quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A VIZINHA E O MORCEGO

A VIZINHA E O MORCEGO

Samuel Castiel Jr.















             Quando ela se mudou para a estância onde eu morava, confesso que fiquei constrangido, pois eram apenas dois quartos, divididos por uma parede de madeira. Enquanto só eu morava ali, dava tudo certo. Mas uma mulher, “coroa”, separada da minha cama apenas por uma delgada parede de madeira, tinha certeza que não iria dar certo. Fiquei a pensar como pode uma mulher vir querer morar aqui? Era uma casa velha, tosca, de madeira, sendo que na parte de baixo funcionava uma fábrica de mosaicos e em cima ficavam o escritório dessa fábrica e mais dois quartos. O banheiro era comum e ficava no final do corredor. A poeira era infernal, pois subia da fábrica de  mosaicos, que usava cimento peneirado manualmente. O calor era intenso, pois o teto era muito baixo. No corredor havia uma treliça que ia até quase a cobertura. Graças a essa treliça tínhamos a pouca ventilação, que também trazia o pó de cimento. A noite apenas uma lâmpada iluminava toscamente o nosso corredor. Nas noites de lua, entrava também uma réstia de luz prateada través da treliça. A escada que dava acesso aos cômodos, tinha degraus quebrados e balançava quando passávamos por ela.  Talvez única vantagem de morar ali era a localização, ou seja, a Avenida Serzedelo Correia, área nobre no coração de Belém-Pará.
         Amália era o nome da vizinha, que passou a ocupar aquela moradia comigo,  dividida apenas por uma parede de madeira. Era uma mulher branca mas com cabelos de negra, pernas grossas, tendo mais ou menos seus 40 anos e, pelo que se via, bem vividos! Era sozinha, parecia não ter amigos nem amigas. Também não fazia questão de tê-los. Confesso que fiquei incomodado quando ela foi morar ali. Mas, como estudante de medicina, passava o dia na faculdade e a noite ia estudar na casa de algum colega. Quando nos encontrávamos no corredor eu a cumprimentava, mas dificilmente respondia. Acho que vivia de mal humor,de mal com a vida. As vezes chegava tarde da noite e acabava me acordando com o barulho dos seus saltos no piso de madeira. Não se acompanhava nem trazia ninguém a reboque. Pelo menos nas vezes que eu percebia suas chegadas nas escuras madrugadas. Era uma figura quase enigmática.
         Foi numa noite de inverno  quando tudo aconteceu. Era sábado e eu estava dormindo desde a tarde, pois tinha virado a noite toda estudando para fazer prova de anatomia no sábado pela manhã. O nosso corredor estava escuro, pois nem eu nem a vizinha tínhamos nos levantado para ligar a luz do corredor quando anoitecera. De repente a vizinha se levantou, abriu a porta do seu quarto e acendeu a luz do corredor. Dirigiu-se para o banheiro e não demorou muito para dar um tremendo e assustador grito. De um salto pus-me em pé e corri para ver o que provocara aquele grito de pavor na minha estranha vizinha. Encontrei-a pálida, gritando e apontando para cima, enrolada em uma toalha de banho. Olhei e vi um grande morcego que, assustado com a luz e a n ossa presença, passou a dar voos rasantes sobre nossas cabeças. Corri e peguei uma vassoura para abater o bicho. Mas foi aí que o morcego passou a nos desafiar. Voava em nossa direção como se fosse um caça, desviando-se no último segundo graças ao seu radar natural. O bicho ficou feroz e emitia grunido ou chiado que o tornava ainda mais ecabroso. A vassoura na minha mão não conseguia acertá-lo pois ele era mais rápido. Num desses voos rasantes ele acertou a cabeça da vizinha que, para se livrar do bicho azarento, deu um grito e um pulo, fazendo com que caísse a toalha que trazia enrolada ao seu corpo. Correndo nua passou por mim e pelo  morcego, entrando na primeira porta que encontrou aberta e que, coincidentemente, era a do meu quarto. Trancou a porta e foi preciso muita conversa explicando que o vampiro já tinha voltado para as trevas, saindo por cima da treliça do corredor por onde deveria ter entrado. Quando decidiu abrir a porta do meu quarto, Amália já estava enrolada no meu lençol, mas quando se virou de costa para mim, o lençol escorregou um pouco e perguntei-lhe então que mancha preta era aquela que estava atrás do seu ombro esquerdo. Foi aí que a vizinha teve outro ataque histérico, gritando e se sacudindo toda, como se quisesse se livrar do maldito morcego. Jogou-se nos meus braços aos prantos e desmaiou. Tive que passar a noite toda acalmando seus soluços e tremeliques, tentando mostrar-lhe que o morcego fora embora morder e chupar outro pescoço, e que a mancha preta em seu ombro esquerdo era o seu velho e conhecido sinal de nascença, que os médicos chamam de nevus pigmentado. Desde essa noite passamos a ser bons amigos. Acho que nossa amizade necessitava da interface de um morcego.


PVH-RO, 13/02/14

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

UM ROSTO NA VIDRAÇAÇA

UM ROSTO  NA VIDRAÇA

Samuel Castiel Jr.













