segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A CONQUISTA E A CAÇAMBA



A conquista e a caçamba.
Chico Chagoso & Samuel Castiel







Chico Vira-bicho estava mais feliz que pinto naquilo. Conquistara a garota mais bonita da redondeza. Era uma paranaense alta, magra, cabelos castanhos e lisos e olhos claros. Não estava nem acreditando. O azarão da turma com aquele monumento. A moça trabalhava em uma pequena lanchonete de propriedade de dona Ziza, tia de Chico. Faltavam as formalizações de praxe: apresentar aos pais, visitar as casas etc. Mas já tudo estava engrenado. O dia mal começara mas já prometia.
Zenaide, a deusa de Vira-Bicho (VB), era simples mas muito exigente consigo mesma. Unhas, cabelos... impecáveis. Roupas de muito bom gosto e sem qualquer exagero, embora as minissaias e os tomara-que-caia estivessem em destaque no seu guarda-roupas. Mas voltemos ao VB que estava se preparando para seu trabalho.
Era uma sexta-feira de junho, em meados dos anos setenta. VB, em seus quase dezoito anos de idade já comemorava um ano de emprego fixo. Era o melhor salário entre todos seus amigos até porque eram poucos os que já trabalhavam. Era reservado tímido! Logo mais, à noite,  iria levar Zenaide  da escola até a sua residência. Conheceria seus pais.
No horário do almoço, comprou  um cinto novo, uma bisnaga de Nuget, um vidro de perfume “Madeiras do Oriente” e um frasco de laquê. Comprou também uma serrinha de unha:“Que os cabelos se apresentem ordenados e as unhas não lembrem a antiga criança rebelde”, Vira-bicho fumava "Carlton", mas em dia de festa comprava "Pall Mall". Não titubeou: comprou dois maços de Pall Mall e um de "Du Maurier" o famoso "Preto, comprido e metido a francês".
À tarde, VB ainda deu uma escapada pra  lavar, calibrar os pneus e regular os freios da sua magrela., uma  Monark Barra Dupla, 78. Nada podia dar errado. E o coração à mil.
Ficou pensando com seus botões, que noite maravilhosa ele teria com a Zenaide. Enfim, ela sempre foi a dona de seus desejos e inspirações. Sem falar nos sonhos eróticos que tinha. Acordava tesudo, muitas vezes tinha poluções noturnas. Ficava a imaginar a Zenaide com seus lábios carnudos a beijar-lhe. Seus seios fartos, seu bumbum  roliço e arrebitado. O som estridente do telefone fixo quebrou os pensamentos eróticos do VB. Correu para atender aquele chamado que vinha em hora imprópria, tirando-o de um devaneio com seu amor, platônico até então. Do outro lado da linha, aquela voz rouca que ele muito bem conhecia: uma ex-namorada, que na realidade não passara de um “peguete”.
—  VB é a sua tchutchuzinha! Hoje é sexta-feira e eu fiquei pensando que nós poderíamos dar uma saída, fazer um programa...Sei lá!?...
Quando o VB ia responder que essa ideia de sua “ex” não tinha a menor chance de acontecer, a ligação caiu. O telefone preto ficou então com aquele som apitando indefinidamente. VB desligou, mas teve a ideia de deixar o telefone fora do gancho para ter certeza que não seria mais importunado. Voltou a se preocupar com os detalhes de sua roupa, do perfume, do laquê em seus cabelos e com a sua bicicleta. Tudo tinha que estar impecável, nos seus  mínimos detalhes..Às 19 horas saiu para o encontro com a Zenaide, aquele encontro por ele tão esperado. Era a primeira vez. Já tinha combinado, VB a levaria  de bicicleta para um motel. Não podia levá-la para um motel de luxo, mas a levaria para um lugar aconchegante, um motel que tinha sido inaugurado recentemente, na saída da cidade, na BR 364, e que tinha  Vídeo-cassete com filme pornô, 10 canais de música ambiente, até mesmo   cama  redonda de colchão d”água. A hora naquele motel “ cabia “em seu bolso, pois tinha feito umas economias e valeria  a pena  investir no amor dos seus sonhos e fantasias. Já com a Zenaide sentada no varão da sua Monark de duplo varão, VB  começou a sua noitada. Tinha programado primeiramente passar num barzinho lá na zona leste onde sempre “rolava” um pagodinho. Lá iriam tomar umas “geladas”, dançar um pouco e finalmente pegaria o rumo do motel, na saída da BR. Com esses pensamentos em sua cabeça, VB ia pedalando todo feliz e cheio de amor pra dar.
