida na sua delegacia, fruto  de um homicídio frustrado,   levou a pedra lá pros fundos da delegacia, e espatifou a pedra Daká sobre o solo.
-- Se pensam que acredito nessas estórias estão muito enganados. Já perdi muito tempo com essa pedra! – resmungou enfezado o delegado.
             No dia seguinte, o Moi chegou com a notícia que estava estampada nos Jornais: "Delegado de Policia capotou sozinho  em seu carro de forma inexplicável. Sua caminhonete particular pegou fogo,  teve perda total, mas felizmente o policial  sobreviveu.  Agora terá que  ficar por algum tempo fora de combate".
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PVH-RO, 21/07/14

sábado, 5 de julho de 2014

MACACO NA DELEGACIA

MACACO NA DELEGACIA


Samuel  Castiel Jr.

















         Quando o delegado chegou em seu gabinete naquela segunda-feira, o relógio marcava 7:30h e percebeu que algo incomum estava acontecendo: havia um macaco prego grande dentro de sua sala. O escrivão que  o esperava do lado de fora, apressou-se e correu para se explicar:
--Doutor, tem dois caras aí trancafiados no "chiqueirinho" que quase já se mataram por causa desse macaco. Aí eu resolvi prender o bicho  na sua sala pra ele não fugir, até que o senhor chegasse.
--Mas só faltava essa, Seu Tião! Olha só o que o bicho fez na minha mesa. Rasgou e jogou no chão os papeis que estavam sobre a escrivaninha, desligou todos os cabos do computador, mijou no tapete e quebrou o jarro com as flores. E cadê a minha caneta Mont Blanc?  Onde está? Não é possível, Seu Tião!
         Foi quando o escrivão Tião apontando pro macaco que gritava e pulava passando por cima das estantes:
--Olha lá chefe! A sua caneta está na boca do bicho.
         O macaco enfiava na boca e mordia nervosamente a caneta Mont Blanc do delegado.
--Olha lá o que você fez, seu imprestável! O bicho acabou com a  minha caneta preferida.
--Mas...
         Foi aí que o delegado teve uma brilhante idéia:
--Ô Tião, dá um jeito de prender esse macaco numa caixa ou mesmo dentro de uma dessas estantes que ele já quase destruiu.
--Um momento chefe. Vou pegar um cacho de bananas e já prendo esse infeliz.
         Voltou com uma penca de bananas e oferecendo ao macaco conseguiu prendê-lo dentro de uma das estantes, que previamente já havia esvaziado.
--Pronto chefe: o bicho está preso!
--Mande entrar os caras que estão brigando por esse macaco.  Um de cada vez. Primeiro o mais exaltado. Vou ouvir o que eles tem pra me dizer e, qualquer falta de respeito, meto os dois na cadeia.
--É pra já Doutor!
          O Tião voltou acompanhado de um homem baixo mas troncudo, usando roupas simples e folgadas, moreno claro e de chapéu de palha.
--Bom dia doutor! Meu nome é Abdias, seu criado.
--Sente-se por favor – disse-lhe o delegado sem olhar para ele e apontando para uma cadeira a sua frente. Que estória é essa de trazer um macaco prego pra minha Delegacia?
--Eu explico, Doutor: criei o meu Chico desde pequeno, quando sua mãe foi morta por caçadores lá no seringal Massangana, onde eu trabalhava. Foi preciso dar mamadeira na boca do bichinho, pois caso contrario teria morrido. Ele se tornou tão manso e apegado a mim, como se fosse meu filho. Faz mais ou menos uns dois meses que o meu Chico sumiu misteriosamente. Foi como  num passe de mágica: enquanto eu saí com a minha mulher e minha filha para irmos a missa, como fazemos todo domingo, alguém arrombou nossa porta, entrou lá em casa e levou o Chico de dentro do quarto onde ele ficava trancado quando todos nós precisávamos sair juntos  e ao mesmo tempo. Foi uma judiação seu Doutor. Até hoje minha filha e minha mulher mergulharam numa tristeza só! Nem comer querem mais. Até que ontem um vizinho lá da minha casa chegou com a  notícia que sabia o paradeiro do Chico. Levou-me até a casa desse infeliz que também  tá detido aí,  e eu avistei então o meu  Chico preso por uma corrente pela cintura e numa espécie de gaiola. Fiquei fulo da vida, fui tomar satisfação com esse ladrão de macaco. Aí foi que se deu a confusão, seu Doutor. O infeliz do gatuno se armou de um terçado, ameaçou cortar-me em pedaços caso eu tentasse levar o Chico. Discutimos, brigamos, quase fomos as vias de fato. Mas a sorte é que na hora os vizinhos que assistiam tudo telefonaram para 190 e rapidamente chegou a viatura com os policiais. Aí então vendo a confusão, resolveram trazer todo mundo pra cá pra Delegacia, inclusive o meu Chico.  Como era domingo, o escrivão disse que o senhor só voltaria na manhã de segunda-feira. Aí colocou o Chico na sua sala e deixou nós dois presos esperando no “chiqueirinho”, mas cada um na sua cela. Caso contrário, acho que eu teria esganado aquele ladrão de macaco!
--Calma seu Abdias, não se exalte nem fique falando essas coisas, caso contrário poderá perder a razão e eu terei que prendê-lo. Seu Tião, agora leve o seu Abdias, deixe-o ainda em sua cela,  e traga-me aqui o outro macaqueiro.
--É pra já Doutor!
            Quando  voltou, Tião trazia um homem negro, magro e alto, com roupas sujas e surradas, além de um boné com a aba voltada para trás. Parecia mais jovem que o seu desafeto.
--Dá licença Chefia?
--Tire o boné e sente-se nessa cadeira. Como é o seu nome?
--José Aníbal Carrazu, mas pode me chamar de Maranhão, que é como todos me conhecem.
--Conte pra nós que confusão que você se meteu por causa desse macaco?
--Doutor, esse macaco é meu, foi um presente da minha irmã que mora em Tarauacá, no Acre, pois ela se mudou pra outra cidade e não tinha com quem deixar o bicho. Aí eu aceitei ficar com ele, até que esse doido apareceu lá em casa dizendo que o macaco é dele. Mas o senhor não pode acreditar nas palavras desse sujeito. Juro que esse macaco é meu seu doutor!
--Olha aqui seu Maranhão, não venha com conversa fiada,  dizendo em quem eu devo acreditar ou não, caso contrário eu meto você e o outro macaqueiro na  cadeia. Esse macaco já aprontou demais aqui na minha delegacia, inclusive destruiu a minha caneta Mont Blanc.
         Nisso o macaco começou a gritar estridentemente preso dentro da estante. O delegado ordenou ao escrivão que fizesse o bicho calar.
--Mas chefe, acho que acabou a banana que eu dei pra ele. E não tem mais banana aqui na delegacia.
       Foi então que o delegado teve uma idéia. Pediu que seu escrivão trouxesse o outro preso.  E, frente a frente um do outro disse-lhes:
--Olha aqui vocês dois. Isso aqui é uma delegacia. Não é uma casa de doido. Prestem bem atenção no que eu vou dizer pra vocês. Como o macaco destruiu a minha caneta Mont Blanc, que é caríssima, eu não vou ficar no prejuízo. Aquele que primeiro  me trouxer outra caneta, da mesma marca, leva o macaco. Caso contrario, vou mandar esse bicho hoje mesmo para a Delegacia Florestal do IBAMA, e lá eles sabem o que fazer com esse mico.
       Virou-se e foi saindo. Já na porta avisou:
--Se vocês dois voltarem a discutir ou se pegar por causa desse macaco, juro que vão ficar na cadeia.  Tião, pode liberar esses dois.
       E foi embora para a  sala ao lado, onde uma outra oitiva já o esperava.
       No final da tarde, já cansado daquele expediente, o delegado já voltava para  sua sala, onde o macaco ainda continuava preso e gritando, quando  foi abordado pelo escrivão Tião que lhe disse:
--Doutor, um daqueles macaqueiros taí de novo e quer falar com o senhor.
--Se for lero-lero outra vez, vou mandar prendê-lo agora mesmo. Mande-o entrar.
--Pronto, doutor. O seu Abdias deseja falar com o senhor.
--Diga o que quer dessa vez.
--Doutor, eu tinha umas economias e dois carneiros lá no sítio, vendi tudo e comprei a sua caneta. Aqui está. Me disseram que é igualzinha a sua que meu Chico mordeu. Levei a caneta mordida e aqui está a outra, novinha em folha.
         O delegado chamou o escrivão Tião e mandou entregar o macaco para o Abdias. Tinha plena convicção que aquele era o legítimo dono do macaco.  Ficou ainda por algum tempo sentado em sua poltrona,  meditando e olhando para um livro colocado em sua mesa, cujo título era "Ensinamentos Bíblicos".  Foi  uma atitude salomônica, pensou.