          Vivia meus 16 anos. Naquele dia meu pai chegou eufórico para o almoço. Olhou para minha mãe, apontou o dedo para mim e disse:
---Lolita, consegui um emprego pra ele. Já começa amanhã.
          Sem  ter o que argumentar, restou-me continuar ouvindo meu pai explicar entusiasmado que era numa agência bancária do Banco da Lavoura, que estava chegando a nossa cidade. Conhecera o gerente através de um amigo comum e, de imediato, já conseguira meu emprego. Seria muito bom para mim começar a trabalhar naquela idade, pois poderia aprender muitas coisas, valorizar o trabalho e sair da molecagem. O serviço era bem simples. Tinha que limpar a agência antes de começar o expediente. E para isso tinha que chegar a agência bem cedo, ou seja, as 6:00 h, fazer o serviço e voltar para casa, tomar banho, vestir a roupa social com gravata, voltando ao banco para abrir a agência as 8:00 h em ponto, de 2ª. a 6ª.feira. O horário do almoço era das 12 as 14:00 h, sendo que a tarde o expediente era interno. Como nossa casa era relativamente próxima a agência, não precisava de condução, podendo mesmo ir e voltar a pé. Aos sábados a tarde, tinha que encerar a agência, deixando-a bem limpa e cheirosa para a nova semana. Também era minha função fazer o café para os demais funcionários. Para quem nunca tivera nenhum emprego, nenhuma responsabilidade a não ser correr de peito aberto  atrás de papagaios, jogar peteca e futebol, seria uma experiência absolutamente nova.
            Mal o dia clareava, já estava eu a caminho do banco, cheio de entusiasmo e disposição, pois com o tempo comecei a gostar do meu trabalho e “vesti a camisa”. Apesar desse meu primeiro emprego ter me afastado dos folguedos pueris, lá estava eu bem vestido, com uma gravata no pescoço e me sentindo muito útil ao serviço bancário, como se fosse grande agente econômico da Wall Sreet. As vezes, confesso, que me sentia constrangido  quando entravam na agência colegas e amigas minhas pra falar com o gerente e ele batia na campainha me chamando:
-- Traga dois cafés por favor!
            No início ficava envergonhado diante das pessoas que me conheciam, mas depois fui me acostumando e algum tempo depois já não me importava muito nem com a campainha nem com os cafés.
             Meus colegas de trabalho eram muito eficientes e me tratavam muito bem. Lembro-me do Mizerani (gerente) do Guinard, do Ormiro, do Zé Lima que antes do banco abrir era açougueiro no Mercado. Lembro-me também do Valter Santos e do Oziris Lobo. E apesar de tantos anos que já se passaram, esses amigos são muito nítidos na minha memória.
             Certo dia saí cedinho de casa, como sempre. As ruas sem asfalto e o capim ainda estavam molhados do orvalho caído na noite. Ia com a cabeça cheia de pensamentos, remoendo a saudade dos folguedos da infância que estavam ficando para trás. De repente olhei para o lado e o meu olhar foi surpreendido por um rosto olhando-me furtivamente através do vidro de sua janela. Era uma casa do tipo chalé, de dois pisos. Aquele rosto angelical, de mulher loura e linda, porque estaria ali, postada, aquela hora, ao raiar do dia, a me olhar passando na rua? Atônito com esse olhar enigmático, fiz que não a vi, pois não quis que percebesse que eu a descobrira. Poderia nunca mais voltar a olhar-me passando... E continuei o meu caminho, pensando que daria tudo para vê-la outra vez, a olhar-me através da sua janela. Nesse dia, as horas pareciam que se arrastavam, o banco parecia que não mais ia encerrar aquele expediente, tão ansioso eu estava para saber se aquele rosto lindo voltaria a me olhar no dia seguinte, através da vidraça. No dia seguinte  passei e olhei de soslaio, e como um raio, numa fração de segundos, nossos olhares se cruzaram. Meu coração recebeu uma carga de adrenalina e acelerou. Acho que ruborizei. Trabalhei ainda naquele  Banco por um ano, quando pedi demissão pois tinha que continuar meus estudos fora do Estado. Mas enquanto eu continuei passando naquela rua, bem cedinho, lá estava aquele rosto enigmático na vidraça. Muitos anos se passaram e até hoje ele ainda povoa minhas recordações. Porque ela me esperava apenas para me ver passar, sem nenhum aceno, sem nenhum sorriso, sem um gesto sequer? Nunca tive e sei que nunca vou ter essa resposta. Foram apenas um rosto e um olhar que se perderam através da vidraça, mas que marcaram indelevelmente a minha memória.


