quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O SAMBISTA MISTERIOSO

O MISTERIOSO SAMBISTA

Samuel Castiel Jr.










      Leutério estava impecavelmente vestido. Antes de sair, completou seu traje habitual colocando aquele chapéu-coco branco que sempre estava pendurado no cabide atras da porta. Era uma sexta-feira, 13, e seu destino era uma roda de samba e pagode, que estava na moda na zona leste de Porto Velho. Precisava pegar um taxi. Mas ali, nas proximidades do cais do porto, aquela hora da noite, seria difícil passar qualquer taxi. Teria que andar a pé alguns quarteirões. Apesar da lua cheia que clareava o chão, não queria nem poderia suar, estragando seu perfume e molhando sua camisa de seda de marca Dudalina, impecavelmente passada. Seu sapato bicolor preto-e-branco também não poderia ser sujo de poeira ou lama. Enfim, chegando na roda-de-samba, Leutério foi logo se destacando pelo samba habilidoso e ligeiro que trazia nos pés. Ninguém por ali o conhecia. Alguns chegaram a comentar que seria um sambista famoso de uma escola de samba do Rio de Janeiro. Dançava como ninguém! Logo se formou uma roda em sua volta, e Leutério escolhia e tirava pra sambar a garota que quisesse. Quase todas se apaixonavam a primeira vista pelo malandro. Fumando um charuto cubano, soltando grandes baforadas, o sambista aproveitava o intervalo das musicas para bebericar fartos goles de tequila. Mas, o que todos ficavam ainda mais intrigados é que ele não não ficava embriagado nem tonto sequer, e dançava cada vez melhor. As vezes fazia passos e reverências que lembravam um verdadeiro mestre-sala, de uma grande escola do Rio.
      Gertrudes era uma negra, de 17 anos, com pernas torneadas e bumbum arrebitado. A noite toda foi uma das principais parceiras do malandro Leutério. Passos e firulas incríveis saiam dos seus pés , arrancando aplausos da galera sambista.
Alguém chegou até a comentar que o sambista Leutério teria sido aluno do Carlinho de Jesus no Rio, pois o seu chepéu-coco branco jamais caia de sua cabeça, sempre enfiado até a altura do nariz, não deixava boa visão de seu rosto. Mesmo quando fazia os passsos e firulas mais mirabolantes, seu chapéu permanecia imóvel.
As horas foram se passando e o sambista enigmático sambando com maestria, cada vez melhor. Indiscutivelmente, Gertrudes estava caidinha pelo sambista. A lua já estava bem alta mas seu clarão ainda iluminava o terreiro do samba, quando Leutério convidou sua parceira Gertrudes para dar uma volta, pegar um ar num cantinho mais reservado que ele conhecia muito bem, próximo ao rio… Sem titubear, Gertrudes aceitou o convite do sambista. Despediu-se de suas amigas dando uma desculpa esfarrapada qualquer e foi-se na noite, andando graciosa como se estivesse a sambar, pendurada nos braços do passista. Ao chegar próximo ao rio, os dois enveredaram por uma viela tortuosa, muito deserta aquela hora. Chegaram enfim ao barraco tosco do sambista. No seu quarto, uma vela iluminava um ambiente singelo, que os olhos não conseguiam distinguir quase nada mais que uma cama, forrada com lençol branco. Era o suficiente para os sambistas se amarem, agora num compasso mais lento e cadenciado, porém que foi ficando frenético. Quando Leutério passou sua mão nas coxas da sambista, ela quis beijá-lo, porém foi suavemente desestimulada, com o Leutério virando seu rosto. Gertrudes ficou ainda mais intrigada quando o sambista levantou-se e soprou a única vela que iluminava o ambiente:
- Não sei fazer amor no claro! – disse o sambista.
Até então ela não tinha se dado conta que o sambista ainda continuava com o chapéu-coco enfiado em sua cabeça.
Quando os primeiros raios de sol prenunciaram o novo dia, Gertrudes abriu seus olhos e, incrédula, viu o sambista ainda dormindo profundamente. Levemente levantou seu chapéu-coco branco e ficou estarrecida com o que viu: havia um buraco na calota craniana do sambista. Pensou em acordá-lo mas preferiu sair rapidamente dali. Quando contou para uma amiga e confidente, as duas resolveram voltar aquele lugar para conversar com o sambista. Afinal, aquele buraco em sua cabeça poderia ser a sequela de alguma cirurgia, algum acidente e que ele trazia escondido. Ao chegarem ao local, ali não havia nenhum barraco, nenhuma casa, nenhum sambista.
---Gertrudes, amiga, é doloroso mas agora tenho duas coisas a lhe dizer: primeiro - faça o teste de gravidez; segundo – tenho a certeza absoluta que você foi mais uma vítima do boto negro do Amazonas.