PVH-RO, 04/07/14

quinta-feira, 26 de junho de 2014

TERROR NO AR

TERROR NO AR










          Quando a comissária anunciou que o vôo A 340-500 da Cingapore Airlines iria nos próximos minutos efetuar os procedimentos de decolagem, cujas portas já estavam no automático, virei-me para trás e constatei que aquele vôo estava completamente lotado. Sua rota era saindo de Dubai para Los Angeles, com uma escala em Singapura e duração de vôo das mais longas  da aviação internacional, de aproximadamente 17h e 35 min.,  num  super Airbus.
          Na próxima meia hora após a decolagem, concentrei-me nas nuvens que passavam rápidas cortadas por um dos mais modernos e avançados Airbus do mundo. Com os ouvidos sentindo a rápida altitude que ganhávamos, adormeci. Acordei com a voz de uma comissária de olhos orientais perguntando-me em inglês se aceitaria um lanche ou um drink.
--Um Martini Seco, Duplo com gelo, cereja e bastante soda, por favor. Fiquei ali me deliciando com aquele drink até que depois da comissária ter servido pela terceira vez comecei a me sentir mais leve e agradavelmente bêbado. Adormeci Acordei com alguns gritos que vinham lá de trás do avião. Era uma voz enérgica de homem, falando um inglês arrastado,  mas também gritava e bradava em  japonês. Quando olhei pra trás não entendi nada: um ninja vestindo roupas negras e com o rosto parcialmente coberto, gritava e fazia gestos ameaçadores, portando duas pistolas, uma em cada mão. Outro ninja saiu do toalete da frente da aeronave, portando um sabre e também gritando impropérios, com gestos ameaçadores. Tinha feito uma comissária refém e numa gravata de pescoço arrastava-a pelo corredor da aeronave. Houve então ao mesmo tempo um misto de espanto e perplexidade coletivos. Ordenou que todos baixassem suas cabeças se não quisessem que elas fossem decpitadas.
__ Sou Dakufaiã Haráchi e meu companheiro é o  discípulo mais aplicado que já tive, Hattori Hanzo. Somos ninjas dos mais elevados dans. Estamos lutando  em nome do Japão, contra a política expansionista chinesa. Não queremos nem aceitamos que os membros da Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) sejam tratados como idiotas e ludibriados e ultrajados pelo poderio imperialista da China. Por isso, declaramos este vôo seqüestrado e refém da nossa luta, até que as autoridades chinesas se sensibilizem por nossa causa.
         Ainda com a cabeça zonza dos drinks e sem querer acreditar no que estava acontecendo a 12.000 m de altitude,  pus-me a pensar: Porque ninjas? Quem são os ninjas? Pelo que li e aprendi como Historiador e Pesquisador de Civilizações Antigas, disciplina que lecionava  como Fellow na Universidade de Tóquio, os ninjas são guerreiros japoneses, também conhecidos como assassinos das sombras tanto pelas suas vestes escuras como também pelas estratégias silenciosas, furtivas e ardilosas para surpreender e  matar seus inimigos. Tiveram sua origem na idade média, pelo que se sabe  surgiram no reinado de Shotoku (718-770) tendo se difundido por todo o Japão durante o período conhecido como Sengoku (1467-1568). O Japão atravessava um período de  guerras civis, e as técnicas ninjas começaram então a ser adotadas por famílias que habitavam as montanhas no centro da ilha de Honshu, a maior do país. Quando havia necessidade, as famílias se uniam para enfrentar inimigos comuns. Praticamente desapareceram entre os anos de 1603 a 1.868, no chamado período Edo, quando acabaram-se as guerras e conflitos internos. Nessa época, os ninjas foram perseguidos pela sociedade feudal vigente, sendo submetidos a taxas e impostos exorbitantes. Os principais inimigos dos ninjas eram os samurais, que ajudavam a manter o poder dos senhores feudais. No período seguinte, iniciado pelo império de Meiji, em 1868, tanto ninjas como smurais foram proibidos de usar armas, pois o objetivo do imperador era integrar o país a era moderna e ao resto do mundo. No início do século XX, entretando, os ninjas voltaram a ser usados durante a ocupação da Manchúria, pelo Japão. Na época atual, além das telas do cinema em Hollywood, acredita-se que os ninjas ressurgem, eventualmente, como mercenários ou lutando por causas geopolíticas de países orientais. Mas, o que fazer agora com esses ninjas loucos seqüestrando nosso avião e ameaçando matar todos nós? Afinal que nós tínhamos a ver com essa causa expansionista da China?  