PVH-RO, 10/02/14






            

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

SAMBA,CARNAVAL E SANGUE

SAMBA, CARNAVAL E SANGUE

Samuel Castiel Jr



















           Todo ano a estória se repetia. Chegava a época do carnaval, vinham os ensaios das escolas de samba, a agitação nas quadras, os concursos e a disputa dos sambas de enredo, a organização das alas e seus passistas, as fantasias, etc. Valfrido era passista e panderista da ala de bateria e a sua escola, Acadêmicos do Salgueiro, naquele ano estava cotada para ficar entre as três primeiras colocadas do Grupo-A, isto se não fosse a grande campeã do Carnaval. Como todo bom sambista, Valfrido também era chegado a um rabo-de-saia. E, nessa época, quando se aproximava o período do Carnaval, aproveitava para fazer “chover-na-sua-roça”. Mulato, quase negro, Valfrido era exímio panderista. Fazia acrobacias com o pandeiro, jogando-o pra cima e aparando-o com a sua propria  nuca, agachando-se entre as pernas “saradas” das mulatas e fazendo vibrar as platinelas entre as coxas suadas das sambistas.Tudo isso, lógico, sem perder a ginga e o rítimo do samba. Nesse ano porém, Valfrido estava sentido algo diferente, desde o dia que botou os olhos na nova sambista Alcina, que passou a frequentar os ensaios. Era filha de Floriza, que já fora porta-bandeira e hoje era responsável pela Ala das Baianas. Diziam as bocas miúdas, que tinha um xodó com Presidente da Escola, Amarildo “Tijolo”. Mas a verdade é que Valfrido desde que vira Alcina sambando, ficou encegueirado pela nova passista. Dezoito aninhos, seu corpo era escultural. Pernas e coxas grossas, torneadas, o bum-bum arrebitado, sua feições pareciam de uma vestal negra! Quando ela sambava, Valfrido deixava até seu pandeiro cair...Perdia o equilíbrio! Quanto mais o dia do desfile se aproximava, mais ele perdia a  cabeça, passando horas a imaginar-se na cama com aquela musa negra do carnaval. Chegava a sentir o cheiro bom do seu sexo. Devia ser um tesão na cama, pensava.
      –Valfrido, tira essa mina da tua cabeça, rapaz – dizia seu melhor amigo e também passista, Beto da Cuíca. Ela é afilhada do home, cara! O manda-chuva da escola. Dizem até as bocas de cuiú-cuiú que ele anda ficando com ela. É a mina do zóio dele. Eu aviso a você, cara, e quem avisa amigo é: toma muito cuidado!
            Os dias se passavam, toda semana os ensaios da bateria e sua madrinha, dos passistas, da porta-bandeira e mestre-sala, das alegorias, dos destaques, os carros alegóricos ganhando “vida” nas oficinas e nos barracões. Enfim, tudo se afunilando para o apogeu do grande dia do desfile no sambódromo. Valfrido tinha se aproximado de Alcina e notou que ela também admirava a sua intimidade com o pandeiro. Cada vez mais próximos, começaram um flerte com olhares, toques e passes de samba. Muitas pessoas chegaram a adverti-lo, sempre temendo por sua integridade física, uma vez que violência e truculência eram as tônicas de Amarildo Tijolo, Presidente da Escola, que muitos diziam envolvido com drogas, comércio ilegal de armas e prostituição no morro. Era um homem ignorante, perigoso e frio. Já tinha mandado um recado para o Valfrido, que ficasse longe da sua afilhada Alcina, quando viu os dois se pegando no entorno do barracão.
         O sorteio da Liga das Escolas de Samba confirmou para sábado as quatro horas da manhã o desfile do Salgueiro. Consultada a metereologia acenava com tempo nublado sujeito a chuvas esparsas naquela madrugada em todo o Estado do Rio. As arquibancadas, frizas e camarotes estavam lotados, tudo pronto para o grande desfile.
           Na cabeceira da pista, Valfrido esquentava sua Ala de bateristas:
-- Vamos lá moçada! A hora tá chegando! Vamos mostrar a garra do Salgueiro. Não esqueçam: entrar e sair no Recuo no tempo certo, sem perder a marcação nem as paradinhas!
           Foi quando avistou Alcina. Estava simplesmente deslumbrante e nua. Seu corpo tinha sido pintado pelos mesmos artistas da equipe da Globo, que produzem a Globeleza. Estava lindíssima e, sambando, parecia flutuar!...Não resistiu: afastou-se da sua Ala de Bateria e, sempre com o pandeiro na mão e sambando, foi ao encontro daquela deusa negra. Deu um beijo em seu rosto e sussurrou ao seu ouvido:
-- Você tá irresistível! Um tesão ambulante!... Quero você hoje comigo depois do desfile.
-- Val, pára com isso! Volta pra sua bateria. Nosso desfile já vai começar.
          Valfrido olhou pro lado e viu um palhaço que  chamou sua atenção. Não sabia que sua escola nesse ano trazia uma ala com palhaços.
          Um clarão se abriu no céu e fogos de artifício multicoloridos começaram a explodir anunciando o início do desfile.
           Foi nesse exato momento quando os fogos ainda estavam pipocando que Valfrido recebeu três tiros a queima-roupa, que se confundiram com as explosões da bateria de fogos. Quase ninguém percebeu o que aconteceu mas alguns ainda viram aquele palhaço com uma bola vermelha no nariz fugindo rapidamente e se misturando na multidão.
          Valfrido caiu no chão junto com seu pandeiro. Uma poça de sangue começou a se formar no asfalto. Na sua roupa branca formou-se grande mancha vermelha. Alcina que viu sua queda, quando percebeu o que acontecera, correu para ele e se abaixou suspendendo sua cabeça. Um filete de sangue escorreu de sua boca. Os fogos de artifício ainda estavam estouravam no céu. Com a voz fraca e quase inaudível ainda falou:
-- Os fogos estão lindos! E sua cabeça pendeu inerte.
         A voz do Tijolo surgiu ampliada por um megafone que trazia em sua mão, gritando pra todos que o desfile já tinha começado e a comissão de frente já estava se deslocando. A polícia já tinha sido chamada e iria investigar e apurar o assassinato do sambista. O Salgueiro não poderia ser prejudicado por mais um acerto-de-contas.
-- Vamos que vamos Salgueiro!


