sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

SALA DE ESPERA
Samuel Castiel Jr.




 
    

     Ninguém gosta de esperar. Mas esperar na sala de médico ainda é pior. Talvez se equipare a sala de dentista quando você fica ouvindo aquela broca comendo solta. Mesmo sabendo que a anestesia evita a dor, aquele ruído de alta rotação parece que tem a propriedade de queimar os nervos!
    Fazendo essas conjecturas e comparações, totalmente absorto com meus pensamentos, encontrava-me na sala de espera do proctologista para o exame anual do novembro azul. Foi quando a batida em minha costa tirou-me dos meus pensamentos. Era o Jurandir, um velho amigo da época ginasial.
--Ei rapaz! Quanto tempo! Vais fazer também?...--e mostrou-me o dedo médio em riste.
--Não, quer dizer, vim só pra uma consulta de rotina.
--Já sei!  --exclamou triunfal o Jurandir! Estás com Hemorroida, não é? Dizem que esse médico  é muito bom!
    Parecia que o Jurandir se deliciava com o meu desconforto.
--Não Jura, não é hemorroida não!
    Ele não me deixava falar:
--Já sei então: é só fissura anal.
    Não tive mais dúvidas que o Jura queria mesmo era infernizar minha vida. Sabia que todos os pacientes daquela sala estavam se esforçando para segurar o riso. Ele falava alto, gesticulava,  não dava tempo pra defesa!
--Tive um amigo que sofreu muito de fissura anal e depois de hemorroida. Dizem que pode virar câncer...
--Calma Jurandir, não tenho nada disso! É só uma consulta de rotina.
--Eu sei, eu sei. Ninguém assume que tem hemorroida. Mas quando começa sangrar meu caro, não tem mais jeito, só o bisturi.
    O Jurandir continuou a falar até que a porta do médico se abriu e, sorrindo, o médico apareceu. Vestia um jaleco branco e meus olhos logo buscaram  suas mãos: eram enormes! Um frio correu minha espinha dorsal. Dirigiu-se a todos:
--Quem está na vez?
    Todos se entreolharam mas todos sabiam que a vez era minha.
--Pode ir Jurandir --disse-lhe eu apressado.
--De jeito nenhum! Você chegou primeiro, a vez é sua!
--Vocês vão ficar discutindo até quando? --falou o médico. Não posso ficar esperando. A recepção está cheia.
    Finalmente o Jurandir decidiu-se a entrar na minha vez. Mas antes que a porta se fechasse ainda fez um comentário em voz alta como sempre:
--Não fique nervoso Valfrido, esse medico é muito jeitoso!...
    A vontade que eu tinha naquele momento era uma mistura de vergonha e desejo de esganar o inconveniente Jurandir. Precisava fazer ou dizer alguma coisa.
--É isso aí gente! O Jurandir sempre foi assim, muito brincalhão, extrovertido!...
    Quando o médico novamente abriu a porta e anunciou:
--O próximo por favor!
    Houve um silêncio que foi quebrado pela voz do próprio Jurandir que vinha lá de dentro ainda arrumando a roupa e fechando o cinto:
--Agora é você Valfrido, não tem escapatória!
    Como não viu mais o amigo no recinto, comentou com o médico e com os demais pacientes:
--Eu sabia, doutor! Esse cara sempre foi um frouxo! Vai ver que fugiu com medo do seu dedo!...
Mas tinha me garantido que era apenas uma fissura anal...
--Próximo --chamou o médico.

PVH-RO., 13/01/17

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O ÚLTIMO NATAL

O ÚLTIMO NATAL
Samuel Castiel Jr.