Enquanto meus pensamentos rebuscavam a história desses, ouvimos a voz do comandante anunciando que o avião estava realmente  seqüestrado e desviando sua rota oficial, sob ameaça de ninjas mercenários. Pedia ainda que mantivéssemos a calma que tudo poderia acabar bem. A seguir o silêncio instalou-se, quebrado apenas pelos gemidos e suspiros roucos da pobre comissária, mantida sob a “gravata” de braço apertada de um dos ninjas seqüestradores. Alguns minutos se passaram quando gritos histéricos foram ouvidos lá atrás da aeronave. Era uma mulher vestindo burca preta, com o véu encobrindo quase todo o seu rosto, e que, partindo pra cima do ninja, com gritos histéricos e falando impropérios em árabe, tentou esganar o ninja. A explosão que ouvi foi o disparo de uma das pistolas do ninja. A bala zuniu e acertou a cúpula do Airbus, fazendo com que houvesse uma imediata despressurização  e as máscaras de oxigênio caíssem. O gigantesco avião mergulhou num vácuo que pareceu não ter mais fim. O segundo disparo acertou a perna na mulher de burca, jogando-a a distância no chão. Houve um momento de pânico, com gritos histéricos que vinham de quase todos os assentos. A calma voltou a ser restabelecida com a voz do comandante novamente pedindo que todos permanecessem calmos e tentassem manter o equilíbrio, pois caso contrário as conseqüências poderiam ser bem piores. O ninja que atirou na mulher tornou a avisar que qualquer outra tentativa de desarmá-lo seria fatal para todos. A mulher de burca preta continuava gritando e praguejando no chão, com a perna quebrada e perdendo muito sangue. O ninja pegou o megafone e perguntou se havia algum médico no vôo que pudesse atender aquela mulher árabe, acometida de um ataque histérico e que certamente estava servindo para mostrar como os seqüestradores não estavam blefando. Foi aí que eu registrei uma das cenas que jamais vou esquecer: um médico judeu de kipar na cabeça, levantou-se de seu assento e dirigiu-se para a mulher árabe caída no chão da aeronave. Todas as diferenças milenares entre seus povos tinham que ser esquecidas em favor da vida. O médico se ajoelhou perto da mulher, tirou um lenço branco  do seu bolso e com ele  fez um torniquete na tentativa de estancar a hemorragia. A seguir, levantou-a com delicadeza e a carregou em seus braços  de volta  para seu assento, fazendo com que ficasse deitada em sua poltrona, com as pernas elevadas.
        O Airbus voava baixo e podíamos ver lá embaixo a imensidão azul do oceano índico. Voamos assim por mais ou menos uma hora, quando percebi que havia  um certo nervosismo dos ninjas seqüestradores. Olhando de soslaio pela minha janela, percebi que estávamos sendo seguidos por aviões caças chineses. Tive um sensação estranha, pois algo me dizia que nosso fim ou nossa salvação estavam próximos.  A voz do comandante voltou a ser ouvida, anunciando que os chineses detectaram o desvio súbito de rota do Airbus e estavam com caças seguindo nosso vôo. Teria sido o celular de uma criança, que não foi recolhido pelos seqüestradores, e que transmitiu uma mensagem  feita por sua mãe relatando o seqüestro. Nesse momento saiu da cabine o terceiro ninja com o sabre encostado no pescoço do comandante. Aos gritos falou algo ameaçador, gesticulando e, pelo que entendi, ameaçando cortar o pescoço do comandante. Fazendo gestos com suas mãos, o comandante mais uma vez pediu calma a todos. Usando um megafone que lhe foi entregue, o comandante mesmo com o aço frio do sabre em seu pescoço,  explicou que o seqüestro fora descoberto pelo serviço de inteligência chinesa, a qual por via  satélite, localizou a aeronave seqüestrada e determinou sua interceptação através de seus caças. Todos precisariam ter bom senso, ou seja, os passageiros e tripulantes, bem como os guerreiros ninjas também, que deveriam fazer uma avaliação da situação. O comandante se oferecia para ficar como refém dos ninjas e tentar uma negociação que fosse melhor para os seqüestradores, quem sabe até mesmo livrando-os da pena de morte, imposta  pelo governo chinês para tais crimes, considerados hediondos. Houve uma rápida e ríspida troca de palavras entre os ninjas, acho que num dialeto japonês  arcaico, pois nada entendi. A seguir uma explosão quase me matou de um ataque cardíaco e uma espessa nuvem de fumaça branca  encheu o ambiente. Quando eu pude enxergar alguma coisa a minha frente, fiquei sem entender nada: os ninjas tinham sumido do corredor do avião.  Também não estavam na cabine de comando nem nos lavatórios do avião. A mulher da burca preta continuava sentada, gemendo,  com as pernas elevadas, o torniquete improvisado com o lenço branco do médico judeu e sangrando menos.  A comissária que juntamente com o comandante  virara refém permanecia lívida e estática, em pé e em estado de choque no corredor do avião. O odor de pólvora impregnava o ar. Onde estariam os seqüestradores ninjas? A voz do comandante voltou a ser ouvida anunciando que o avião estava em segurança, bem como o co-piloto e todos a bordo. O Airbus estava sendo monitorado pelos caças chineses e retomando sua rota original, devendo em algumas horas fazer um pouso estratégico num aeroporto próximo a Singapura, quando a aeronave seria rigorosamente vistoriada e inspecionada pela polícia e por outras autoridades chinesa.
       Sempre soube de feitos misteriosos, mágicos ou mesmo sobrenaturais praticados por esses guerreiros conhecidos por ninjas, mas o que se passou naquele vôo e o enigmático  sumiço que aqueles seqüestradores tomaram, desaparecendo na fumaça, ficou comigo para sempre na conta do absoluto imponderável.