PVH-RO, 27/01/13                                                                             

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

TRATAMENTO ALTERNATIVO

TRATAMENTO ALTERNATIVO

Samuel Castiel Jr




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                   “As coisas não são absolutas, elas existem dependendo da percepção de cada um”

                    ( Paulo Coelho )




        Não acreditava em bruxas nem em feitiços. Também não tinha religião. Era agnóstico. Solteirão e independente, até que um dia, por se  encontrar indisposto, sem apetite e sem ter melhora com os remédios que vinha tomando por conta propria, começou a ficar intrigado com a sugestão de algumas amigas que insistiam em que o seu mal-estar nada mais era do que “mal olhado” ou trabalho que algum desafeto teria lhe jogado.  Não foi preciso muita insistência para sua amiga Diná levá-lo a uma benzedeira.
-- Vamos lá, Carlão! Dona Cotinha é a melhor de todas. Já trabalha a anos, tem experiência com todo tipo de mal olhado e já curou muita gente!
             Dona Cotinha realmente era muito respeitada pelos trabalhos prestados a comunidade. Crianças, jovens e velhos, todos a procuravam com os mais diversos problemas. Dona Cotinha, depois de examiná-lo, com sua fala mansa disse:
-- Meu filho, vou precisar rezar com a mão em sua cabeça, pois você tá com um grande “mal olhado”!  
    Pegou um ramo que depois Carlão ficou sabendo tratar-se de arruda. Benzeu, rezou, sempre molhando o ramo de arruda na água benta de uma bacia. Depois pegou um pedaço de barbante e disse ao Carlão:
-- Carlão, meu filho, além do “mal olhado”, você também tá com “espinhela caída”. Vou livrar você também desse mal! Tenho uma boa reza pra isso, nunca falhou!
     Com o barbante, mediu a circunferência de sua cabeça, depois a distância entre seus ombros e também a distância que vai da base do pescoço até a boca do estômago.
      Carlão já estava ficando impaciente, mas ela concluiu:
-- Tinha certeza! Essa cara e essa moleza nunca me enganaram!
      Rezando, benzendo e fazendo o sinal da cruz com o polegar da mão direita, ia de sua testa até a boca do estômago. Depois puxava a pele com os dedos, desde a base do pescoço até o umbigo. Fez isso por uns dez minutos, até que a pele do Carlão já estava vermelha e quente. Depois pediu a ele que rezasse três Ave-Maria e três Pai-Nosso e o liberou. Carlão saiu de lá se sentindo mais leve. Ficou matutando quem teria olhado mal para ele? E a “espinhela caída”? Que negócio mais estranho!...
        Depois de algum tempo de bem-estar, Carlão voltou a ficar incomodado. Tudo pra ele estava dando errado. Até perdeu o emprego de tantos anos na Caixa Econômica. Sua poupança começou a minguar. Foi quando  outra vez apareceu sua velha amiga Diná:
-- Meu amigo Carlão, esse azar todo em cima de você só pode ser um “descarrêgo”. Vou levá-lo a um centro e você vai sair de lá outro homem.
    Carlão concordou e foi. O nome do médium era Ormiro de Ogum, vindo direto da Bahia. Jogava cartas e Buzios, também era vidente. Aproximava ou distanciava pessoas. Já tinha casado muitas pessoas que não tinham mais esperanças no amor. Também andou fazendo trabalhos pra “descasar”. Mas sua linha era branca, recusava trabalho pro mal. Já tinha atendido e aconselhado vários políticos que sempre o procuravam. Quando olhou pro Carlão, mandou que se sentasse e foi logo dizendo:
-- Home, tu tá carregado mais que mangueira depois da floração! Parte esse baralho – ordenou. Vixe! É a carta de uma mulher que vai se aproximar de você. Mas não se avexe, ela é do bem. Acredite e essa  mulher pode lhe trazer muita sorte. Vou preparar um banho especial de “descarrêgo”pra tirar esse carma que jogaram em você. Você deve tomar esse banho na última sexta-feira do mês. Mas repito, fique atento que esse “rabo-de-saia” vai aparecer na sua vida. E tenho certeza que é disso que você tá precisando!...
          Carlão foi pra casa sem muitas esperanças mas, por via das dúvidas, guardou a garrafada do banho para o dia certo. Tomou o banho como lhe fora recomendado e ficou ansioso a espera do resultado. Os dias do Carlão aos poucos  começaram a ficar melhores. Deitado e se embalando na rede da varanda de sua casa, ficou pensando como as coisas tinham melhorado em sua vida. Conseguiu um novo emprego, ganhando até bem mais do que o seu antigo emprego na Caixa. Estava bem de saúde, disposto e realmente nada tinha a reclamar. Sua mulher era carinhosa, fogosa, cuidava bem dele. Não entendia porque passou tanto tempo pra enxergá-la. Foi preciso um tratamento alternativo para que sua vida tomasse um outro rumo e ele encontrasse finalmente o seu grande amor.
         Era um domingo quente, com um sol forte de verão. Consultando o seu relógio Mido Automatic Baroncelli, chamou sua esposa com quem se casara recentemente:
-- Diná, querida! Prepara meu drink de Martini com Soda e traz aqui pro seu Carlão. Mas põe pouco gelo, tá!?...