         

               A cidade estava toda iluminada com lâmpadas coloridas. O clima de festa estava presente em cada rosto. Os bares cheios de homens vazios ou não. Nas ruas se viam as figuras extravagantes do Papai Noel fazendo parte da decoração. Os “shoppings” lotados de retardatários na busca de presentes.
          Apesar da chuva fina que caía, Antenor caminhava parcialmente molhado, coberto apenas por aquela manta velha quase toda furada, e que também lhe servia de cobertor  para protegê-lo nas noites de frio. O cabelo desalinhado, esbranquiçado  e a barba grande não permitiam reconhece-lo facilmente. Suas vestes sujas e surradas completavam o perfil de um morador de rua. Quando saltou na rodoviária  e tentou pedir informação sobre como chegar ao  bairro da Consolação, percebeu que muitas pessoas dele de esquivavam, julgando-o um pedinte inoportuno. Estava cansado e com fome. Continuou  a caminhar. Seu destino era ver, nem que fosse de longe, sua antiga casa que deixara a mais de vinte anos, quando fora dado como morto numa pescaria cujo barco afundou. Fora arrastado pelas aguas da cachoeira, bateu com a cabeça nas pedras mas conseguiu agarrar-se nos galhos e  chegou até a margem do rio. Quando acordou embrenhou-se na mata pensando que estava indo no caminho certo, porém se perdeu e ficou andando em círculo até que desmaiou e, ao acordar, ficou meditando sobre o que ocorrera: estava longe do local onde seu barco afundara. A força das aguas na cachoeira, as pedras, seu desaparecimento... Tudo levava a crer que ele teria sido dado como morto. Foi aí que uma ideia começou a se formar em  sua cabeça. Estava numa situação financeira péssima. Devia um valor impagável. Mesmo que vendesse tudo que tinha, não conseguiria quitar suas dívidas. A vergonha que teria de enfrentar perante a sua família. Pensou durante todo o dia e chegou a seguinte conclusão. Aquele seguro de vida que fizera, com sua morte,  seria suficiente para sua mulher e seus filhos sobreviverem. Com essa ideia martelando sua cabeça, decidiu-se: nunca mais voltaria para sua casa. Seria melhor continuar dado como morto. Caminhou  pela mata até  uma estrada onde pegou uma carona para chegar  numa cidadezinha no interior de Minas. Ficou ali morando nas ruas, alimentando-se com o que lhe davam das sobras dos restaurantes.  Aos poucos conseguiu sair das ruas, veio o emprego, foi melhorando progressivamente.  Os anos foram se passando e ele já estava se sentindo estabilizado novamente, quando naquele dia por um acaso ouviu aqueles homens da polícia conversando com o proprietário da empresa:
----Temos certeza que se trata da mesma pessoa. Aqui temos algumas fotos. Toda nossa investigação aponta que é essa pessoa e que está trabalhando na sua empresa.
              Não teve tempo de mais nada. Saiu apressado pela porta dos fundos e deixou tudo para trás. Perambulou pela cidade e foi se mudando primeiramente de endereços e depois de cidades. Dormia em pousadas, porém quando seu dinheiro acabou foi forçado a ficar pelas ruas. Voltou a se alimentar com as sobras de restaurantes. Pedia esmolas nos semáforos. Ouvia muitos impropérios:
---Vai trabalhar vagabundo!
---Não tem vergonha marmanjo! Vai procurar emprego!
             Mais de 20 anos se passaram, não queria mais aquela vida de fugitivo. A saudade de sua família era insuportável. Foi quando então que começou pensar em voltar. Não para ficar, mas queria pelo menos ver sua família de longe. Sua mulher Verônica, seus dois filhos Valter  e Luiz que deixara tão pequenos.  Esses meninos já deveriam ser homens...