PVH-RO, 26/06/14

terça-feira, 27 de maio de 2014

QUARTO ESCURO

QUARTO ESCURO

Samuel Castiel Jr.













        A luz apagou. Ouvi imediatamente a voz da minha mãe:
-- Ninguém  se mexe! Vou buscar uma vela. Ouvimos o barulho de alguma coisa caindo quando minha mãe tropeçou na mesinha de centro e derrubou o vaso.
--Zezinho menino, me ajuda! Será possível! Vá lá no meu quarto e vê se acha uma vela, seu imprestável medroso!
     Eu imediatamente senti um arrepio que me fez tremer da cabeça aos pés. Só depois de muitos anos eu viria saber que eu era acluofóbico.   Levantei-me apalpando as coisas que estavam a minha frente, tropecei nos pedaços do vaso quebrado no chão e saí em posição sonambulista. Até chegar e entrar no quarto pareceu-me uma eternidade. Suava frio. Minha cabeça rodava. Vinham a minha lembrança pessoas mortas, vultos fantasmagóricos que poderiam aparecer para mim dentro daquele quarto. Quando cheguei a porta do quarto escuro, tentei pegar na maçaneta para abrir a porta mas outra mão gelada tocou a minha mão. Fiz força para não gritar e consegui abrir a porta. Suava frio e meu coração estava acelerado. As palpadelas fui atrás da vela que deveria estar na gaveta do criado mudo, ao lado da cama. Alguma coisa se enroscou no meu pé e quase desmaiei. Era a corda de um brinquedo de meus irmãos que ficara jogada no chão. Ao adentrar naquele quarto escuro, deparei- me com um preto velho, sentado em uma cadeira. Só que ele estava sem a cabeça! Voltei-me para a porta querendo sair numa desabalada carreira. Mas no rumo da porta havia a cabeça daquele velho, sem o corpo e sorrindo para mim. Quis morrer, meu coração parecia que ia sair pela boca. Ia gritar quando o quarto todo se iluminou com a luz que interrompia aquele blecaute. Olhei-me no espelho e meu rosto estava molhado de suor. Entrei rápido no banheiro, com o estômago em rebuliço. Vomitei e tive diarréia. Quando voltei pra sala, ouvi do meu pai:
--Parabéns, Zezinho! Você está ficando homem de verdade, meu filho. Já consegue até entrar sozinho em quarto escuro!... Quando olhei para o meu pai, o que vi foi o mesmo rosto daquele velho sem cabeça do quarto escuro, com a boca escancarada, sorrindo outra vez para mim. Foi então que ninguém entendeu porque eu saí da sala  em desabalada carreira e só foram me pegar quando eu já estava do outro lado da rua. A mão fria que me agarrou era a mesma que tocara a minha mão na porta do quarto escuro. Virei-me apavorado, mas o rosto que me olhava sem nada entender era o da minha mãe.


