quinta-feira, 18 de julho de 2013

O RECO E O BOI MALHADINHO
Samuel Castiel Jr.

 







       São muitos os bairros que participam de concursos de quadrilhas e boi-bumbás nas festas juninas aqui em Porto Velho. Sem dúvida o  grande concurso acontece no Arraial “A Flor do “Maracujá” onde as barraquinhas vendem comidas típicas tais como vatapá, tacacá, maniçoba, caruru, galinha a cabidela, bacalhau a Gomes de  Sá,  etc., além  churrascos e churrasquinhos de gato com carnes bovina e caprina,  bebidas diversas    como cervejas, refrigerantes, quentão, aluá,  “capetão”,  vodka, pingas variadas, caipirinhas e caipiroscas, bem como sucos de  frutas  regionais da época. E entre as luzes coloridas, rodas-gigantes, montanhas russas, barcas-voadoras, etc., shows sertanejos e vaquejadas, vão desfilando as quadrilhas e bois-bumbás durante a noite inteira, sob o som de sanfonas, chucalhos, triângulos e pandeiros.
       É nesse cenário que Godofredo cresceu, amando as festas juninas, onde tinha a oportunidade de apresentar-se dançando com seu boi Malhadinho. Era o dono do boi e começava a ensaiar seus componentes já no mês de maio, num campinho de futebol na lá zona leste da cidade, bairro que começava a ser habitado, com grande invasão de áreas por grupos do movimento “sem teto”. Godofredo ensaiava seus brincantes para a grande disputa final no Arraial “Flor do Maracujá”,  no mês de  julho, as vezes já em agosto. Costumava concorrer com outros  grandes bois  como o “Corre Campo” cujo amo  chamava-se“Galego” ou “Garantido” cujo dono era o Zé Luiz. Tinha também o “Diamante Negro”, do Aluizio Guedes, que se destacava em suas apresentações pela exuberância das fantasias. Godofredo colecionava alguns troféus de memoráveis quadras juninas. Quando completou dezoito anos, teve que se apresentar para serviço obrigatório do exercito. Tornou-se um recruta. Sabia que a disciplina e as normas militares eram rígidas. Quando se aproximou o mês de maio, e precisava começar os ensaios do boi Malhadinho, Godofredo ficou preocupado, mas mesmo assim foi ao sargento que lhe dava instrução de preparo físico e perguntou-lhe se podia brincar com o seu boi Malhadinho mesmo sendo um recruta do exército.
-- Olha Reco, acho bom você nem pensar nisso, pois aqui a disciplina e os horários são rígidos e existem para ser cumpridos, certo?
      Ficou triste, pois o seu boi Malhadinho nunca deixara de participar das festas. Mas, como os ensaios eram lá na zona leste da cidade, começou a ensaiar seus brincantes. Entretanto, não estava satisfeito, pois o que ele gostava mesmo era de dançar como Amo do Boi, ou seja aquele que puxa os cânticos e toadas, todo vestido com roupas coloridas, chapéu com fitas e espelhos, de pandeiro na mão!...Com o corte de cabelo militar, era fácil identificá-lo com Reco. Acontece porém que quanto mais se aproximava o dia da competição, os ensaios ficavam mais intensos e se estendiam noite adentro! 
       O exército tinha patrulhas  compostas de 10 ou 12  soldados, comandados por  um cabo experiente ou um sargento. Essas patrulhas vaziam ronda nos locais de maior aglomeração, tais como festas, cinemas, praças, jogos de futebol e também nos  arraiais, já que não havia ainda sido criada a Policia Militar (PM). Essas rondas com patrulhas do exército eram chamadas Patrulha Especial (PE) e tinham como objetivo inibir a ação de desordeiros, ladrões e meliantes que se infiltrassem nessas aglomerações populares.
       Já na véspera do concurso final, o Godofredo não resistiu! Durante o ultimo ensaio, avisou sua mulher que queria brincar! Afinal, não via mal nenhum nisso, pois tinha plena consciência que ninguém ficaria sabendo. Depois de pensar muito, teve uma ideia: ia brincar de “miolo” do Malhadinho, pois lá embaixo  ninguém iria descobrir nem perguntar quem é que dançava pelo boi!...Chamou o Joca, miolo titular, e disse-lhe:
--Olha aqui Joca, vou confiar em você, que já brinca a anos no Malhadinho e é como se fosse meu irmão! O exercito não permite que o Reco brinque nas festas juninas, principalmente em boi. Mas eu tô que não me aguento!... Vou brincar de “miolo” no seu lugar, e você vai de Cazumbá, pois já conhece a estória e sabe as falas e toadas, OK?
--Certo, “broder”! Você é que manda!...
--E vou aproveitar logo hoje pra fazer o último ensaio, antes da competição lá na “Flor do Maracujá”.
       A patrulha do exército (PE) nessa noite estava sendo comandada pelo Cabo Félix, um cearense que, de tão caxias, diziam que já nascera vestindo a farda verde oliva do exercito. Pra se ter uma ideia, o Cabo Félix batia continência pra ele mesmo frente ao espelho todas as manhãs ao se acordar!... E nessa noite soube do ensaio do boi Malhadinho lá pras bandas da zona leste, onde começavam a surgir as “gangs” violentas, que posteriormente viriam aterrorizar as noite de   Porto Velho. Resolveu dar uma “batida” por lá. Quando a patrulha chegou, havia uma grande aglomeração em torno do Malhadinho, que dançava muito animado, com muito vigor, balançava o rabo, botava a língua pra fora e dava saltos passando bem perto aos curiosos que assistiam aquele ensaio. O Cabo Félix então começou a  notar que quando o Malhadinho se aproximava da patrulha, imediatamente virava de costa, balançava o rabo e se afastava aos saltos para o outro lado da roda do ensaio. Numa dessas manobras, o Cabo Félix olhou para os pés do Malhadinho e o que viu foram dois coturnos pretos e bem engraxados! Imediatamente mandou que os soldados cercassem o ensaio e, quando o Godofredo percebeu o cerco, sentiu que tinha sido descoberto, jogou o Malhadinho em cima dos soldados e passou por eles em desabalada carreira, sendo contido lá na frente pelo próprio Cabo Félix, que já o esperava:
--Tentando enganar nossa patrulha, não é seu Reco? Você não sabe ainda do regulamento militar que jurou cumprir quando foi admitido e incorporado?
--Cabo, eu só tava dançando de “miolo”, mas juro que não ia concorrer!
--Pois eu juro que é você que não tem miolo! E juro também que o Comandante é que vai decidir quantos dias você vai ver o sol nascer quadrado!
    Virou-se para seus soldados e ordenou:
--Aos costumes pracinhas! Algemas e “camburão” nesse “miolo”!
      O Malhadinho nesse ano perdeu o troféu principal, mas ganhou um premio de consolação entregue a esposa do Godofredo!