              Continuava a caminhar por aquele bairro nas ruas que tanto conhecia. Ao longe avistou seu antigo lar. Era noite e havia pouca iluminação naquele local, o que lhe permitiu maior aproximação. A casa estava toda iluminada. Muitas pessoas reunidas. Aproximou-se ainda mais. Ouviu a música que vinha lá de dentro: Noite Feliz. Aproximou-se o mais que pode, escondido pelo muro e pelas grades. Lá estavam dois rapazes que reconheceu como seus filhos. Lá estava também Verônica, um pouco mais envelhecida, porém ainda linda aos seus olhos. Havia porém um homem ao seu lado com seus braços passados por sua cintura. Sentiu um frio percorrer e invadir seu corpo. Tinha certeza que aquele era o novo marido de sua amada Verônica. E o pior é que nada podia ser feito. Tida como viúva, tinha o direito de casar-se outra vez. Quando estava perdido em seus pensamentos, ouviu aquela voz forte bem perto de si:
--- Você aí! O que está fazendo olhando pra nossa casa? Se não disser quem é você vou chamar a polícia.
     Era o Luiz, seu filho mais velho.
--- Calma meu bom jovem! Só estou assistindo a festa de vocês. Também já tive uma família...
--- Está bem, se for assim vou mandar preparar um prato com as comidas da nossa ceia de Natal. Volto já.
--- Não, não se preocupe, já estou indo embora.
--- Agora sou eu que quero e insisto que fique! Não demora nada e nada tem a perder.
      Saiu quase correndo e não demorou a voltar com um prato repleto de comidas típicas do Natal.
---Onde está você? Pedi que ficasse! Aqui está o que lhe prometi.
     Não havia mais ninguém naquele local.
      A rua deserta foi iluminada por fogos de artifício explodindo no ar. Era meia noite! Luiz então com o prato de comida na mão, voltou para dentro de casa e sua mãe perguntou-lhe:
---O que faz você com esse prato na mão?
---Fui levar comida a um mendigo que olhava lá de fora para nossa festa. Mas ele se foi antes que eu voltasse. Pareceu-me uma pessoa estranha, mas  do bem. Disse-me que só queria olhar a nossa festa pois também já tinha tido uma família  que se perdeu no passado.
---Você e seu coração mole! Largue esse prato e venha abraçar sua mãe. O Menino  Jesus acaba de nascer!
     A chuva ficara mais grossa, mas Antenor caminhava pelas ruas e suas lágrimas misturavam-se com os pingos da chuva. Ele sabia que tinha perdido tudo irremediavelmente,  inclusive sua  família por quem dera tudo, sua própria identidade. Nada mais lhe restara! Ouviu então bem longe  o sino de uma igreja chamando para a missa da meia noite. Era a missa do galo. Dirigiu-se para lá, lentamente. Ao chegar, o padre fazia o sermão, que falava do espírito de salvação com o nascimento de Cristo, que veio ao mundo para salvar o homem de seus pecados. Ficou ali como se estivesse hipnotizado. Seu corpo ardia com febre. Estava molhado, cansado e com fome mas nada sentia. Sentou-se em uma cadeira bem no fundo da igreja, num cantinho bem isolado. Aos poucos seu corpo foi sendo invadido por uma sensação de êxtase e sentiu-se como se estivesse flutuando no ar. Como num sonho,  o Menino Jesus o  chamava e mostrava-lhe o caminho que deveria seguir.
                Ao amanhecer, o padre foi acordado bem cedo pelo sacristão que o chamava insistentemente, pois havia um homem morto, sentado no fundo da igreja e, pelos trajes,  parecia ser um mendigo.