PVH-RO, 27/05/14

quarta-feira, 23 de abril de 2014

A TORTURA

A TORTURA
Samuel Castiel Jr.



















              Você está preso! Qualquer  coisa que disser ou fizer poderá ser usada contra  você em juízo. Foi imediatamente recolhido a uma das celas, cujas grades se fecharam ruidosamente a sua frente, deixando-o sozinho naquele cubículo mal cheiroso e úmido. A cela não media mais que 2,0 x 3,0 m, tinha um beliche com duas camas uma em cima da outra. O vaso sanitário não tinha tampa e ficava escondido por trás de uma cortina de plástico fino e rasgado. O odor forte de urina e fezes empestava o ambiente. Tentou ainda argumentar que tinha comparecido aquela Delegacia apenas para prestar depoimento, atendendo a uma notificação da polícia. Não tinha cometido nenhum delito, não tinha antecedentes, era judeu iugoslavo, porém a muito naturalizado brasileiro, jornalista, professor universitário. Era um cidadão de bem, nada justificava sua prisão. Mas de tudo que argumentou de nada lhe valeu. Estava trancafiado por trás daquelas grades. O calendário assinalava 23 de abril de 1975.
          Faltavam quinze minutos para meia noite e o sono quase já o dominava quando o barulho do ferrolho de encontro as grades o fez acordar. De um pulo pôs-se de pé e viu um soldado do exército entrar em sua cela, enquanto o outro ficava na porta. Ambos eram altos e fortes e empunhavam fuzis.
---Você vem comigo! Disse rispidamente  o soldado. Antes de sair puseram-lhe uma venda preta nos olhos. Foi então colocado num carro que  lhe pareceu ser uma camionete. O carro partiu em velocidade. Depois de rodar por alguns minutos em silêncio, o soldado que estava ao seu lado bateu em seu ombro e disse:
---Acho bom você dizer a verdade e tudo o que sabe, meu velho. Caso contrário poderá nunca mais voltar pra sua casinha, nem rever sua querida família.
---Quero saber o que eu fiz? Porque estou preso? Pra onde estão me levando?
---Calma velho! Aqui somos nós que perguntamos. Você só responde.
           Depois de alguns minutos o carro parou e todos saltaram. Andaram guiando-o até aonde deveria ser uma guarita, pois houve uma rápida parada e algumas vozes  foram ouvidas com ordens de comando. Continuaram andando provavelmente por um corredor, até que uma porta grande se abriu ruidosamente. Adentraram todos, ou seja, o preso e os dois soldados.
---Licença Comandante. Aqui está o homem! –disse um deles.
---Ótimo soldado! Levem-no para a sala de interrogatórios. Lá já o estão esperando.
---Ok, permissão Comandante!
          Voltaram todos pelo mesmo corredor até chegarem a uma escada. Anunciaram-lhe então que deveria descer aquela escada, guiado pelos braços do soldado.
---Não tente nenhum truque, caso contrário seremos forçados a machucar você.
           Aquilo lá embaixo parecia um grande porão. Úmido e com o odor de mofo.
 ---Licença Capitão! O Comandante pediu que comece logo o interrogatório e logo mais ele próprio vai descer para interrogar esse comunista.
---Sente-o ali naquela cadeira de ferro, bem embaixo do foco do abajour. Tenha o cuidado de amarrar suas mãos e pés, pois não quero ter surpresas desagradáveis.
---Sim senhor Capitão!
          Contido e amarrado,  com o foco de luz forte em seu rosto, mesmo já sem a venda dos olhos, ele não conseguia ver nada a sua frente, a não ser vultos que se moviam em volta de sua cadeira.
---Quero saber se o senhor está disposto a colaborar conosco ou vai preferir dar uma de herói – a  voz era rude e ameaçadora.
---Não sei do que o Senhor está falando. Aliás eu nem sei porque estou aqui. Sou um profissional, pai de família, brasileiro naturalizado, professor universitário, tenho domicílio e endereço certos e não cometi nenhum delito. Exijo meu advogado.
---Preste atenção, seu vagabundo de merda! Você está sendo interrogado pelo Exército Brasileiro. Aqui ninguém brinca com os adversários comunistas. Ou eles dizem o que precisamos saber ou morrem. Entendeu? E vou adverti-lo mais uma vez: responda nossas perguntas e conte tudo que sabe. Queremos saber qual a sua ligação com Londres,  com a União Soviética ou com Cuba. Quem lá de fora está patrocinando a proliferação do comunismo aqui no Brasil? Quais são os principais nomes que formam a coluna comunista aqui no Brasil? Vamos lá seu comunistazinho de merda.
---Não sei de nada disso que você quer saber. Sou apenas um correspondente da BBC de Londres. Não tenho ligações com a União Soviética muito menos com Cuba. Não tenho também nenhum nome para lhe dar. E mesmo que tivesse não entregaria nenhum amigo. Também não nego que sou do Partido Comunista Brasileiro, o PCB. Mas isso só diz respeito a mim, é a  minha ideologia. Nunca pratiquei nenhum crime conta o meu país.