PVH-RO, 17/07/13

terça-feira, 16 de julho de 2013

O  AGENTE  FUNERÁRIO

 Samuel Castiel Jr.













         Geólogo argentino, pesquisador de jazidas de pedras preciosas na reserva Roosevelt, em Rondônia, a serviço de uma mineradora multinacional, concluiu sua missão, elaborou minuncioso relatório falando da qualidade do solo, jazidas, aluviões e ocorrência das pedras preciosas naquela reserva. Falava também de conflitos sangrentos entre índios e garimpeiros, bem como da ausência da força policial, gerando insegurança para quem se aventurasse a trabalhar naquela longinqua região. Quando voltava para São Paulo, sofreu um ataque cardíaco no aeroporto  do Belmont, hoje Jorge Teixeira, em Porto Velho-RO., foi socorrido e transportado pelo SAMU, porém foi a óbito durante o percurso, tenho chegado morto na unidade de emergência do Pronto Socorro João Paulo II. Constatado o óbito o médico plantonista assinou o Atestado de Óbito e, como de praxe, pediu que levassem o corpo para o necrotério até que os familiares o procurassem. Era um sábado a noite e o movimento muito intenso naquela unidade hospitalar. Baleados, esfaqueados, motoqueiros quebrados, vitimas do enlouquecido trânsito. O tempo foi passando, e aquela rotina avançou noite adentro! Já era tarde quando um amigo e colega do geólogo falecido chegou ao Pronto Socorro acompanhado de outro homem que se identificou como gerente e representante da empresa multinacional e empregadora do pesquisador falecido. Procurado o médico que assinou o atestado de óbito, este explicou que infelizmente o infarto foi fulminante, tendo o paciente dado entrada já morto naquele Hospital. Nada podemos fazer! –disse o médico ao gerente da mineradora.
-- E onde está o corpo doutor ?– perguntou o amigo do geólogo. Temos que providenciar o preparo do corpo, bem como o embalsamamento e o seu transporte para São Paulo, de onde seguirá para a Argentina, onde mora sua família.
-- Pois não, vocês podem ir até o necrotério que o corpo lá se encontra. Já assinei o atestado de óbito.
    Mas ao chegar ao necrotério, pra surpresa dos dois homens, lá não havia nenhum corpo! As três mesas de pedra  estavam frias e vazias!... Já nervosos, voltaram ao atarefado médico que ficou incrédulo ao saber que o cadáver tinha sumido! Chamou a enfermeira-chefe e, juntos, foram as pressas ao necrotério, constatando o que já sabiam: o corpo do geólogo havia sumido! Sem saber o que dizer nem como explicar aos amigos do morto o sumiço de um cadáver de dentro do hospital,  o médico e a enfermeira ficaram ainda mais atabalhoados:
-- Não sabemos ainda ao certo o que aconteceu!...Vou pedir a instalação de uma comissão para apurar esse fato lamentável! –disse o médico sem muita convicção!
--Doutor, o senhor me desculpe, mas nem o senhor nem comissão alguma vão apurar nada! Vou agora mesmo registrar uma ocorrência policial. Isso que aconteceu é inadmissível! – disse o representante da mineradora já quase aos gritos dentro do hospital. Ao sair, juntamente com o amigo do geólogo morto, falando alto e reclamando muito, o gerente da mineradora foi abordado por outro homem, já no estacionamento do hospital:
--Moço, por favor, tô vendo que o senhor tá muito aborrecido, e com razão! Sumiram com o corpo do seu amigo! Eu acompanhei e ouvi  tudo de longe. Sei o que aconteceu.
    O gerente que já estava quase entrando no seu carro, parou.
--O que você tá dizendo home?
--Isso mesmo que o senhor ouviu. Eu sei o que aconteceu e também sei onde está no corpo do seu amigo.
--E quem é você?
--Sou funcionário de uma funerária, vulgarmente chamado de “papa-defunto”. Mas odeio esse nome, e prefiro que me chamem de Agente Funerário. O que aconteceu foi uma tremenda atitude antiética e desrespeitosa. Sou Agente Funerário a 15 anos e nunca tinha visto isso acontecer!  Eu acompanhei o seu amigo desde o aeroporto, quando ele passou mal e foi transportado pelo SAMU. Depois que foi declarado morto e mandado para o necrotério, fiquei a espera de algum familiar dele para que pudesse tratar do funeral. Mas quando o senhor chegou e foi até ao necrotério,  um outro “papa-defunto” já tinha removido o corpo e saído por traz do hospital. Creio que o vigilante do hospital deve ser cúmplice desse vagabundo! Fui atras e chequei tudo: o corpo do seu amigo está em uma terceira  funerária concorrente. Ouvi falar que teria sido negociada sua transferência para  uma terceira funerária por um bom preço. Agora, que o senhor sabe de tudo, é por sua conta!
--O gerente da mineradora, furioso, agarrou o “papa-defunto” pelo colarinho:
--Vocês são todos iguais! Verdadeiros abutres! Não respeitam nem os mortos nem suas famílias! E tem mais, você vem comigo agora! Vamos até a delegacia mais próxima registrar essa ocorrência e você é a minha testemunha ocular viva!  E tem sorte de ainda ser “viva”!...
--Como já lhe disse, meu senhor, acho isso uma terrível falta de ética profissional. Mas, nos dias de hoje, esse mercado tá cada vez mais disputado. Quem chegar primeiro leva!...
    Na delegacia, depois do fato narrado ao delegado plantonista, o escrivão digitou os necessários depoimentos, lavrou o Boletim de Ocorrência ( B.O.)., e na sequência solicitou que a viatura policial, juntamente com uma patrulha da PM e o “papa-defunto” delator,  fossem até a funerária e trouxessem presos os responsáveis. Quando a equipe já entrava na viatura pra cumprir a missão, o delegado chamou o seu agente policial e ordenou:
--Carlão, traga TODOS os  responsáveis presos! Inclusive o corpo desse cidadão portenho!  Onde já se viu um  cadáver estrangeiro  perambulando pelas ruas de Porto Velho, de funerária em funerária,  sábado a noite, como se fosse um cão sem dono! Isso pode até gerar inclusive um mal-estar diplomático! Que plantão agitado nesse sábado, hem? Vou lhe contar!... E dirigindo a palavra para o gerente da mineradora que, bufando de raiva, quase apoplético,  tentava  acalmar-se, perguntou-lhe:
--Enquanto o senhor espera, aceita um copo d’agua ou um cafezinho?...