PVH-RO., 23/12/16

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A DUPLA EMBOSCADA



Samuel Castiel Jr
        




            Ele estava postado sobre aquela pedra desde bem cedo, quando o orvalho caído durante toda  a noite deixara sua superfície úmida e escorregadia. O sol subia rapidamente no nascente e ele começava a sentir sua pele ficar suada, pegajosa. O rifle pendurado em sua costa e o chapéu de palha de abas largas completavam a figura sinistra de um matador. Tinha tudo planejado nos mínimos detalhes. Desde o dia que foi procurado por aquele desconhecido e lhe foi passada uma foto da vítima. Não tinha e nem queria saber dos dados pessoais do encomendado tais como nome, idade, estado civil, se tinha família e filhos. Nada disso lhe importava, não  lhe seriam úteis. Queria apenas o trajeto que aquele infeliz percorria de sua casa até seu trabalho, na garimpagem de pedras preciosas num igarapé bem escondido e camuflado no meio da selva densa. Muitos chamavam de trabalho sujo mas... era o que ele sabia fazer! Executava e recebia muito bem pelo seu trabalho. Pedia sempre adiantado a metade do pagamento e depois da execução recebia o restante. Dessa vez tentou saber sutilmente quem encomendara o serviço mas foi imediatamente desestimulado:
-- Olha aqui cara: você aceita ou não aceita o serviço? É pegar ou largar!... Nada de ficar fuçando com conversa “mole”. O Chefão não iria gostar nada de saber que você andou insinuando e fazendo perguntas.
-- Ok, Ok. Não está mais aqui quem perguntou!...
     Mas depois, com o passar dos dias, ficou matutando ainda por algum tempo sobre aquele homem que o contratara. Tinha os olhos da morte, frios e iguais aos seus.
       Aquele local fora escolhido minunciosamente por ele. Um local perfeito para uma emboscada. Ficava num desfiladeiro, numa escarpa de enormes  rochas escondidas pela mata e que pareciam amarradas por inúmeros cipós que passavam por cima dessas pedras como tentáculos de um invisível e gigantesco polvo. A uns setenta metros de altura, escolhera ficar de tocaia naquele ponto. De lá tinha uma visão perfeita da estrada lá embaixo. Adaptara uma luneta a seu rifle winchester para tornar sua pontaria mais precisa, fatal. Sabia que não poderia dar mais que um tiro. Sabia também que um segundo disparo seria bem mais difícil acertar o alvo, pois perderia o fator surpresa; o susto da montaria faria o animal disparar tornando sua pontaria falha mesmo com o auxílio da luneta.
         O silêncio era quase total não fosse quebrado vez por outra pelo piado da inambu distante chamando seu companheiro. Sabia que deveria ficar praticamente imóvel, pois alguns pássaros e macacos costumam avisar aos outros animais da presença de perigo ou intrusos no seu habitat. Sem dúvida alguma ele era um profissional competente ---pensava. Sua folha corrida mostrava isso. Perdera a conta de quantas almas já tinha despachado para o inferno.
          Com um binóculo olhava insistente e nervosamente para aquela curva da estrada de chão batido. Era por ali que sua vítima deveria aparecer e caminhar para a morte. A temperatura subia e o calor ficava cada vez mais intenso. Nenhuma corrente de ar soprava, nenhuma folha nas arvores se mexia. De repente, montado em seu cavalo surge na curva da estrada a sua vítima. Parecia despreocupado, com um cigarro de palha na boca, trotando em sua montaria. Posicionou-se então com o corpo deitado sobre a pedra coberta de musgo. Esperou. Prendeu a respiração já com o dedo no gatilho. Atirou. O estampido forte ecoou na mata e reverberou nas rochas.  Pássaros assustados voaram em polvorosa.  A vítima caiu ao solo fulminada pelo tiro certeiro que transfixou seu peito. Sua montaria disparou em desenfreado galope. Satisfeito consigo mesmo, o atirador levantou-se para começar a descer a escarpa pedregosa, pois ele próprio precisava constatar a morte irreversível daquele infeliz. Mal ficara de pé e outro tiro ecoou, desta vez bem próximo  ele, vindo de uma rocha um pouco acima dele. Só deu tempo de ver um rastro de fogo que o atingiu perfurando  seu peito. Olhando para cima, antes de fechar seus olhos para sempre, ainda viu aquele perfil e aquele olhar frio da morte, iguais aos seus, que tanto o impressionaram. Caiu e deslizou no lodo das pedras para o abismo da escarpa rochosa.


PVH-RO., 14/12/16

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

CARNE ESTRAGADA ou AS CURVAS-DE-RIO

           CARNE ESTRAGADA ou ( AS CURVAS-DE-RIO )

            Samuel Castiel Jr.
 