“Será que ela vai cair na minha lábia?” conjecturava sob os solavancos da rua mal encascalhada. Dava até pena meter aquela magrela naquela buraqueira… Mas no final do arco-íris havia de haver ouro…  Será que ela ficaria zangada por ele mudar o percurso assim, do nada?... “‘Do nada’, uma ova, se eu pegar aquele peixe…”. - A buzina de um fusca atrás de VB fê-lo sair da transe… Mas Zenaide só sairia da aula depois das 9 da noite. Haveria um evento no colégio e dispensariam os alunos mais cedo. Resolveu tomar umas cervejas na Zona Leste, para esquentar os ânimos.
Não conseguia entender como uma cidade tão pequena tinha Centro, Zona Norte, e Zona Leste. Pingolin Mirim tinha menos de 10 mil habitantes. Só duas ruas receberam asfalto. E a Energia não cobria toda a Zona Leste. A única via de acesso era a BR 364. Mas este conto não é aula de geografia, aliás a matéria que mais reprovara  VB nos seus anos de ginásio, então voltemos ao encontro.
Quinze para as nove estava lá na frente da escola. Nervoso que nem no dia que fez a prova de Admissão ao Ginásio. Estava impaciente. “Será que ela faltou hoje?”, “Será que desistiu”, mil pensamentos permeiavam sua mente até que finalmente ela apareceu. Tão atrapalhado ficou o rapaz que só conseguiu dizer: “Sobe aí!”, apontando pra garupa da magrela. E ela mais assustada ainda, só subiu, sem nada dizer. E foram. Alguns minutos se passaram até que se iniciasse um diálogo.
—  Você quer ir direto pra casa ou quer passar em algum lugar antes? - VB quis saber.
—  Ah! Não sei! No que você tava pensando… Um sorvete?
—  Não era bem isso. Uma Cervejinha, por exemplo. Que tal?
—  Pode ser, mas eu bebo pouco. E meus pais não podem saber…E
Entraram num barzinho bem arrumado e aconchegante. Não se passou meia hora e já estavam nos maiores beijos. O barômetro de Zenaide a alertava sobre o ar pesada que caía sobre o casal… “Tá ficando quente… e úmido, não”. VB sabia que a umidade não era só no ar… “Carne em breve explodindo”.
No caminho de ida para casa de Zenaide, VB não sabia como desviar para um motel. Por sorte que passaria por  dois. Sorte ou azar. Pois pelo primeiro passou sem sequer diminuir a marcha. E logo a frente estava o segundo: “Motel Estrelinha” dizia o Neon quase sem brilho. Cerca de cinquenta metros antes do “Estrelinha” VB parou a bicicleta e criou coragem…
Antes de passar pelo segundo Motel, VB resolveu abrir o jogo: parou sua bicicleta e explicou a Zenaide que, na realidade, queria mesmo era ficar com ela no Motel Estrelinha, que estaria a duas quadras dali. Caso ela aceitasse, não iria se arrepender. Passariam momentos inesquecíveis!...
—  Mas VB, se eu ficar grávida meu pai me mata!
— Nem pense nisso: usaremos preservativo. Trouxe aqui alguns, da Jhonson & Jhonson, o famoso Jontex. Dizem que é um dos melhores, não corre o risco de furar.
Zenaide, que já estava sonhando com os momentos inesquecíveis, concordou e novamente montou na bicicleta do VB e foram os dois em busca do motel, o qual ficava numa curva daquela rua. Quando já estavam chegando ao motel, quando já viam sua  lâmpada  vermelha acesa, foi que tudo aconteceu não mais que de repente:  uma caçamba tombeira, carregada de cascalho, dobrou na curva em alta velocidade, e não deu tempo de quase nada. O VB só teve tempo de jogar a bicicleta na vala, mas a caçamba ainda tocou na sua bike, atirando o casal a distância.
No dia seguinte, na folha policial, a manchete mais chamativa dizia: “Casal indo para o motel de bicicleta foi atropelado por uma caçamba”. O nome da Zenaide foi preservado, pois ela era de menor idade.