PVH-RO, 16/07/13

sábado, 13 de julho de 2013

O ESPELHO DE NARCISO


Samuel Castiel Jr.











         Quando  nasceu já era um bebê grande, branca e chorando forte! Seus  olhos  azuis  e os cabelos loiros, faziam-na parecer de descendência nórdica. Segundo seus pais e as próprias fotos mostravam como ela era linda desde que nasceu.  Ainda para completar chamava-se Diana, deusa da mitologia grega, como ela. Assim, costumava gabar-se de sua beleza para todos seus amigos. Na adolescência fez do seu colégio uma passarela, onde desfilava todos os dias não só para seus colegas mas, principalmente, para os professores. Incentivada pelos pais, entrou para a escola de modelo, tendo conquistado alguns resultados positivos  e comentários de que levava jeito para o “fashion”. Não queria quase nada com o colégio, apenas frequentava as aulas, conseguindo passar a custa de colegas generosos que lhe davam seus gabaritos. Assim, vivia como uma “patricinha” mimada e rebelde. Matriculou-se no Wise Up para aprender inglês, mesmo sem ter nenhuma vontade. Frequentava a Academia onde malhava para melhorar ainda mais sua aparência. Mas, sabia-se linda e tinha certeza que despertava a inveja na maioria das amigas. Era cobiçada pelos meninos, mas esnobava a todos! Não queria se envolver com ninguém. Achava-se bela, linda e maravilhosa. Sua cútis era branca e rosada, sem  mancha nenhuma sequer. Seu nariz afilado e olhos ligeiramente puxados, azuis, davam-lhe a certeza do rosto angelical. Para completar esse potencial, tinha a altura de 1,70m, pernas grossas, torneadas, pescoço esguio e longo, lábios carnudos e um bumbum arrebitado que fazia toda a macharada olhar quando ela passava. Mas ela não tava nem aí! Não queria se envolver com ninguém! Tinha um ritual, que chegou a virar  mania:  pela manhã ao levantar-se, corria para o banheiro e, frente a um  grande espelho do seu closet, admirava-se por tempo indeterminado, vasculhando pequeninos detalhes da sua beleza incomum. Olhava cada curva de seu rosto, o nariz,  os cílios longos e ligeiramente virados, a sobrancelha perfeitamente desenhada, os cabelos loiros, lisos e com discretas ondulações nas pontas. As orelhas eram proporcionais a sua cabeça, com uma inclinação perfeita, que lhe davam uma silhueta frontal majestosa, algo lembrando  Nefertiti, do antigo Egito. Ficava horas a olhar-se naquele espelho, e perdidamente apaixonada por sua estonteante beleza, perguntava mentalmente para o espelho, lembrando-se de Narciso:
-- Espelho, espelho meu, diga-me se existe neste mundo alguém mais linda do que eu?
         O espelho então nem precisava responder-lhe –pensava,  pois quem cala consente!  E sem nenhuma dúvida a sua beleza era única, universal!
          Com o passar dos anos, os seus hormônios sexuais aflorando, chegou o momento de  namorar. Mas... com quem?  Ninguém lhe interessava, os meninos ou eram “gays” efeminados ou simplesmente abestalhados, despidos de qualquer coisa interessante!... E, além do mais, a sua beleza descomunal fazia com que quase ninguém dela se aproximasse com intenção de namoro.  Aos poucos, sentiu a necessidade do aconchego de alguém, mas não sabia ao certo de quem.  Tinha certeza de que não eram seus pais, pois queria sentir um carinho diferente, alguém que tocasse o seu corpo, seus seios, seu sexo...Que lhe dissesse palavras de amor, de carinho,  que beijasse a sua boca perfeita, sentisse seus lábios carnudos. Mas como isso iria acontecer, se ninguém se aproximava dela. Sua única paixão, entretanto, era ela mesma! Amava toda aquela sua monumental beleza!  Ficava horas  frente  aquele  espelho de  seu  closet, a admirar-se todas as manhãs e a noite antes de deitar-se para mais uma noite de sono. Quando sonhava, sonhava com ela mesma, admirando a sua beleza descomunal!
         Aconteceu um dia, quando voltava pra casa, deu carona a uma colega e percebeu que algo lhe atraía para aquela moça. Não que fosse linda como ela  (isso seria impossível) nem mesmo bonita, mas era meiga e dócil, tinha um carinho todo especial por ela. Chamava-se Susi, e já se conheciam a algum tempo, mas só agora começava a prestar atenção nessa colega. Aos poucos também começou a admitir que era não só amizade, nem só desejo, era mesmo um amor homossexual. E foi ficando cada vez mais apaixonada, só andava com a Susi, não queria mais ficar longe dela. Até que descobriu que a Susi não era a pessoa que ela imaginara. Também não correspondia ao seu amor.  Era vulgar, podia-se dizer até mesmo promíscua! Mas fazer o que? Amava-a assim mesmo. Sujeitava-se até aceitar suas mentiras, só lhe pedia que jamais queria vê-la com outra mulher.  Não suportaria! Mas um dia isso aconteceu,  foi inevitável! E isso representou   um transtorno radical em sua vida! Passou dias trancada em seu quarto, sem querer falar com ninguém, sem querer alimentar-se, apesar dos insistentes chamados  e mimos de seus pais.  Já fazia dias que não procurava seu espelho. Num desses dias de profunda  e solitária depressão, resolveu olhar-se no espelho. Após fixar seu olhar por alguns minutos no seu velho amigo espelho, com a voz baixa, quase murmurando,  perguntou-lhe:

- Espelho, espelho meu, existe alguém neste mundo mais bela do que eu?
-- Você está horrível! Feia,  com sua imagem difusa,   olheiras profundas, rugas e marcas de expressão, com cabelos ressecados, quebradiços e depenteados... Todas as mulheres do mundo hoje são mais belas que você!...
         Num ataque de histerismo e fúria, atirou seu vidro de perfume francês  sobre o espelho, que se partiu  em pequeninos pedaços.
         Levada ao Hospital foi medicada na emergência e encaminhada ao serviço de pisiquiatria ambulatorial para acompanhamento. O pisiquiatra encaminhou a Diana ao analista,  que depois de umas cinco sessões com a Diana no divã, chamou seus pais e disse-lhes:
-- O caso da Diana é um caso grosseiro de narcisismo associado a homossexualismo. Para que vocês entendam melhor,  é como se existissem duas almas  em cada pessoa. Uma interior e outra exterior. A exterior é aquela que todos vem, associada ao "status", ao narcisismo, ao social, ou seja, como a pessoa é vista exteriormente.  A interior é aquela real, que só ela, as vezes,  vê. E geralmente vê quando  se despe de todo exterior, ficando a sós consigo mesma. O espelho as vezes ajuda a mostrar a essas pessoas sua outra alma interior que ninguém conhece, nem elas  próprias.  A Diana  vai precisar de apoio psicológico por algum tempo e talvez de um psicoterapeuta. O prognóstico é bom, porém ela vai precisar muito do apoio também da família. Creio que isso ela sempre teve com vocês, mas é importante que  seja dito.
    Já saindo e depois de se despedir dos apreensivos pais, o analista os interrompe e adverte:
-- Desculpem, já ia esquecendo: evitem colocar espelho no quarto da Diana pelo menos por uns seis meses...
                                                                                                                                                                      

 PVH-RO,13/07/13

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A CIDADE DO LOBO



Samuel Castiel Jr.