          

              Fazia uns três meses que Osvaldo   tinha    se separado do seu quarto relacionamento.       A vida dura de bancário por opção, o excesso de  trabalho no Banco, tudo conspirava para seu insucesso   nos relacionamentos. A solidão entretanto começava  a perturbar seu juízo e a fustigar seu coração.   Foi quando conversando com os colegas de Banco, começou a se interessar por sites de relacionamento. Tentou vários tipos de mulheres, umas mais novas outras mais velhas, mas logo ia se desinteressando. Finalmente, depois de algumas tentativas, Osvaldo falando com uma velha amiga, lamentou-se da sua solidão, e logo foi convidado para um churrasco em sua casa. A princípio, ficou receoso em participar, pois não conhecia as pessoas que estariam presentes naquele churrasco. Como seria no sábado, sua amiga o colocou em contato pelo “Face” com suas amigas que estariam no churrasco do sábado. Todas lhe pareceram interessantes, porém a que mais lhe agradou foi a Silvana, uma ruiva e morena de olhos claros. Pensou, pensou e fez contato com a Silvana. Sua voz também era agradável – pensou. Disse-lhe que tinha sido convidado por sua velha amiga Shirley para o churrasco do sábado.
-- O que devo levar Sil? – perguntou-lhe Osvaldo.
--Traga cerveja, de preferência a Puro Malte, que é a cerveja de minha preferência. As meninas aqui também gostam dessa cerveja. E todas estarão aqui no próximo sábado.
            Naquele sábado  Osvaldo foi bem cedo ao supermercado, comprou duas caixas  da Puro Malte e dirigiu-se para o endereço da sua velha amiga. Tinha o pressentimento que poderia arrumar uma companheira que até poderia ser mais duradoura. A casa de sua amiga era longe, nos arredores de Porto Velho-RO. A casa ficava recuada, nos fundos do terreno. O portão estava fechado com um cadeado e o Osvaldo teve que bater palmas para que sua amiga Shirley viesse abrir. Com as cervejas nos pacotes, Osvaldo entrou e foi apresentado a todas as pessoas que estavam no recinto. Colocou a Puro Malte na Freeze e observou que havia mais quatro caixinhas no congelador. A Silvana realmente era linda – pensou.  
          Quando o churrasco já estava sendo servido, Osvaldo levantou-se para pegar uma cerveja e, ao abrir a “freeze”, observou que todas as outras cervejas, exceto as que trouxera, já tinham sido consumidas. Quando comentou com sua amiga que já só havia no “freeze” as cervejas que ele trouxera, ela lhe disse que em sua casa era mesmo assim:
--Olha aqui Osvaldo – disse-lhe a Shirley, aqui em casa é assim mesmo, todo mundo bebe muito. Daqui a pouco vamos comprar mais.
    O churrasco foi rolando, o calor aumentando, até que o Osvaldo percebeu que as amigas da Shirley e também ela usavam tornozeleiras eletrônicas. Ficou surpreso e assustado. Mas, para não criar nenhum tipo de constrangimento, ele preferiu não tocar no assunto. Aproximou-se da Silvana e ficou conversando e jogando charme pra ela, que também retribuía. Suas pernas eram grossas e Osvaldo ficava imaginando: faria qualquer sacrifício para ver e acariciar aquelas pernas, pois era uma das poucas que não usava shortinho curto e enfiado na bunda, e sim calça jeans elastano , bem colada na pele. Finalmente, trocou telefone com as meninas, despediu-se e foi saindo de mãos-dadas com a Silvana. Ia pensando: meu pressentimento estava certo. Acho que consegui uma companheira e, ainda por cima, pra ninguém botar defeito – pensava. Caminharam até o portão. Ao sair tentou ainda dar um abraço apertado na Sil, mas ela se esticou toda, ficou na ponda do dedão  do pé, apoiada  numa só perna e a outra para trás, como se fosse uma bailarina e disse:
-- Não me puxe nem mais  um milímetro Osvaldo, caso contrário o hi-fi da minha tornozeleira dispara e começa a apitar.
     Osvaldo  não  era preconceituoso mas, decepcionado entrou em seu carro e não quis mais nem olhar pra trás. Aquilo era uma “gang” ! Todas aquelas meninas eram “curvas-de-rio” como dizia sua velha mãe, ou seja, atraíam todo o lixo arrastado pelas aguas. Todas eram da pesada!... E ele, Osvaldo, não era nenhum lixo! Era melhor continuar sozinho.
         Na segunda feira durante o expediente do Banco, quando lhe perguntaram como foi seu final de semana, ele disse apenas que a carne do churrasco estava estragada.