PVH-RO., 17/10/16

sábado, 16 de janeiro de 2016

REFLEXÕES NOTURNAS II

Samuel Castiel Jr.

















    Choveu forte. Depois ficou aquela chuva fina, caindo indefinidamente. A noite ficou úmida. Uma goteira pingando sôbre um toldo, marcava o tempo como um relógio marca os segundos. Sozinho, escuto o tempo passar nessa marcação ritmica, levado por uma cruel e implacável insônia. Ao fundo uma rã estridente completa o holocausto da solidão perplexa e inexplicável da minha inquietude íntima. Os pensamentos fragmentados vão tomando forma e gritam em buscas de respostas que não chegam. Quem eu sou? De onde vim e pra onde vou? Se é difícil nascer, mas difícil ainda é sobreviver. Para onde caminha a humanidade? Ao mesmo tempo que mentes brilhantes impulsionam nossos conhecimentos, que a ciência atinge níveis antes inconcebíveis, parece que o homem se torna mais vil e corrupto, mais arrogante e soberbo. E tirando partido dessa fragilidade humana, líderes religiosos pregam a salvação eterna da alma, garantindo-lhes um pedaço do céu. Já é muito tarde, não exito em buscar meu antideprressivo e indutor do sono. A chuva parou, mas ainda ouço a goteira pingando sôbre o velho toldo, marcando cada segundo como um implacável relógio. Agora o coaxar da rã chega como uma orquestra rasgando a noite úmida, a minha mente e minh'alma. O novo dia está pra nascer. Quero ver um sol brilhante, sentir muito calor. Não quero mais essa chuva nem essas nuvens escuras. Acho que o antidepressivo começou a fazer efeito. Decepcionado com minhas elucubrações sem respostas, fecho a minha janela e volto pra cama. Apago a luz.

PVH-RO, 15/01/16



terça-feira, 20 de outubro de 2015

PÂNICO DO ELEFANTE

Pânico do Elefante
Samuel Castiel Jr.