          Foi quando ele recebeu o primeiro tapa em seu rosto, que pareceu pegar fogo e seus ouvidos pareciam que iriam explodir.
---Eu lhe avisei: aqui no DOI-CODI não se brinca com adversário. Vou lhe dar mais uma chance para não se machucar tanto: quais os nomes dos ativistas desse Partido Comunista de bosta?  Prometo que se você me der uma lista mando você embora. Caso contrário...
---Já disse que não sei do nome de ninguém e mesmo que
         Recebeu a segunda bofetada no mesmo lado que recebera a primeira, só que agora escorreu um filete de sangue do nariz e do ouvido. Pareceu que sua cabeça ia ser arrancada. Sentiu seu cérebro vibrar. Sua visão ficou turva por alguns segundos.
---Já vi que vamos ter que maltratar ainda mais esse infeliz.
         Foi até sua mesa, falou ao telefone com alguém e depois chamou os soldados:
---Levem-no para a sala de choque.
         Deitado sobre a maca de ferro e a ela amarrado pelas mãos e pés, o algoz capitão se aproximou e disse-lhe:
---Espero que fale logo tudo que sabe, caso contrário vai receber algumas vibrações que o ajudarão a se lembrar. É a sua chance de não passar por isso. Portanto, seja bonzinho e vá respondendo tudo que perguntei.
---Vá-se a merda Capitão! Já lhe disse que prenderam, estão interrogando e torturando o homem errado. Eu não sei de nada, não cometi nenhum crime!
         Quase não acabou de falar quando o seu corpo foi sacudido por uma convulsão que o fez levantar a cabeça e os pés. Mais duas ou três vezes recebeu outras ondas de choque que o fizeram urinar e defecar. Como não obtiveram nenhum resultado satisfatório, ainda tentaram arrancar-lhe algumas unhas dos pés e das mãos, porém sem resultado, pois ele havia perdido a consciência. Mesmo assim, quando começou a recuperar a consciência, viu que estava deitado e totalmente imobilizado sobre a maca de ferro, com o foco de luz em seu rosto e uma goteira que vinha de bem alto, com um pingo d’água, atingindo o centro de sua testa. Não quis acreditar no que estava sendo submetido. Não quis acreditar até onde a maldade do ser humano pode ir. Não sabia que horas eram. Porém tinha certeza que estava ali absolutamente só, pois tirando aquele foco, tudo era escuridão. O único barulho era o pingo d’água caindo do alto e se espatifando no centro de sua testa.
---Meu Deus, vou enlouquecer – pensou.
          Aos poucos ouviu gritos de pavor que vinham de bem longe, mas que logo foram abafados pelo som bem alto  de um carro.
--Certamente estão torturando outros companheiros—pensou.
           O dia ainda não amanhecera quando  ouviu barulho nas portas. Alguém estava entrando. Ouviu então a voz de seu algoz, o Capitão. Vinha acompanhado  de outros militares:
---Comandante, esse recurso do pingo d’água é infalível. Caso não dê certo, só nos resta...
---Calma Capitão! Vou eu mesmo interrogá-lo: Sou o Comandante Geral do DOI-CODI –disse  olhando para aquele infeliz todo amarrado e recebendo o maldito pingo d’água sobre sua testa. Vai agora colaborar com o Exercito?
---Não sei de nada do que vocês querem saber, não tenho ligações clandestinas com ninguém nem no Brasil nem no exterior. Não sou bandido, nunca fiz nada contra o meu país. Só quero a liberdade e a soberania do meu povo. Deixem-me em paz!
          O Comandante puxou o Capitão pelo braço e falou alguma coisa inaudível ao seu ouvido. A seguir saiu da sala, acompanhado por todos. Na sequência entraram na sala dois homens fortes, sendo um negro e outro com traços nipônicos. Puseram-se a desamarar o preso. Uma esperança de liberdade chegou a ser vislumbrada em sua mente. Foi quando o homem negro pegou seu pescoço por trás, dando-lhe uma “gravata” até asfixiá-lo e sentir o seu corpo inerte.
            Era o dia 25 de outubro de 1975, 8:45h.
             O ministro da Justiça entra apressado no Gabinete do Presidente da República, General Giesel, e pede permissão para ler a mensagem que acabara de receber:
             “ O Comandante do DOI-CODI, do quartel General do II Exercito, informa que o comunista Vladimir Herzog, convocado para depor naquele Comando, cometera suicídio em uma das celas nas dependências daquele Comando, tendo sido encontrado enforcado com o próprio cinto de suas vestes”
---Permita-me comentar, Senhor Presidente, apressei-me em vir comunicar tal fato a Vossa Excelência porque certamente vamos ter manifestações nas ruas. Teremos que ficar atentos.
---Esses comunistas de merda!!! O imbecil do nosso Comando arrumou não só alguns problemas para nós como as manifestações de rua, os abutres da mídia nacional e internacional caindo em cima de nós, mas também criou e deu vida a um mártir.