PVH-RO., 17/11/16

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

AVENTURA NA CAVERNA

AVENTURA NA CAVERNA
Samuel Castiel Jr.






             Na terna e doce adolescência, além de correr de camisa aberta e com o  peito nu, as asas da imaginação me transportavam para bem longe. Além  de correr atrás de “papagaio”, jogar peteca e pião, já havia em mim a curiosidade pelo imponderável, pela aventura, pelas descobertas. O espírito de liderança aflorava e me fazia estar sempre cercado de colegas e amigos do mesmo bairro, vizinhos ou não. Foi assim que chegou aos meus ouvidos a notícia que aguçou minha imaginação: havia uma caverna em pleno centro da cidade de Porto Velho que se estendia desde a  Av. Farquhar passavando pelas ruas Euclides da Cunha e Norte-Sul ( hoje Av. Rogério Weber ) passava  por baixo da antiga residência oficial do governador e, até onde se sabia, chegava até a Av. Presidente Dutra. Numa extensão de mais de 400 metros, ou seja, quase meio quilômetro, isso pelo que se sabia. Havia rumores que as pessoas que teriam se aventurado a explorar essa caverna teriam penetrado em grandes salões e ouviam o barulho de carros distantes, na outra extremidade, que trafegavam na Av, Presidente Dutra. Quando  teria sido construída essa caverna? Quem a teria construído? Com que objetivo? Seria um esconderijo? Um abrigo? Uma rota de fuga?  Depois de várias noites de insônia, pensando no assunto, resolvi que poderia ser fantástico explorar essa caverna, desvendar seus segredos. Não foi difícil passar essa ideia aos amigos e colegas que sempre estavam comigo e geralmente comungavam dos meus pensamentos. Consegui rapidamente juntar um grupo de mais ou menos uns seis aventureiros. Adquirimos lanternas, compramos pilhas e cordas. Marcamos o dia e a hora. Tínhamos que começar bem cedo, pois não sabíamos quanto tempo a exploração poderia demorar. Combinamos que seria melhor nos amarrarmos pelas cinturas uns aos outros. Eu iria na frente, seguido pelos outros aventureiros. Qualquer dificuldade encontrada seria comunicada aos demais com puxões na corda e assim todos estariam sempre sabendo com que eu estaria me deparando lá na frente. Combinamos também que conforme o nível de perigo ou dificuldade que eu encontrasse, eu puxaria uma, duas, três ou mais vezes a corda. Tudo certo, tudo combinado, partimos para o interior da caverna. A escuridão era total. A altura era muito baixa, de tal forma que só podiamos adentrar de bruço, arrastando o peito no chão. Liguei minha lanterna e comecei a me arrastar pelo chão úmido, amarrado pela cintura e seguido pelos outros amigos aventureiros. O silêncio era total, mas ao ligarmos as lanternas e começarmos a nos arrastar pelo chão, esse silêncio foi quebrado por  um barulho ensurdecedor. Eram milhares de morcegos que, saindo da caverna, passavam sobre nossas cabeças. O odor ficou insuportável, misturado ao farfalhar estridente e aos voos rasantes dos morcegos.
Quando aquela nuvem negra acabou de passar sobre nós, comecei novamente a me arrastar pelo chão, penetrando cada vez mais naquele interior escuro. Senti que o ar começou a ficar rarefeito. Foquei a lanterna e, bem a minha frente, uma enorme pedra obstruía nosso caminho. Arrastei-me até ela e senti que o ar passava apenas por uma fresta entre a pedra e a parede da caverna. Usando toda a minha força, consegui empurrar a pedra cerca de meio metro, o suficiente para que eu pudesse passar esgueirando-me  pela fresta.. Uma grande sala então abriu-se a minha frente. Era um salão amplo mas que logo se afunilava novamente .Foquei as paredes do salão com minha lanterna e o que vi foram ainda alguns morcegos dependurados em um lodo esverdeado, que pareceu-me musgo. Rente as paredes havia praticamente uma outra parede formada pelas fezes dos morcegos.O odor continuava insuportável,  mas não me intimidei. Continuei penetrando na escuridão.  Parei e comecei a ouvir o longe o ruído de carros que certamente estariam trafegando na Avenida Presidente Dutra, já próximo Palácio do Governo. Foi então que o odor de repente ficou insustentável. Pensei então, pela primeira vez,  em puxar a corda amarrada na minha cintura e tentar sair daquele buraco. Foi aí que senti a primeira ferroada na minha barriga. A seguir outras e outras ferroadas na barriga, no peito e nos braços foram  me colocando em pavorosa. Mas procurei não perder a calma. Foquei minha lanterna para a frente e fiz uma varredura no local. O que vi, deixou-me ainda mais nauseado. Um bicho que me pareceu um roedor, tipo mucura estava em avançado estado de putrefação, devorado por centenas de vorazes formigões. Foi então que não mais resisti e puxei três vezes a corda amarrada na minha cintura. Sabia que aquilo desencadearia um efeito em cascada junto aos amigos aventureiros. Começaram então a me puxar, mas precisei algum tempo para deslizar de volta para a porta da caverna. Confesso que me pareceu uma eternidade me arrastar de volta, tentando manter-me o mais calmo possível. Sabia que só assim poderia sobreviver aquela situação desesperadora e de pânico. Para piorar minha situação, minha lanterna começou a ficar fraca e se apagou. As pilhas chegavam ao fim. Ouvia vozes bem longe pedindo calma que já estavam próximo a porta de saída. As ferroadas me queimavam e coçavam desesperadamente. Respirei fundo quando vi a luz no fim do túnel, mas ainda distante. Arrastei-me de costa até chegar ao salão, onde pude me virar e seguir de frente. Lá fora o sol deve estar brilhando e o ar rico em oxigênio sem esse odor fétido – pensei. Quando cheguei a saída, todos estavam desesperados e de olhos arregalados, querendo saber o que tinha me apavorado tanto a ponto de pedir para voltar. Saí quase puxado pelos meus amigos, sem forças para caminhar, com câimbra nas pernas  e com feridas sangrando em todo o corpo. Quando me vi fora da caverna, e todos começaram a me perguntar o que eu tinha visto lá dentro do buraco, disse-lhes que era um monstro marsupial morto e em decomposição, que estava sendo devorado por formigas carnívoras!...Desde então minhas aventuras se limitaram a ser na superfície da terra,  longe das cavernas. O mistérios e enigmas daquele buraco até hoje continuam     povoando meus piores pesadelos.