PVH-RO., 30/09/16

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

CARNE DE SOL

  CARNE DE SOL 
Samuel Castiel & Chico Chagoso















                      
Chicão da Costela era especialista em churrascos. Gaúcho e apaixonado mesmo por assar uma carne. Até se oferecia aos amigos nos finais de semana para preparar a carne. Ele mesmo dizia que não importava o corte nem a qualidade da carne. Fosse bovina, suína, caprina, carne dura ou mole. Se fosse dura ele trabalhava a carne até que ela ficasse mole...Fazia também embutidos como linguiças e calabresas. Preparava os molhos e vinagretes. Mas, dentre as suas preferidas, a carne de sol era a que mais ele dava ênfase. Nos mínimos detalhes, até o carvão que ia para a churrasqueira, ele mesmo gostava de escolher. As facas e espetos rigorosamente limpos! Não gostava de afiar as facas e usá-las na sequência. Condenava quem afiava os facões e, sem lavá-los, ia logo cortando a carne. Dizia que o ato de afiar deixava um pó de aço ou metal nas facas que poderia contaminar a carne se não previamente lavadas,  causando até mesmo danos a saúde das pessoas. Quando era convidado para fazer um churrasco, acordava-se bem cedinho, ia ao açougue escolher as carnes, comprava tudo que iria precisar. Chegava bem antes do horário marcado, acendia o fogo na churrasqueira, esperava a fumaça se dissipar, pois a carne poderia absorver a fumaça e, também, causar danos a saúde. E disso entendia muito, pois a defumação de seus embutidos seguia padrões e protocolos internacionais. Sais de cura, madeiras nobres, fungos específicos, tudo com requinte e rigor de um mestre. Mas a perfeição é uma virtude incompatível com o ser humano. Chicão, dentro de sua própria especialidade de churrasqueiro, tinha um defeito “de nascença”. Não podia ser contrariado naquilo que dizia ser rito sagrado do churrasco. Não tolerava sequer ser questionado sobre assunto. Seu saber era soberbo e absoluto. Ele criava uma verdadeira muralha entre os comensais e a churrasqueira da qual era o guardião (adjetivo tipo onipresente…). Contava-se que certa vez, alguém jogou água na churrasqueira para diminuir a labareda e ele ficou irado a ponto de abandonar e evento deixando todos na mão.
Pois bem! Chicão foi convidado pra “queimar uma graxa”, como ele mesmo dizia nos momentos de descontração. O local era a chácara de um amigo seu que ficava nos arredores da cidade. Na verdade o patrono do churrasco estava mais pra conhecido que pra amigo. Nunca estivera antes no local, por isso  inteirou-se com o tal “amigo” sobre peculiaridades do local, da churrasqueira, numero pessoas, preferências por cortes, etc, etc. Seria um aniversário de um cunhado do proprietário. Receberiam em torno de cem pessoas para o almoço em um sábado de novembro. Ainda na sexta foi em busca dos insumos… Estava meio desolado: Na relação das carnes que lhe foi passada não constava aquela que era sua especialidade, a carne de sol . Ainda pensou em questionar os anfitriões que lhe haviam convidado. Mas, ficou constrangido em fazê-lo, pois era contratado apenas para assar e servir o churrasco aos convidados. Mesmo assim, na véspera da festa, preparou para si mesmo uma picanha maturada, de boi novo, salgou a carne colocou seus temperos e a colocou ao ar livre para desidratar. Claro que antes teve o cuidado de cobrir tudo com um véu fino para impedir a aproximação de moscas e outros insetos. No dia do evento, saiu bem cedinho para cumprir aquele ritual, ou seja, acender o fogo, preparar a mesa com as facas previamente afiadas e lavadas, onde o churrasco seria cortado e servido. Foi muito elogiado por todos os convidados que adoraram seus saborosos  cortes enfiados nos espetos. Não só o sabor  mas também o cheiro do churrasco atraía a todos que chegavam ao local. Entretanto, o mais curioso é que aquela carne de sol, que ele fizera só pra ele, foi a que mais fez sucesso. Todos queriam provar! Não sobrou quase nada para o Chicão. Os anfitriões chegaram mesmo a vir questioná-lo porque não fez mais carne de sol.
--- Não estava na relação que vocês me deram. Eu trouxe um pouco, mas só pro meu uso. Acabou que eu nem provei da minha carne de sol. Os seus convidados parece que aprovaram e comeram tudo! --- dizia o Chicão Costela todo orgulhoso.
               Naquela semana, o Chicão ficou matutando e remoendo uma ideia. Porque não fazer carne de sol pra vender. Muita gente não sabe fazer e compra qualquer carne nas feiras, açougues ou supermercados. A sua carne de sol era diferente, especia!. Teria uma boa aceitação. Assim sendo poderia ganhar uma grana extra que o ajudaria no seu orçamento mensal. Pensou, pensou e se decidiu. Comprou 100 kg de carne que ele mesmo escolheu, montou um varal alto na frente de sua casa, no início da BR 364, Km 14, no sentido Candeias do Jamari, antes do posto da Polícia Rodoviária Federal. Cortou meticulosamente a carne, salgou e a pendurou no varal, coberta por um grande véu protetor. Deveria ficar no varal umas 24 a 36 horas, ao sol,  para desidratar o suficiente. Era uma sexta-feira quando uma camionete Hillux 4 x 4 parou em sua porta e buzinou. Chicão foi ver quem era e deu de cara com um homem gordo, alto e de chapéu a” la Indiana Jones”.
--- Bom dia meu jovem! -- saudou o homem abrindo um sorriso largo. Sou Jorjão Quintela, mas conhecido com “Jorjão My love”
--- Bom dia. O que o senhor deseja seu “My love”?
--- Isso aí no varal é carne de sol? E é pra vender?
--- Sim senhor. E da melhor qualidade.
--- Quero comprar.
--- Quantos quilos o senhor deseja?
--- Quero tudo?
--- Mas Seu Jorjão,  aqui tem 100 kg de carne.
--- Eu disse tudo!  Pode ir tirando do varal e colocando na minha camionete.
--- Pois não.
            Chicão tirou toda a carne do varal e a depositou na camionete.
--- É o seguinte, meu bom amigo --- falou o “Jorjão My Love”. Sou seu quase vizinho. Minha fazenda fica daqui a uns 50 km, próximo a Itapoã D’Oeste. Hoje é sexta-feira,  você me dá o valor total dessa compra,  quando for na próxima segunda-feira bem cedo eu estarei de volta, passo por aqui e pago a sua carne, OK?  
--- Olha aqui Tchê -- respondeu o Chicão  mal humorado:  eu já salguei essa carne pra não perder!...