PVH-RO, 23/04/14


















           

quinta-feira, 3 de abril de 2014

AVENTURAS DO SERINGAL
           ( ANOS DOURADOS )



 Samuel Castiel Jr.








          Parte da minha adolescência foi marcada por férias que eu passava no seringal  São Carlos, do meu pai, no alto Jamari. Nos meus inquietos quinze anos, meu passeio preferido era viajar com meu pai para o seringal. Lá eu podia tudo, ou seja,  podia brincar do que eu quisesse, sem os olhos vigilantes e repreensores da minha mãe. A aventura começava já na viagem, subindo o rio Jamari dentro de um batelão, numa viagem que durava quatro dias e quatro noites. O rio caudaloso, largo, com suas águas barrentas e escuras. O silencio da floresta nas margens do rio com árvores altas e frondosas.  O canto dos pássaros e todo seu equilíbrio ecológico, só era quebrado pelo ruído do motor do nosso batelão (barco) que ia cortando aquelas águas e subindo o rio contra a veloz correnteza. Vez por outra passava o tronco de uma árvore caída,  descendo o rio abaixo, com pássaros aquáticos tipo garças, biguies  e mergulhões nele pousados, que afundavam  sempre que enxergavam alguma refeição naquelas  águas barrentas. Também eram frequentes tartarugas e jabotis que subiam na barranca para pegar sol e quando avistavam nosso barco saltavam e mergulhavam imediatamente. Revoada de pássaros coloridos, araras, periquitos e curicas passavam com frequência sobre nós, quebrando o silencio da floresta e se misturando com o  barulho do nosso motor de popa. A noite a lua era  nossa luminária  celestial, com sua luz prateada penetrando em nosso barco e deixando uma trilha de luz na superfície do rio. Nessa penumbra enluarada, o silêncio da mata se tornava mais enigmático, muitas vezes quebrado por ruídos  indecifráveis. Grandes felinos e outros milhares de animais de hábitos  noturnos certamente eram os responsáveis por aqueles esturros e gemidos que me enchiam ao mesmo tempo de curiosidade e pavor.
              Nossas refeições eram basicamente conservas enlatadas, xarque e ovos. Almoçávamos as onze e meia e jantávamos as 18:00h. Na selva a noite chega rapidamente e com ela os insetos, que veem atraídos pela luz da embarcação e também pelo nosso sangue. Depois do jantar tentávamos dormir, mas nossa embarcação continuava cortando as águas barrentas. Com um possante farol que iluminava nossos caminhos, os olhos atentos do prático de bordo iam sinalizando as manobras necessárias para desviar dos troncos caídos que passavam com velocidade arrastados pela  correnteza e representavam grande risco aos navegantes noturnos  em caso de colisão. Antes de pegar no sono, sentava-me com meu pai,  tripulantes do barco e outros passageiros,  na maioria seringueiros que meu pai contratava em Porto Velho para o corte da seringa. A conversa falava de estórias de seringais e da floresta, repletas de valentia e mistérios, entre uma pitada e outra de cigarros de palha, varando a noite até que o sono ia derrubando um por um. Quando o sol ainda nem despontara, as 5:00h, já havia movimentação no barco: era  o cozinheiro acendendo o fogão e logo sentíamos o cheiro do café, de ovos mexidos com bacon  fritos para o chamado quebra-jejum. Quando o dia realmente clareava todos já estavam acordados para mais um dia de viagem, continuando a subida daquele rio que parecia não ter mais fim. O sol era sempre muito forte e o calor insuportável, pois o vento que cortava nossos rostos também  era quente.  As noites muito frias e úmidas.
         No seringal havia um casarão central com algumas casas no seu entorno. Todas cobertas de palha. O casarão abrigava meu pai e pessoas da família, quando raramente iam visitá-lo. Alem dessas pessoas também moravam no barracão a cozinheira e o  capataz João Ferreira, primeiro tropeiro e homem  da  confiança de meu pai. Nas casas do entorno moravam outros funcionários como outros tropeiros e o gerente com sua família. Também havia alojamento para seringueiros que precisassem ficar hospedados por ali até seguirem para suas colocações no interior da floresta. Havia também o armazém, onde eram guardados os mantimentos, armas e munições, bem como alguns silos para guardar as  pelas de borracha que chegavam mensalmente a fim de serem transportadas para Porto Velho, onde eram comercializadas com o Banco da Amazônia S.A., o BASA.
         De tantas estórias que ouvi aqueles homens contarem nas noites que passava no seringal, muitas me chamavam a atenção e até hoje povoam minha memória daqueles tempos quando eu corria nas margens do rio Jamari, brincando  com a  cadelinha “Putz”, uma viralata que meu pai levou para lá e com quem  fiz grande amizade. As vezes ia pescar no rio, jogava o anzol, amarrava a linha na arvore e esperava o peixe puxar. A “Putz” também me ajudava, ficando de olho na linha. Quando esta começava a esticar ela começava a latir, chamando minha atenção para o peixe fisgado. O desagradável dessa pescaria eram as pragas de mosquitos, piuns, borrachudos  e  abelhas que insistiam em nos atacar mesmo que estivéssemos com roupas de mangas compridas, luvas, e as calças enviadas em botas. Sempre esses bichos achavam um jeito de me picar. E como sempre fui alérgico, produziam  um verdadeiro estrago no meu corpo. Mas mesmo assim gostava de ir a beira do rio pescar, pois ali via centenas de borboletas de todas as cores que, quando pousadas, formavam um verdadeiro tapete multicolorido. Periquitos em bandos também pousavam nos barreiros a margem do rio para completar suas refeições, fazendo um alvoroço peculiar. Achava fantástica  aquela natureza  rude, bruta e simples, que só tinha a mim e a “Putz” como testemunhas. Brincava o dia inteiro, com um estilingue pendurado no pescoço e uma sacola de pedras ou palanquetas de chumbo amarrada na cintura tipo uma pochete. Meu pai não queria que eu me