     A lua já estava grande e cheia e ainda era cedo, mal a noite começara a chegar. As ruas empoeiradas, barracos cobertos de lona, paredes erguidas com tabuas toscas, material de construção espalhado por ruas e vielas. Uma brisa começava a soprar, melhorando a sensação do calor causticante que fustigara a todos durante o dia. Alguns moradores ainda tentavam trabalhar sob a meia-luz dourada da lua, ou focando lanternas para acabar de pregar tabuas em seus cômodos improvisados. Alguns meninos corriam brincando naquele cenário que mais parecia um canteiro de obras, abandonado. Aos poucos as crianças foram parando seus folguedos e correrias, os adultos parando seus trabalhos. Alguns cachorros latiam ao longe. A noite foi avançando e a lua subindo rapidamente, como um farol na noite. Já era quase meia noite, o silencio predominava naquela área de invasão da zona sul de Porto Velho. Foi então que lá longe, já nos limites com a floresta, ouviu-se o uivo de um lobo. Os moradores que ali já dormiam, acordaram-se com aquele uivado insistente e começaram a ficar incomodados. Alguns reforçaram as trancas de portas e janelas de seus barracos. As crianças se aconchegaram mais aos pais!... O que ninguém poderia imaginar é que esse lobo fosse ficar voltando  todas as  noites, enquanto a lua estivesse cheia ou crescente. No mês seguinte a estória se repetiu: um lobo uivando naquele cenário de invasão, nas noites de lua. O assunto começou a virar comentário não só no local da invasão mas também em toda a cidade de Porto Velho. A mídia passou a explorar o assunto, dando ampla divulgação e tornando ainda mais misterioso o tal lobo. Alguns moradores da invasão chegaram a dar entrevistas onde diziam ter visto o lobo: “era grande,  muito felpudo, de cor preta e arisco como ninguém, pois ao sentir a aproximação de qualquer ser vivente, fugia em desabalada carreira, sem deixar nenhum rastro!” Todos concordavam que era um lobisomem. Depois de alguns meses dessa aparição uivante, as autoridades policiais e da prefeitura resolveram investigar o assunto, pois a imprensa escrita, falada e televisada estava fazendo muito estardalhaço em cima desse bicho e, por isso mesmo, aquela área de invasão passou a ser chamada a Cidade do Lobo. Alguns outros bairros da cidade também já tinham recebido nomes sugestivos que iam desde nomes de novelas da época como “Meu Pedacinho de Chão”, a primeira novela a ser exibida nesta cidade e que, por motivo de incêndio nos estúdios  TV Globo, em São Paulo, seu final não pode mais ser retransmitido por aqui e seus atores principais foram contratados pelo Governo para contar ao vivo o final da novela no Cine Resky. A criadora e incentivadora desse bairro, por sinal, foi Dona Gilsa Guedes, esposa de um dos governadores do antigo Território Federal de Rondônia, o Cel. Humberto da Silva Guedes;   até outros como o “Caladinho”que por ser invasão, recebeu esse nome por motivos óbvios,  já que surgiu da noite para o dia, na calada da noite!...
         Mobilizada a comunidade através da Defesa Civil,  com o reforço de alguns policiais civis e militares, foi programada uma mega operação com o objetivo de capturar o lobisomem uivante. Tinha que ser em noite de lua cheia! Tudo foi então programado em sigilo para uma noite de lua, quando era certo o aparecimento do bicho peludo. Cercado o bairro, os agentes se posicionaram em pontos estratégicos,  armados com facões, fuzis, pistolas ponto 40, pedaços de pau, estilingues, pedras, etc, a espera da fera. Meia noite em ponto começaram a ouvir os uivos do lobo que fizeram muitos abandonar seus postos e  “vazar” trêmulos rumo a cidade, já contando e aumentando...Uns diziam que chegaram a ver um bicho peludo horrível!  Talvez um ET, um “Chupa-Cabra” quem sabe? Outros diziam que o chão tremeu quando o bicho  uivou, e assim por diante! Mas os agentes policiais e destemidos homens da Defesa Civil ficaram nos seus postos e foram se aproximando do local onde a fera se encontrava uivando, e que era numa estreita viela, já quase no limite da floresta. Dentro de uma pequena barraca coberta de lona, toda fechada e sem portas ou janelas, era de lá que saiam os uivos selvagens e também outros gemidos... Foram se aproximando pé-ante-pé, como verdadeiros tigres para não afugentar suas presas. Cercada a barraca, não havia como o bicho escapar! O comandante da operação, então, segurou o megafone e deu a voz de prisão:

--Fique onde está, você está cercado e preso! Caso tente fugir será morto a tiros!
   Houve um silêncio sepulcral que pareceu uma eternidade.  A seguir, aos poucos, parecendo que se moviam em câmara-lenta, foram levantando a lona da barraca e saindo, com os braços p’ra cima, primeiro um homem alto e magro e logo em seguida outro homem vestindo uma fantasia de lobo, com pelos pretos e um rabo felpudo que descia até ao chão. A luz da lua cheia, aquela cena parecia sulrrealista. Todos estavam perplexos! Sem nenhuma palavra o comandante ordenou que fossem revistados e, depois,  já com os  braços e mãos para trás, colocou-lhes as algemas. Foram “agasalhados”  no “camburão” da polícia militar e conduzidos a delegacia para lavrar o respectivo Boletim de Ocorrência (BO).
        Após ampla exploração midiática, onde as  chamadas de telejornais eram explicitas:  “O Lubsomem era um ”Lubsgay”!..., as autoridades policiais divulgaram o depoimento dos presos, os quais foram encaminhados a uma junta de médicos psiquiatras e  psicólogos antes de serem levados ao presídio. Tratava-se de mais um caso grosseiro de fetiche, onde o relacionamento homosexual  chegava as raias das chamadas perversões sexuais ou parafilias. Nesse caso, o parceiro ativo da relação, somente sentia prazer e chegava ao orgasmo se a relação ocorresse em circunstâncias difíceis e incomuns, além de que o parceiro passivo ainda tinha que estar travestido de lobo e uivando como tal. Como o próprio “lubsgay” se manifestou quando lhe foi perguntado:
--Porque você se arriscava tanto? E ainda mais vestindo essa fantasia ridícula  de lobo?
--Doutor, o que a gente não faz por amor, não é mesmo?
   Foram enquadrados e tipificados como perturbadores  da ordem, dos costumes  e da moral da comunidade. Cumpriram pena de 1 ano  em regime fechado, pois ainda não havia a chamada pena alternativa nem a progressão do regime. O bairro foi chamado por muito tempo Cidade do Lobo, hoje Conceição e Cidade Nova,  na zona sul da cidade
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                                                                                                    PVH-RO, 10/07/13

quinta-feira, 4 de julho de 2013

GOSTO NÃO SE DISCUTE


Samuel Castiel Jr.