PVH-RO, 27/12/13

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Dr. FRED'S KOLL

Dr. FRED’S  KOLL

Samuel Castiel Jr.










       "  Quase todos os médicos têm a sua doença preferida  "

             Henry Fielding




     Era baiano, mas descendente de eslavos. Formou-se em medicina pela Universidade Federal da Bahia. Tinha perdido  sua esposa precocemente, com quem não chegou a ter filhos. Mas não ficou viúvo por muito tempo. Casou-se logo com outra mulher bem mais jovem, que lhe deu vários filhos homens, porém nenhuma mulher. No hospital onde trabalhava era muito conhecido por ser um médico muito inteligente, porém muito polêmico e turrão. Tornara-se perito do Instituto Medico Legal (IML) e vez por outra era designado pela Justiça para fazer exumação de cadáveres, serviço que detestava. Com o passar dos anos entregou-se a bebida e tornou-se alcólatra.  Inicialmente só bebia whisky, mas depois teve que beber cerveja e nem sempre das melhores. Quando começava beber  não tinha horário para parar. Dentre tantas esquisitices, também não gostava de pagar a conta do que bebia. Quando não aparecia nenhum conhecido para pagar sua conta, levantava-se na cara de pau, bem duro, parecendo que tinha engolido uma espada e ia saindo. Não adiantava o garçon  ou o  dono do boteco chamá-lo, pois ele não olhava nem pra trás. Ainda bem que só bebia em botecos cujos proprietários já o conheciam. Anotavam a despesa e cobravam quando ele reaparecia sóbrio.
         O verão estava no auge, com muita poeira em suspensão no ar que se juntava a fumaça das queimadas, fazendo arder nossos olhos e tornando a visibilidade difícil mesmo para pequenas distâncias, ficando complicado e perigoso para os motoristas de automóveis, motos, caminhões e carretas. Alguns voos de aeronaves comerciais eram forçados a desviar suas rotas para aterrisar em aeroportos de capitais vizinhas.
          Naquele final de semana, o Dr. Fred’s Koll tinha tirado plantão na sexta-feira e no sábado resolveu beber. Chegou ainda pela manhã no boteco e pediu uma cerveja estupidamente gelada, “canela-de-pedreiro” – como dizia. Não precisava de companhia. Bebia sozinho. Se aparecesse algum incauto e se dispusesse a ouvi-lo, tudo bem. Caso contrário entrava mudo e saía duro, rígido e calado! Também não gostava de ninguém perturbando ou contando mentiras em sua mesa. Apenas os mais conhecidos eram tolerados na sua mesa. Tinha uma cara muito fechada e séria. Era de poucas ( quase nenhuma ) palavras.
              Não fazia uma hora que ele chegara ao bar, quando pára bem a sua frente uma ambulância. Estava sentado sozinho naquele boteco da periferia da cidade, onde ainda não havia quase ninguém, a não ser um casal que discutia em voz alta, pois o malandro ainda não tinha voltado pra casa. Não adianta beber em bar da periferia – pensou. Sempre acabam me encontrando!
               Salta da ambulância um enfermeiro todo de branco, que ele tanto conhecia:
--- O que houve, Zacarias? Como é que você me encontrou aqui, home de Deus?! E tem mais: tô de folga, saí do hospital a poucas horas!
---Desculpe Dr. Fred’s. Sei que está de folga mas é uma emergência! Um ônibus perdeu o controle e capotou na BR-364, já quase chegando a cidade. O diretor do hospital pediu que viesse buscar o senhor, pois pelo que sabemos existem mortos e feridos graves. O hospital está chamando todos os médicos do corpo clínico para prestar socorro as vitimas desse grande desastre. O senhor tem que ir lá comigo, na ambulância, agora, pra identificar os mortos e mandar os feridos para o hospital.
            O Dr. Fred’s levantou-se e saiu duro, rígido, mal humorado e nem olhou para trás, onde o dono do boteco e o garçon insistiam em chamá-lo para pagar a conta das cervejas já consumidas.
            Chegando ao local do acidente, a cena parecia mais um campo de batalha, depois do massacre. Corpos atirados em todas as direções. Choros, gemidos e gritos pedindo socorro. Muitos curiosos se aglomeravam no local. O Dr. Fred’s foi abrindo caminho, afastando as pessoas e falou para o enfermeiro:
---Zacarias, pega a sua prancheta e a caneta e vem comigo. Vou identificando, examinando e passando os dados pra você.
---Ok Dr.
              E começou o serviço:
---Pedro Farias Damasceno: fratura do braço esquerdo e provavelmente da coluna lombar. Imobilizado mas estável.
---Epifânio Silva: desacordado, sangrando pelo ouvido direito. Provavel traumatismo cranioencefálico (TCE) grave.
---Florinda Torres: ausência de sinais vitais: morta!
          Depois de declarar mortos uns cinco ou seis, o Zacarias chamou:
---Dr., o senhor falou que esse aqui tá morto mas ele se mexeu agorinha!...
           O Dr. Fred’s Koll parou a inspeção e, olhando feio e sério para o Zacarias perguntou:
---Ô Zaca, quem é o médico aqui?
---É claro que é o senhor, Dotô!
---Então quando eu disser que tá morto é porque tá morto!!!
---Mas...