     Na savana africana, mais propriamente na savana do Serengeti, a manada de elefantes caminha exausta sob o sol inclemente. Nuvens de areia começam a soprar fustigando ainda mais aqueles animais. Eles precisam encontrar desesperadamente uma fonte de água para saciar sua sede, antes que anoiteça. Entre eles um elefantinho de apenas dois meses caminha no meio do bando, pois havia perdido sua mãe, morta por um caçador. Finalmente encontram uma pequena poça d'agua. Imediatamente começam a sugar aquela água com suas trombas vorazes. A tempestade de areia sopra cada vez mais forte e os elefantes sabem que precisam sair imediatamente dali pois é imperioso encontrar o abrigo de alguma duna para amenizar aquela tempestade. O pequeno elefante havia entrado na poça d'agua e não conseguia sair pois as suas pernas ainda eram curtas e deslizavam nas bordas da barranca. Ali começava seu pânico pois viu a manada afastar-se rapidamente, deixando-o para trás. Depois de várias tentativas infrutíferas, finalmente ele consegue sair da poça. Acontece que a manada já sumira no horizonte e tudo que conseguia ver era a poeira de areia que fustigava seu corpo e seus olhos. Atônito e desorientado volta para as proximidades da poça d'agua e tenta se abrigar atrás de um arbusto ali existente. Os últimos raios de sol ainda estavam presentes quando se aproximou da poça  d'agua outra manada de elefantes sedentos para amenizar a sede. O filhote viu suas esperanças renovadas. Começou a se infiltrar no meio daquela manada, porém sua recepção não foi como imaginara. Foi rechaçado pelas fêmeas, uma atitude que não é habitual entre os elefantes. As tias costumam ser carinhosas, às vezes até adotam filhotes que, por qualquer motivo, ficam órfãos. Quando os elefantes deixaram a poça d'água, o filhote os acompanhou, mesmo sendo rechaçado por machos e fêmeas. À noite chegara e, finalmente, a tempestade de areia perdeu força. A manada agora se posicionara para passar a noite. No céu algumas estrelas já despontavam e a temperatura começava a cair rapidamente. O pequeno elefante, atônito, passava entre as grandes pernas, sendo rechaçado pelos machos e também por algumas fêmeas, comportamento atípico entre os elefantes, mas que infelizmente estava acontecendo aquele filhote. As fêmeas geralmente são solidárias a filhotes que ficam órfãos e acabam os incorporado a manada. Mas neste caso isso não acontecia. À noite chegou e uma escuridão intensa se abateu sobre o deserto. O frio também chegou. O pobre filhote continuava desorientado circulando entre aquelas pernas e patas gigantes. De repente um frio diferente e pavoroso percorreu o seu pequeno corpo: o esturro de um leão fez o chão tremer. Seu DNA continha informações genéticas que lhe diziam do perigo em potencial. Seu fim trágico poderia estar próximo. Seu pequeno corpo tremia de frio e pavor. Os leões famintos estavam rondando a manada, matando, estraçalhando e disputando suas presas. Foram horas de terror. A cada esturro seu tremor crescia, como se fosse uma crise convulsiva. Algumas fêmeas rechaçavam-no com suas trombas como se fosse um intruso a manada. Sabia que seu fim estava próximo. Sabia também que caso saísse da formação da manada seria imediatamente morto e devorado. Muitas vezes os leões famintos não respeitam nem as manadas de elefantes e tentam matar seus filhotes, principalmente quando percebem neles alguma inferioridade biológica ou deficiência física. Desesperado, em pânico e cheio de pavor, o pobre filhote avistou um par de olhos que olhavam fixos para ele como se fossem pequenos faróis na escuridão. A manada toda se agitou quando mais um esturro fez tremer o solo, agora bem perto, como se já estivesse no meio da manada. O pobre filhote sentiu um tremor e intenso arrepio, deixando escapar um forte jato de urina. Foi nesse exato momento que o maior de todos eles, um colossal animal, certamente o líder do bando, soltou um rugido furioso e selvagem, partindo para o ataque e seguido dos outros machos do bando. Os leões amedrontados pelos elefantes furiosos, rugindo, puseram-se em debandada, desaparecendo  na escuridão. No horizonte uma pequena fímbria vermelha começou a despontar. Começava a nascer um novo dia! A manada pôs-se então em marcha, lentamente, pois logo mais a temperatura começaria a subir novamente e precisariam encontrar alimento, novas poças d'agua para beber e se refrescar. O filhote caminhava ainda trôpego mas sentindo-se agora salvo, protegido e adotado por sua nova família.


PVH-RO, 19/10/15

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O POETA AMIGO “ CHAGOSO”







Leal Amigo, talentoso

Pai e avô dedicado,

Poeta sutil o “Chagoso”!



Pai d'arte do “Munduri”



Sua letra absorve e encanta…

Com estilo inconfundível

Poeta sutil o “Chagoso”!


PVH-RO., 20/08/2015


Nota do Autor: Ao dileto amigo, escritor e poeta Francisco Chagas da Silva, gente de primeiríssima grandeza, pela passagem de seu aniversário em 17/8/2015. Ao criador do estilo poético “Munduri”, esta singela homenagem do Samuel Castiel Jr.