PVH-RO., 07/11/16
                                            


        


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

AO MÉDICO CIRURGIÃO

AO MÉDICO CIRURGIÃO

Samuel Castiel













Divina  é a tua missão sagrada
No corte fino do bisturi na carne
Quase sempre combalida, destroçada
Na iminência  da vida que já parte...

O aço que corta, a mão que sutura
Vai juntando, recompondo a anatomia
Buscando a estética,visando a cura
Trazendo de volta à vida que já parte...

Das tuas mãos renasce o corpo,
Às vezes mutilado mas com vida;
N
as tuas mãos salva-se a carne ferida,
Do homem muitas vezes já considerado morto!…

És o semi-deus que a esperança traz
És o anjo bom que cortando faz
Voltar a vida que já parte…
Cortando, suturando, recompondo

Com teu  cinzel  de verdadeira arte!...

PVH-RO., 18/10/16

AO MÉDICO

AO MÉDICO
Samuel Castiel


Trazes o bastão do amor em tuas mãos
Tua veste branca é a pureza casta
És por natureza de todas  profissões
O símbolo vivo da ciência vasta.

Representas a única esperança, o norte
Do combalido corpo que padece
És por essência a aliança
Entre a vida e a implacável morte
Que espreita o ser a cada dia que avança...

Tens a paciência, a abnegação
Para a alma aflita que sofre
Quando o corpo sofrido esmaece
Quando parece não haver mais salvação
Trazes o bálsamo da vida, da sofreguidão
Mesmo sabendo que teu gesto divino
Nem sempre teu ingrato paciente reconhece
E o inexorável tempo te esquece!...

PVH-RO, 18/10/16