             Aristóbullus sempre foi tímido  desde menino, na adolescência e, agora, já homem feito! Em virtude dessa tamanha timidez, principalmente com as mulheres, ainda era virgem! Descendente de pais e avós gregos, solteirão já aos 35 anos, bancário de profissão, brevilineo, pícnico, vermelho, careca e gordo. Isto é, tinha todos os requisitos para ser ainda mais tímidos com as mulheres! Últimamente passara a ter insônias e, para não ficar numa vigília irritante e sem sentido, pensando num amor que não conseguia, ia para a Lanhouse próxima a sua casa e ficava longas horas nas salas de “chats”. Batia papo com as pessoas mais diversas e diferentes! Aí sim, foi perdendo toda a timidez! Sua preferência eram os sites de relacionamento, onde ficava por horas a fio conversando com mulheres, desde jovens adolescentes até “coroas” aposentadas. Gostava mesmo era das solteironas de meia idade. Já eram resolvidas, tinham mais experiência!...No início tal era sua timidez que, mesmo pela internet, ruborizava quando a conversa descambava para sexo. Depois foi ficando mais solto, já comentava até sobre relação sexual por telepatia ou virtual!...O tempo foi passando e o Aristóbullus gastando mais as suas noites nas salas de “chats”. No trabalho do Banco durante o expediente, sentia muito sono, chegando mesmo até a ser repreendido pelo seu gerente:

--- Aristóbullus, me desculpe, mas parece que você passou a noite acordado!...

     Desculpava-se alegando que estava estudando para fazer um concurso para a Receita Federal.

      Numa noite dessas, quando estava ligado num site de relacionamento, viu um anuncio que chamou sua atenção:   “ Se você é um homem entre 30 e 45 anos, solteiro, e deseja relacionar-se com mulheres solteiras ou descompromissadas visando relacionamento estável, cadastre-se já e brevemente não estará mais só! Possuimos um banco de dados de milhões de pessoas que se relacionam no mundo inteiro! Não fique mais sozinho!...A solidão deixa o ser humano neurótico e mata você mais rápido!...” Aristóbullus não pensou duas vezes: cadastrou-se imediatamente! Ficou ansioso durante toda a semana, até que começaram chegar mensagens no seu e-mail: eram as mais diversas possíveis! Louras, morenas, ruivas, magras, musculosas, bombadas, rechonchudas, baixinhas, altas, de bum-buns arrebitados, outras nem tanto, mas falando de pernas grossas, torneadas, de voz mansa, românticas, mandonas, submissas, masoquistas, sádicas, bi-sexuais, lésbicas,  adeptas ao “ménage-a-trois”, etc. Interessou-se particularmente por uma loura, branca, de 38 anos, com 1,75m de altura, corpo esguio e seios fartos, com cerca de 350 ml de silicone cada um, apenas para melhorar seu perfil e torná-la mais atraente! Priscylla era o seu nome.  De lábios carnudos, sabia beijar como ninguém! Adorava chamegos e carinhos, desde pequenos afagos até caricias mais audaciosas... Tinha pernas grossas, bum-bum arrebitado, solteira, sem nenhum filho. Dividia o apartamento  em uma estância com uma amiga de repartição, no bairro do Meier, no Rio. Tinha muito em comum com o Aristóbullus, mas principalmente porque era também muito tímida! A partir daí falavam-se todos os dias. Não só pela internet mas também pelos celulares, quando a saudade crescia muito!... Aristóbullus ficava ansioso quando a Pri não ligava durante alguns dias. Ficou mais ansioso quando ela pediu que gostaria de ver uma foto sua. Afinal, a quase três meses já se correspondiam e, pelo menos por foto, queria conhecê-lo. E agora? – pensava o Aristóbullus. Vai acabar tudo! Quando ela souber que, por trás da minha voz de locutor de travesseiro, esconde-se um baixinho, careca, barrigudo e ainda por cima tímido! Qual será sua reação? Vai acabar toda a empolgação e volto pra minha solidão!...Pensou em mandar uma foto de óculos escuros e de boné. Mas ela não iria gostar. Depois de refletir muito sobre a foto e o seu perfil físico, resolveu mandar a foto verdadeira, ou seja, de como ele é mesmo! A sua sorte estaria lançada! De qualquer forma, a Pri teria que saber como ele é, mais cedo ou mais tarde. Enviou suas fotos pelo “Whats App”, sorrindo, uma de frente e outra em plano obliquo,  ambas ao lado de uma moto “Halley Davidson” que tinha tirado recente, no parque do Anhembi, em uma Exposição de motos em São Paulo. A Priscylla, pra sua surpresa, parece que gostou do seu visual de bancário e sedentário. Enviou-lhe também algumas fotos suas, onde aparecia montada em um cavalo manga-larga, num haras, usando um traje de competição, com botas longas e rebenque na mão. Em outras aparecia de “fio dental” ”pegando” uma cor na praia de Ipanema. Linda gata! – pensou o Aristóbullus. Não posso perder essa oportunidade de encontrar a minha cara-metade que vai me salvar das noite de solidão e insônia. Um mês depois,  marcaram para se encontrar finalmente. O Aristóbullus tirou suas férias e voou de ponte aérea  para o Rio, de encontro aquela que seria a mulher de sua vida, a primeira e única! Do aeroporto seguiram para o Savoy Hotel em Copacacabana, onde havia feito reserva num apartamento pra casal. --Não vamos ficar aqui por enquanto – disse Aristóbullus. Só deixamos nossas malas e vamos ao restaurante comemorar esse encontro que começou virtual e hoje passou a ser presencial!