Nota do Autor:  Qualquer semelhança com lugares e personagens deste conto, terá sido mera coincidência.


PVH-RO, 12/13/13

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O ESTOURO DA BOIADA

Samuel Castiel Jr.
















O que rouba a confiança dos homens é o maior dos ladrões”.




        Muitos o chamavam de Rei do Gado, alcunha que, na verdade,  não o deixava muito confortável. Sua fazenda estendia-se por extensa planície de pasto verde que se perdia no horizonte. Ficava muitas vezes a admirar aquele pasto por horas a fio. Eram mais de três mil cabeças de nelore que pareciam decorar aqueles campos verdes. Indiscutivelmente, Zezão era um fazendeiro bem sucedido.
        Bem lá no fundo da fazenda havia um grande lago, onde o rebanho se refrescava e bebia água nos dias quentes de verão. Alguns búfalos selvagens também ficavam por ali, pois não costumavam misturar-se com o rebanho dos bois brancos. Zezão não gostava muito daqueles búfalos mas deixava que eles ficassem por lá, pois não representavam nenhuma ameaça para sua fazenda. Muitas vezes ficava intrigado de ver como esses animais tratavam seus filhotes. Os machos pra apressar o desmame batiam covarde e grosseiramente nos bezerros, ao ponto de muitas vezes matá-los. Um búfalo adulto chega a pesar meia tonelada. É um animal colossal! Mas, tirando essas esquisitices, não incomodavam o rebanho de nelore. Zezão tinha cerca de cem peões na fazenda, entre boiadeiros, vaqueiros, motoristas de caminhões-gaiolas, tratoristas, etc. Esses peões eram escolhidos a dedo e contratatos pelo próprio Zezão, após uma longa entrevista. Tinha que ser gente de confiança e com habilidade para lidar com o manejo do gado. No último verão contratara mais uns vinte peões, vindos na maioria do sul do Pará e também do Mato Grosso.  Precisava de gente pra vacinação e marcação  do rebanho, além da atividade leiteira, o que envolvia um contingente considerável de mão de obra. Dentre aqueles homens que havia contratato ultimamente, Zezão não tinha gostado muito especialmente de um deles, mas por ter experiência como vaqueiro de grandes pastos, o contratou. Pancho Bêni era um peão da fronteira do Brasil com o Uruguai. Vinha com a experiência de manejo com o gado de corte e de leite. Por isso Zezão o contratou. Mas seu jeito e seu olhar não  agradavam ao Zezão, pois lhe pareciam sempre furtivos. Parece que está sempre escondendo alguma coisa – chegou a comentar com seu capataz, o João Ferreira. O tempo foi passando até que começaram a surgir notícias de roubo de gado nas fazendas vizinhas. O capataz João Ferreira, homem da mais irrestrita confiança de Zezão, já tinha comentado com ele que também não gostava nem um pouco do olhar e do comportamento do Pancho Bêni, vulgarmente conhecido como Sansão, pelos cabelos longos que usava. Estava sempre cochichando com outros peões.
---Se eu pegar algum ladrão de gado na minha fazendo vou enforcá-lo, como no velho oeste americano. Eu juro que o enforco! –dizia Zezão.
           O inverno chegara e com ele as chuvas e tempestades,   com ventos muito fortes.
            Naquela noite havia vários lotes do rebanho separados por divisórias de corda, pois no dia seguinte os caminhões-gaiolas levariam cerca de quinhentas cabeças para serem vendidas a um frigorífico na Capital.
             Era quase meia noite e o silêncio da madrugada que se aproximava, só era quebrado pelo mugido melancólico do gado, como um pranto de dor. As silhuetas de três homens montados a cavalo surgem na escuridão. Vinham sem pressa e em silêncio, sem trocar nenhuma palavra. Parecia que tudo já estava ensaiado e decorado. Aproximaram-se do rebanho previamente selecionado e que só esperava o dia amanhecer para ser transportado ao frigorífico. O vento começou a soprar forte e os relâmpagos e trovões anunciaram a chuva que já começava a cair em pingos fortes. O gado começou a mostrar sinais de inquietação e agitação. Os três homens desceram então de suas montarias e se aproximaram do gado. Tinham que cortar as amarras de cordas que separavam os lotes. A chuva ficava cada vez mais forte. Os relâmpagos e trovões cruzavam os céus. Os homens usando capus, chapéus e capas de chuva trabalhavam freneticamente cortando as cordas dos lotes de nelore, até que um forte relâmpago cruzou o céu e o raio atingiu de cheio uma castanheira que se partiu ao meio, produzindo um estampido forte e agudo, com se fosse o  tiro de um canhão gigante que se perdeu na mata. Foi esse barulho assustador que provocou o estouro da boiada. O gado assustado parecia obedecer ao comando de um líder que ia na frente, numa louca e cega corrida, quebrando e passando por cima de tudo que estivesse a sua frente. Não deu tempo dos ladrões de gado chegarem até seus cavalos, que saíram desembestados, relinchando em desabalada carreira, deixando pra trás seus montadores. A manada enlouquecida só começou a parar no fundo da fazenda, próximo ao riacho, onde ficavam os búfalos, que também já davam sinais de inquietação.
             As cinco e trinta da manhã o capataz da fazenda João Ferreira acordou Zezão para dar-lhe a notícia:
---Patrão, os gatunos de gado visitaram sua fazenda!
---Miseráveis filhos da puta! Não respeitaram nem a forte chuva com temporal que caiu a noite inteira.
---É verdade patrão! Eles não costumam respeitar nada. Mas dessa vez se deram mal e levaram a pior: houve um estouro da boiada provocado por um raio e eles foram pisoteados e mortos pela manada.
---Não me diga, home de Deus!
---É isso mesmo que  está ouvindo, patrão! O senhor não vai precisar gastar suas cordas para enforcar esses malditos! Estão todos mortos e pisoteados. Mas quero que o patrão venha comigo até lá, pois precisa ver uma coisa.
      Ao chegarem perto dos corpos, João Ferreira se abaixou e puxou com força o capuz de um deles:
---Veja, é o Sansão, Chefe! Ele e mais dois comparsas. Tiveram o fim que mereceram. Estão quase irreconhecíveis.
---É verdade, João Ferreira. Vou economizar minhas cordas –disse Zezão. Virou-se e montou em seu cavalo.
---Vamos lá, meu fiel capataz! Faça o que tem que fazer. Depois vá até a casa grande. Vou mandar preparar uma limonada pra nós. Hoje o dia vai ser muito quente.
      E saiu trotando em seu “puro-sangue”. Ia pensando consigo mesmo: é como dizia meu velho pai: ladrão que rouba gado pode um dia ser chifrado. E acrescentou: ou pisoteado. E foi-se embora.