--- Mas...

terça-feira, 19 de julho de 2016

O AQUARIO

O AQUARIO

Samuel Castiel Jr.








A ingratidão pode ser visceral” (Samuel Castiel Jr)

  Peixes ornamentais multicoloridos, espelhados, dourados ou com listras pretas, nadadeiras diáfanas ou transparentes, cabeças vermelhas ou longas barbatanas , todos extravagantes e com nomes curiosos como Beta, Véu-de-noiva ( Kinguios Goldfish) Labius, Symphysoson discus, Colisa Lalia, Carassius Auratus, Danio Rerio, etc., todos nadando naquele aquario que reproduzia um perfeito arrecife com algas, pedras e plantas aquáticas. A luz artificial refletia num grande espelho aquelas criaturinhas nadando elegantemente. E como mágica, essa visão silente sempre me trouxe a paz de espírito, relaxando meu corpo e acalmando minh'alma.
   Construi um aquario grande em uma parede vazada no meu próprio quarto de dormir, de tal forma que quando acordava, minha primeira visão era aquele balé dos peixinhos dourados e coloridos. Uma paz interior me invadia e aquilo era uma sensação agradável que me confortava para iniciar bem minhas atividades do dia-a-dia.
   Nunca fui muito chegado a pescarias, mas no verão, quando os rios secam, as águas ficam baixas e os cardumes de peixes ficam mais abundantes, aceitei o convite para uma pescaria no rio jatuaraninha, onde os peixes estariam em abundância. Depois de algumas horas tentando pegar algum peixe incauto, meu companheiro de pesca conseguiu fisgar um Acará Regional. O peixe veio aos saltos, debatendo-se preso no anzol, num desespero de quem luta pela vida, com pavor da morte. Imaginei-me imediatamente sendo aquele peixe e um frio percorreu a minha coluna vertebral. Meu parceiro de pesca comemorou sua proeza de fisgar um Acará Regional. Realmente, para quem, depois de três horas, perdera todas as iscas e vários anzóis presos nas galheiras, era um feito digno de comemoração. Menos para o pobre do Acará Regional. Depois de retirado o anzol de sua boca, o peixe foi jogado no assoalho da canoa e ficou lá se debatendo agora pela falta de oxigênio. Uma ideia me ocorreu, de levar o peixe para o meu aquario. Mas como salvá-lo fora da água. Para isso combinamos de colocar um pouco de água no fundo da canoa e, então, inclinávamos a canoa para o lado que o peixe se encontrava, fazendo com que se mantivesse oxigenado. Mais tarde, já em terra firme, colocamos o Acará dentro de um balde com bastante água, para que suportasse a viagem até meu aquario. Ao chegar em casa corri para depositá-lo no aquario, junto aos outros peixinhos. Mas o Acará Regional estava quase inerte, parado, e com os olhos vidrados, opacos, sugerindo morte iminente. Ficou assim por algumas horas e, aos poucos foi começando a recobrar suas forças. No dia seguinte estava nadando e cheio de energia, para minha alegria. Tinha salvo a vida daquele peixinho, que fora fisgado pelo anzol e passado por maus pedaços com a falta de oxigêno. Mas felizmente ele estava salvo e graças a mim que poupei sua vida, livrando-o da frigideira. Mas para minha surpresa, o Acará começou a ficar hostil com os demais peixes do aquario, fustigando-os com tentativas de mordidas e perseguições em alta velocidade. Os demais peixes fugiam espavoridos. Acabou-se a paz do meu aquario –pensei! Alguns dias depois os peixinhos menores tipo Paulistinhas, Neóns, Collidora, Bandeira, Acará disco, etc sumiram do aquario, devorados pelo Acará Regional. O biólogo que chamei incriminou o novato por ter devorado tais peixinhos.