--Ok Aristó, você é quem manda! – Sussurou a Pri na orelha do Aristóbullus, que sentiu um arrepio!

   Desceram até o restaurante, pediram um champanhe francês, “scargot”, caviar, etc... Brindaram aquele encontro que começava e tinha tudo pra dar certo.

   Depois de alguns taças do champanhe, a Pri fez uma cara de preocupada, dizendo ao apaixonado Aristóbullus:

-- Aristó, eu preciso lhe contar um pequeno detalhe. Ouça-me, quero que fique bem a vontade para se decidir depois de ouvir esse meu segredo. Você tem sido um cavalheiro comigo. Acho que até gosta mesmo de mim. Por isso sinto-me na obrigação de revelar-lhe que sou um caso raro de intersexo, ou seja, apesar dessa aparência toda feminina, nasci com meus órgãos genitais internos femininos e os externos masculinos. Tenho vagina, útero, trompas e ovários, mas também tenho bolsa escrotal, testículos e pênis. Os órgãos femininos são perfeitos, ou seja, de função e volumes normais. Já os masculinos são menores que o normal, quase atróficos. O meu pênis, por exemplo, em estado de ereção chega a medir 12 cm, quando o normal atinge 15, 18, 20 ou até mais. Mas, sou consciente desse meu problema, já consultei vários especialistas, sendo que essa anomalia é considerada rara, pois ocorre 1 caso entre  100.000 nascimentos. Já realizei todos os exames, decidi por fazer a cirurgia de correção, extirpando os órgãos masculinos que são menores e mantendo os femininos. Aí então serei uma mulher absoluta! A cirurgia será daqui a uma semana. Já fiz todos os exames pré-operatórios. Apenas transferi a cirurgia para poder encontá-lo. Mas antes, eu precisava contar-lhe toda a verdade sobre essa minha situação sexual.

    O Aristóbullus permanecia mudo e perplexo! Nervoso, já tinha sorvido quase toda a garrafa de champanhe. Disse apenas:

--Pri, vamos pedir o jantar, dormir, e amanhã voltaremos ao assunto. Gosto de você Pri, e apenas quero dizer-lhe que não tenho nenhum preconceito pelo intersexo que você possui e acaba de me revelar.

    Foram para o quarto, e a vigília do amor foi inevitável. No dia seguinte, após o café da manhã, sem muitos arrodeios, o Aristóbullus ficou ruborizado e disse:

--Pri, pensei muito no seu caso e cheguei a conclusão de que, para o nosso bem, você deveria era cancelar definitivamente essa cirurgia!...

--Ok Aristó, é como eu sempre digo, gosto não se discute...O importante é vê-lo feliz!
    Casaram-se naquele mesmo mês, aproveitando as férias do Aristóbullus. A Pri com certeza absoluta era a mulher com quem ele sempre sonhara!...


                                                                     PVH-RO, 04/07/13

terça-feira, 2 de julho de 2013

ENTRE A CRUZ E O SABRE


Samuel Castiel Jr.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

    Filho legítimo de beata paraibana, coroinha da igreja e acostumado com as novenas em sua casa toda primeira segunda-feira do mês, onde sua mãe juntamente com outras amigas beatas, costumavam “puxar” o terço, Apollônio não relutou quando foi matriculado no seminário da Ordem Franciscana, em cidade interiorana da Paraíba! Não era bem isso que queria mas, afinal, era o desejo de sua mãe! O que mais o incomodou foi ter que deixar pra trás a namoradinha de quem já começava a gostar! Quando depois de alguns meses soube que ela já estava “ficando” com um de seus melhores amigos, chegou a adoecer! Não quis mais comer, praticar esportes nem pensar! Desde essa época, fez um juramento que jamais viria a gostar de qualquer outra mulher! Pelo contrário, seria um homem frio, até mesmo porque estava a caminho do celibato!...Os padres chegaram até a encaminhá-lo para o ambulatório médico, onde fez exame de sangue, fezes e urina, sem ter nenhum diagnóstico orgânico para aquela sua apatia! Tinha que ser mesmo coisa da mente! Mas, como sempre o tempo tudo acomoda, o Apollônio voltou a sorrir! Nos anos seguintes, com novos seminaristas chegando, o Apollônio foi entrando na rotina do seminário: assistia missa bem cedo, as 6:00h da manhã, as aulas de teologia começavam as 7:30 se prolongavam até as 17:00h, com intervalo para o almoço. Depois da última aula praticava esporte até as 18:30, tomava banho, jantava, outra missa noturna, a leitura do breviário e cama! Aguentou ainda dois anos! Abandonou o seminário como entrou, ou seja, sem sentir nem deixar saudades! Sua mãe chorou mas acabou tendo que se conformar: eram os designos de Deus! Melhor sair antes de ser padre do que depois ter que largar a batina por causa de uma perua qualquer!...