afastasse muito do barracão, pois o perigo poderia estar em  qualquer  parte. Mas, ouvindo as estórias contadas por aqueles seringueiros, ficava com meu imaginário aguçado: queria ver a cobra grande que poderia engolir um homem inteiro ou comer um boi e ficar com sua  cabeça de chifres pra fora até que ela apodrecesse e caísse, quando então voltava a sua vida normal. Queria ver também o macaco gogó-de-sola, que atacava seringueiros, pegando-os de surpresa na mata, pulando em seu pescoço e sufocando-os até a morte. Dava tudo pra ver uma onça pintada, o maior felino da Amazônia, atacando e devorando um porco do mato ou um viado. Queria ver também o Saci-Pererê, com uma perna só, fumando seu cachimbo;  a Mãe-da-Mata, o Uirapuru, com seu canto  sedutor e encantador;  enfim queria ver tantas figuras lendárias que os seringueiros acreditam e juravam  já ter  visto ou se relacionado com elas em algum momento  de suas vidas solitárias em plena selva. Algumas estórias pareciam mais reais que outras. Algumas eram tão fantasiosas  que dava vontade de rir. Era então que meu pai me beliscava por baixo da mesa tosca iluminada por lamparinas. O João Ferreira, capataz e homem de confiança de meu pai, tinha umas estórias que impressionavam a todos, mas que me deixavam com uma pulga atrás da orelha e com vontade de rir. Contava ele que certa vez, quando trabalhava em outro seringal, no Rio Machadinho, pra chegar até lá, tinham que atravessar algumas corredeiras e cachoeiras. O barco sempre muito pesado, com muitas pessoas e cheio de mercadorias,  tinha que atravessar essas cachoeiras com muito cuidado. Homens habilidosos chamados de práticos, iam guiando e orientando o melhor caminho, enquanto outros com grandes varas empurravam e desviavam o barco entre enormes pedras, cobertas de limo. Mesmo assim, o barco de vez em quando se chocava com essas pedras jogando homens naquelas águas revoltas, que eram infestadas de peixes elétricos, chamados de puraqués. Esses peixes são capazes de produzir ondas de choque de até mil volts. Quando encontram açaiceiros a beira dos rios, produzem choques nas suas raízes fazendo com que caiam cachos de açaí,  que servem de alimento para eles. Pois bem, segundo o João Ferreira, quando os homens caiam nas águas revoltas das cachoeiras, os puraqués acertavam choques em suas jugulares, matando-os instantaneamente.  Não sei porque, depois dessa, tive vontade incontrolável de rir!...Tomei outra vez um forte beliscão de meu pai.
           Certa vez estávamos sentados para o almoço e sobre a mesa havia uma panela fumegante, de onde saia um vapor com um cheiro agradável de comida gostosa. As pessoas que se serviam, pegavam o braço de um macaco que repousava sobre um prato vazio e limpo e, com ele, se serviam da farinha utilizando a mãosinha peluda   como se fora uma concha. Claro que na panela, aquele ensopado cheiroso,no leite da castanha, era do dono daquela mão. Fiquei enjoado e me recusei a comer. Foi preciso o cozinheiro  improvisar alguma outra comida que continha pra variar feijão, charque e ovos. Todos ficaram surpresos com a minha recusa, pois juntamente com o mutum, uma ave galinácea, constituem  uma das melhores iguarias da selva.
          São muitas as aventuras vividas naquele seringal. O que parece incrível pra nós, acontecia por lá.  Meu pai tinha um seringueiro  o mais velho de todos, acho que já tinha uns 70 anos e, juntamente com sua mãe de aproximadamente 90 anos, viviam em uma colocação distante, a cerca de 8 horas do barracão em montaria de jegue. Pois bem, esse casal de mãe e filho, já estavam no seringal do meu pai quando ele chegou, a mais de  vinte anos. Quando raramente vinham a cidade, tinham o tique de ficar se batendo e se abanando com as próprias mãos, como se estivessem matando ou espantando mosquitos, piuns, borrachudos ou abelhas que não existiam mas que os atormentavam por longos anos no interior da floresta. Havia também relato de homicídios cometidos por seringueiros que eram traídos, ou que tinham suas companheiras estupradas por outros seringueiros que saiam de suas colocações, andavam horas ou até dias para espreitar e pegar as mulheres que ficavam sozinhas enquanto seus maridos estavam no corte das seringueiras, pois saíam geralmente quatro horas da manhã só retornando as 18, espaço quando suas mulheres indefesas ficavam a mercê da insânia de seringueiros  tarados e sem mulher
             Como dizia meu pai, muitas vezes ele tinha que ser o padre, o delegado e o médico,  já que tinha quase sempre que casar, prender ou medicar as pessoas que precisavam da sua ajuda.
               São muitas as recordações daquela época, quando corria todo encapotado com aquelas roupas que me deixavam mais parecido com um apicultor, seguido pela “Putz”.
               Quando o preço da borracha se tornou inviável, a maioria  dos grande seringais declinou e enveredou pelo garimpo em busca de jazidas de cassiterita ( estanho ) pois grandes jazidas desse minério foram detectadas na Serra da Imburana, cujo principal filão estava  nos igarapés do seringal Massangana. Meu pai antes de vender  o Seringal São Carlos ainda organizou várias expedições juntamente com o Plinio Benfica em busca desse minério.  Mas já não era a mesma coisa. Nessas expedições  não havia lugar para crianças ou adolescentes. Pesquisavam exaustivamente os igarapés, assentando e levantando acampamentos quase que diariamente. Realmente era muito cansativo eu não queria mais me arriscar. Além do mais foram surgindo outros tempos, outras brincadeiras e eu sem me dar conta fui ficando adulto. Aquelas aventuras  e aquele  pedaço da floresta ficaram  e ainda povoam  as minhas  lembranças, como uma época  boa e inocente  da  adolescência, e que  hoje fazem parte das minhas reminiscências  como  verdadeiros  anos  dourados!


PVH-RO, 03/04/14