--O senhor não pode deixar esse peixe aí, pois ele é predador e quando está com fome não respeita os demais, principalmente se forem pequenos.
Mas aquele peixe significava muito para mim, pois eu o salvara, dando-lhe a oportunidade de outra vida. Com o passar dos dias, quando eu me aproximava do aquario para alimentar os peixes, lá estava ele, maior que todos, devorando a ração dos demais, com manobras ameaçadoras. Seus olhos me encaravam com uma expressão recriminadora. Levantava suas nadadeiras dorsais, em atitude de desafio e ataque. Chegava a chocar-se com o vidro do aquario na tentativa de me alcançar. Fiquei alguns dias a interpretar a atitude agressiva daquele peixe para comigo. Porque agia daquela forma? Senti que esse mau humor era só comigo, pois quando outras pessoas se aproximavam do aquario, nada disso acontecia. Ele continuava a nadar normalmente e o seu olhar não era hostil nem ameaçador como acontecia comigo. A atitude daquele peixe começou a me incomodar. Porque seria? Eu que o salvei, eu que insistia em deixá-lo no aquario mesmo devorando e incomodando os demais peixes.
  Naquele sábado, acordei-me como sempre e fiquei com os olhos fixos no aquario. O Acará Regional nadava lentamente, as vezes ficava parado e se escondia na madeira de um adorno que ficava submersa no fundo do aquario. Levantei-me e aproximei-me do aquario. Foi então que o Acará Regional quase saltou para fora, levantou os espinhos de sua nadadeira dorsal e ficou em atitude agressiva, de ataque. Aproximei-me ainda mais, mas em vez de jogar ração na água como sempre fazia, mergulhei minha própria mão. Imediatamente o peixe atracou-se com meu dedo indicador, mordendo-o a ponto de sangrar. Um filete de sangue escorreu e misturou-se com as águas do aquario. Num reflexo, puxei minha mão e o Acará Regional veio junto, agarrado e mordendo meu dedo. Sacudindo a mão, atirei-o ao solo. Peguei um balde, coloquei-o dentro com um pouco de água. Lembrei-me de um velho amigo que também era aquarista e criava espécies exóticas, inclusive de peixes predadores carnívoros e canibais. Quando me dei conta estava na casa desse amigo.
--Maciel, quero que me faça um grande favor.
--Pois não amigão! Em que posso ajudá-lo?
--Trouxe um peixe pra você colocar junto com o seu Oscar Tigre. É um Acará Regional.
--Sam, você sabe o que vai acontecer, não é?
--Perfeitamente. Quero ver esse desfecho!
  O peixe Ocar Tigre tem o nome científico de Astronotus ocellatus, também chamado de Apaiari. Sao peixes vorazes e alimentam-se de peixes pequenos e carne crua. Os peixinhos menores são engolidos de uma só vez!
  Quando o Maciel jogou o meu Acará Regional dentro do seu aquario, o peixe Oscar imediatamente partiu para o ataque, pois ele tem como característica ser um territorialista por excelência. O Acará Regional ainda tentou levantar suas nadadeiras de espinhos mas o Oscar Tigre foi mais rápido e abocanhou parte do corpo do Acará Regional, deixando a mostra suas vísceras e espinhas centrais. Outros ataques foram suficientes para que o Acará Regional fosse para o fundo do aquario. Aproximei-me então do aquario e olhei fixo nos olhos do meu peixe que ainda me fitava com um olhar fulminante, de ódio. Ainda tentou levantar seus espinhos da nadadeira dorsal, mas estas já não mais respondiam a seus comandos. Antes de me despedir, o Maciel chamou-me e perguntou por que tinha trazido aquele peixe para ser devorado pelo seu Oscar.
--Achei que ele não gostava de mim!…
E fui-me embora.