PVH-RO, 09/12/13 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

UM SANTO REMÉDIO

UM SANTO REMÉDIO
Samuel Castiel Jr.









"O ciumento acaba sempre encontrando mais do que procura."
( Madeleine de Scudéry )


         As primeiras namoradas são as que mais despertam ciúmes. E muitas vezes encontram verdadeiros paladinos, capazes de cometer loucuras por elas.  Muitos homicídios ainda continuam sendo registrados e creditados por conta de um  cego e tresloucado ciúme.
         Era um verão ensolarado, quente e de muita poeira na minha querida Porto Velho. Estavamos no mês de junho e as quadrilhas, arraiais e boi-bumbás animavam nossas noites. Pedro Struthos sempre foi um amigo dileto, desde a doce adolescência quando fundamos e defendemos as cores de um time de futebol de salão (futsal) o saudoso e aguerrido Santa Cruz Futebol Clube. O Pedro tinha um pai muito conservador, porém de bom senso. Quando soube que o seu filho estava pretendendo naquela sexta-feira ir ao arraial da igreja do Rosário, cujo pároco chamava-se João Feio, condicionou seu consentimento se ele fosse na minha companhia, uma vez que sempre me considerou uma das melhores amizades de seu filho Pedro. Entretanto, tínhamos que voltar pra casa até no máximo meia noite. Tudo combinado, com alguns trocados no bolso, saímos para a noitada no arraial. Lá encontramos com a minha namorada que estava acompanhada de algumas amigas. Como todos éramos bons amigos, o clima entre nós ficou ótimo. Meu amigo Pedro estava de olho em uma dessas amigas, porém nada me disse. Acontece que, dentre essas amigas da minha namorada, estava uma que terminara recentemente seu namoro, quase noivado, deixando o Dudu, seu ex, decepcionado e furioso, pois ela insistia em não mais reatar aquela relação. Enquanto  nosso grupo se divertia no arraial,  jogando boliche,  pescaria de presentes e no “tiro-ao-alvo”, eis que o ex-namorado nos viu e, achando que sua ex estava dando mole pro meu amigo Pedro, veio tomar satisfações. Xingou o Pedro, disse-lhe um monte de desaforos em voz alta, quis bater na moça. Foi aí que apareceu o paladino da moça. O Pedro tirou seu relógio do pulso, pediu-me que afastasse as moças e saiu no soco com aquele enlouquecido ex-namorado, que não acreditava ser a outra a sua pretendida. Não acreditava que a sua ex-namorada apenas estava no grupo de amigos, sem namorar ninguém, muito menos com o Pedro. Soco pra cá, soco prá lá, eu tentei e consegui apartar aquela briga sem sentido. Mas acontece que o Dudu estava bêbado, tentando afogar suas máguas  no copo para esquecer seu  grande amor. Apartei a briga, fiz os dois brigões apertarem-se as mãos, pedirem desculpas um para o outro e continuamos nossa diversão visitando os jogos e brinquedos daquele arraial. O Dudu brigão foi embora, os curiosos também. Já  tínhamos quase nos esquecido da briga quando se aproximou uma bicicleta, vindo por trás do nosso grupo. Vinha com velocidade. Pedalando com força vinha um outro conhecido nosso, Aluizio e trazia na garupa o Dudu. Quase não deu tempo para avisar o Pedro. O Dudu saltou em cima dele e os dois rolaram pelo chão, caindo numa vala profunda que ficava a margem daquele local. Os dois rolaram agarrados um no outro, desferindo socos e ponta-és. O Aluizio que vinha pedalando a bicicleta, impediu-me de tentar apartar de novo aquela briga. Os dois tinham que resolver aquela situação na porrada –dizia ele, com bafo de cachaça. Os dois  brigaram no fundo da vala até quando chegou a polícia e botou um fim naquela briga de rua, presenciada lá de cima por curiosos que se aglomeravam para ver tudo do melhor