      Apollônio começou então a cultuar seu próprio corpo! Entrou para a Academia, “puxou” ferro e tomou muita “bomba”!Acabou ficando bombadão! Trabalhar nem pensar! Vivia de limitada mesada que sua pobre e beata mãe lhe dava! Terminou o segundo grau na “marra”, arrastando-se que nem cobra! Mas gostava de vestir-se bem, com grifes das melhores marcas. Só tinha amigos da classe media alta. Procurava namorar com as “patricinhas”, filhinhas de papai, desfrutando assim de mordomias, mimos e confortos! Especializou-se nessas conquistas e se transformou num verdadeiro “caça-dotes”. Foi assim que conheceu a patricinha Takiki Mamimandu Sabre, uma nissei legítima, filha do samurai Furubuchi Sabre e sua esposa, ex-gueixa em Tóquio,Fuchichiko Ikuta Sabre. A família de grandes posses, podia ser classificada como classe média alta, ou classe A, como queiram! Era tudo que o Apollônio desejava! A Nissei era quase perfeita, e chegava até ser atraente, com pernas grossas e um corpinho sarado, como uma orquídea desabrochando, nos seus primaveris 15 aninhos!...Ela também freqüentava a Academia, e foi lá que se conheceram. Alguns meses andaram “ficando”, mas Takiki queria uma relação mais séria! Apresentou Apollônio a seus pais. E, como filha única, gozava de todos os mimos e afagos! O samurai Furubuchi não gostou muito da cara do Apollônio! Era bem mais velho que a Takiki, já com 26 primaveras no lombo! Mas, fazer o quê? Sua esposa Fuchichiko sempre o advertia, que a coisa é pior quando se proíbe o namoro entre os jovens. Vira “birra”! Aí é que o” bicho pega, né?!”...Por ele, samurai e acostumado com as tradições japonesas de seus ancestrais, jamais teria consentido aquele namoro! Como samurai, lutou em varias frentes na defesa de sua cidade lá no Japão, quando invadida por mercenários e matadores de focas e baleias! Era um homem exótico, praticante de artes marciais, tendo conquistado vários Dans até chegar a faixa-preta de Judô, Jiu-Jitse, Takendô, esgrima e lutas com sabre. Também era ninja! Tinha um temperamento forte e esses esportes o ajudavam a manter o equilíbrio!

     Alguns meses depois de aceito o namoro, num descuido de Takiki, aconteceu a indesejável gravidez! Foi aí que a coisa começou a dar errado para o Apollônio! Não queria deixar aquela vida, no bem-bom, com seu boi na sombra, como costumava dizer! Mas casar mesmo, de papel passado, queria não! Ia perder sua liberdade, seus amigos do futebol, do botequim, as paqueras e as conquistas nas quais tinha se especializado! Como poderia perder tudo isso pra ficar com a japinha, tendo hora pra sair, pra chegar, tendo que dar mamadeira para o bebê madrugada a dentro! Essa não! Não iria resistir! Tinha plena convicção! Primeiro falou para a Takiki que o casamento nem passava pela sua cabeça! Ela se decepcionou, se deprimiu! Quando a conversa chegou para sua mãe Fuchichiko, a coisa piorou ainda mais para o Apollônio. Pediu então que não falasse ainda para seu pai.

-- Sabe como o seu pai é! Não vai aceitar! Pode ficar violento. Tenho medo que perca o controle!

    Quando perdia o controle e ficava violento, ninguém conseguia dominá-lo. Ainda mais com aqueles sabres!...Quebrava tudo que via pela frente, seus olhos ficavam injetados, vermelhos, pareciam que iam saltar das órbitas, cuspindo chispas de fogo! Tinha que tomar sedativos durante vários dias para voltar ao normal.

    Apollônio tinha medo dele! Mas não podia esperar mais! A barriga da moça crescendo... Resolveu enfrentar a fera!

-- Seu Furubuchi, quero falar-lhe sobre sua filha. Ela está gávida! Nós não queríamos, mas aconteceu!

   Os olhos do samurai Furubuchi chisparam, seus dentes rangiram!

--Que estória é essa rapaz? Você enlouqueceu?

--Calma Seu Furubuchi! Nada que não se possa resolver! Podemos providenciar para que ela se livre dessa gravidez!

   Agora não foram só o olhos do samurai que chisparam! Pegou um de seus muitos sabres que decoravam as paredes do seu escritório, cheio também de espadas e armaduras medievais, e investiu contra o Apollônio.

--Vagabundo, né?! Pensando que filha minha ser vagal qualquer, né?! Vou mostrar pra você como samurai decapita vagabundo tarado como você!

    Com gritos de ataque nas lutas marciais, uma perna na frente e outra pra trás, ambas semi-fletidas para manter o equilíbrio, levantou o sabre com ambas as mãos e  cortou ao meio a mesinha de centro! O segundo golpe passou raspando o pescoço do Apollônio que pulou de banda e procurou abrigo atrás da poltrona, tirando antes um grande crucifixo em bronze da parede, agarrando-se a cruz, implorou:

--Arr Maria Maínha, pelo sangue do Menino Jesus, salvai-me desse samurai!

   Nisso, ouvindo os gritos de ataque do japonês, sua secretária abre a porta e entra correndo na sala, deparando-se com aquela cena! Agarra-se ao japonês:

--Pelo amor de Deus não faça isso Sr. Furubuchi!

   Apollônio aproveitando-se da oportunidade e da porta aberta, “vaza” descendo aos saltos pela escada abaixo, em desabalada carreira! No dia seguinte, o Diretor Geral do Seminário Franciscano (SF) recebe o ex-aluno Apollônio pedindo por tudo que lhe fosse mais sagrado, que reconsiderasse o seu abandono a instituição, e o aceitasse de volta ao seminário. Além de cansado e arrependido da vida mundana, tinha tido uma visão sinistra e aterradora, onde um samurai enloquecido queria decapita-lo, colocando-o entre a Cruz e o Sabre! Mas ele Apollônio, é claro,tinha optado pela Cruz!

Um ano depois foi ordenado o padre Apollônio!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                           PVH-RO, 28/06/13