ângulo, ora aplaudindo, oram vaiando. Acabada a luta, cada um foi pro seu lado. Juntei o que tinha sobrado do meu amigo Pedro: um olho roxo, vários hematomas pelo rosto e pelo corpo e todo sujo de lama fedorenta. O Dudu também ficou muito amassado! Fomos andando pra casa, relembrando aquela briga por um motivo banal. Afinal—dizia o Pedro para a ex-namorada ou noiva do Dudu, não era nem em  você que  que eu estava de olho. Alguma das garotas propôs que todos fossemos pra casa de uma delas pra fazer limpeza e curativos no Pedro. Concordei mas olhei no relógio, e já era quase meia noite. Fizemos a limpeza dos ferimentos, lavamos os hematomas, mas o rosto do Pedro continuava horrível, inchado e com aquele olho roxo, quase fechado. A dona da casa propôs então que colocássemos um bife cru de carne bovina em cima do olho roxo do Pedro.
---É um santo remédio, dizia ela.
            Foi lá pra dentro da casa e voltou com um bife.
---Pedro, meu filho, esse bife é o único que tenho na geladeira e já estava até temperado, mas eu o lavei bastante na torneira. Coloque-o em cima do seu olho machucado e vai ver como logo fica bom.
          O Pedro pegou bife e o colou em cima do seu olho esquerdo. O cheiro do tempero ainda estava forte e o coitado do Pedro ficou parecido com um pirata que tivesse tido  seu olho enucleado. Depois de mais ou menos meia hora, sugeri que o Pedro tirasse aquele  bife ridículo do olho para ver o resultado, até porque estava ficando muito tarde pra gente voltar e o seu pai certamente já estaria impaciente. Quando ele tirou, a decepção foi total! O olho do Pedro parecia mais roxo.
---Acho que ficou foi pior Pedro, disse-lhe eu. Acho que o  hematoma reagiu com o tempero, principalmente com o vinagre e o cuminho, puxando ainda mais o roxo do seu olho. Vamos embora que eu estou imaginando  o que vai acontecer!...
          Quando chegamos a casa do Pedro, vi que as luzes da casa estavam todas acessas. Batemos a porta e Seu Paulo veio nos receber.
---Isso são horas de chegar! – foi logo dizendo sem nos encarar direito.
         Quando olhou para o Pedro, fez uma cara de espanto, arregalou os olhos e olhou para mim:
---Que foi isso?
          Eu já tinha treinado durante o percurso quais seriam minhas palavras para justificar aquele estado do meu amigo Pedro.
---Foi o seguinte Seu Paulo: ...
          Ele me interrompeu:
---Não precisa dizer mais nada, Samuel:
          Olhando pra cara amassada do Pedro disse-lhe:
---Você entra! E você fora! Apontou para a porta da rua.
          Confesso que saí sem poder justificar que o Pedro, seu filho querido, tinha lutado para defender a honra e a integridade de uma mocinha indefesa, nossa amiga, que corria o risco de ser massacrada pelo brutamonte de seu ex-namorado.
          Com o passar dos dias, o Seu Paulo ouviu do Pedro a realidade do que acontecera. Arrependido do tratamento que havia me dado aquela noite, mandou–me um recado que gostaria de fala comigo. Fiquei apreensivo, pois já tinha esquecido as palavra da defesa do Pedro  naquela noite. Mas nem foi preciso, pois pediu-me desculpas e disse-me que estava arrependido por ter-me mandado embora naquela noite, daquele jeito. Afinal, seu filho tinha sido um paladino defensor daquela moça. Que ele, seu pai, no seu lugar, teria feito o mesmo ou pior! Ficamos mais amigos ainda do que já éramos!
          Quando eu já me despedia do Seu Paulo, ele me chamou outra vez e me disse:
---Eu só não entendi uma coisa, Samuca: esse bife cru no olho do Pedro!?
---Eu também não, Seu Paulo. Mas dizem que é um santo remédio!
          E fui embora.

PVH-RO, 02/12/13