O Maciel balançando a cabeça, ficou rindo como se tivesse entendido a minha vingança...

PVH-RO., 19/07/16

quinta-feira, 7 de julho de 2016

A PESCARIA

A PESCARIA


Samuel Castiel Jr.


















" Nunca se deve cutucar onça ( ou cobra ) com vara curta."




                                  As águas frias e  límpidas,  como um espelho, refletiam  as  nuvens  do céu e as  frondosas arvores da mata verde. O   barco   rasgava    essa    superfície    quebrando    o    silêncio daquelas paragens. Seus  companheiros  eram:  o  único  filho  José de 12 anos, sua mulher Jussara e o cachorro Malboro. O destino era a cabeceira do Rio Preto, onde  pretendiam  pescar  principalmente a Jatuarana e o Surubim, peixes nobres da região.    Esse    era       o “hoby”  de Arthur nos finais de semana há muitos anos.Ficavam ali acampados, dormindo em barracas de lona. A noite deleitavam-se com o céu estrelado e a lua  prateada.   O   silêncio   da   mata      só era quebrado pelo grito de macacos e pássaros noturnos.        Muito longe, as vezes,  conseguiam ouvir o esturro de uma onça pintada.   A    pescaria    geralmente   era    mais proveitosa no final da tarde e início da noite, ou então ao raiar do dia, quando os peixes estão mais vorazes. O barco de Arthur era um Mercury, de 40 HP.      Um pequeno toldo com estampa de listras os protegia do sol inclemente do verão.
              Ao passar por uma curva do rio, todos foram surpreendidos por um forte estrondo e, na sequência, o barco foi perdendo velocidade até parar. Imediatamente Arthur coreu até o motor, desligando-o e constatou que sua hélice havia se quebrado ao chocar-se com uma tábua de madeira que flutuava nas águas.
---Fiquem todos calmos, não foi nada de grave – falou Arthur. A hélice do motor se quebrou ao chocar-se com uma tábua que flutuava e eu não a vi. Vamos ter que descer um pouco a favor da correnteza para que eu troque essa hélice. Ainda bem que tenho outra de reserva.
                        O barco começou a descer levado pela correnteza até que Arthur conseguiu jogar a corda e prendê-lo ao galho de uma arvore à margem do rio. Enquanto Arthur trabalhava na hélice do motor, ao longo do rio passava uma cobra d'agua nadando sinuosamente na superfície das águas, levada pela correnteza. Era uma visão interessante e curiosa, pois a cobra, como o barco quando em movimento, também quebrava aquela superfície lisa das águas, produzindo minúsculas ondas. Todos no barco estavam com os olhos voltados para a cobra que, tranquila e ecologicamente, passava. Foi quando o menino José resolveu pegar sua baladeira (estilingue), juntou algumas pedras e começou a atirá-las na cobra que passava. Arthur e sua mãe o repreenderam, mas ele continuou a fustigar a cobra com as pedras de sua baladeira. Uma dessas pedras acertou em cheio a cobra que afundou e não mais foi vista na superfície da água. O menino José comemorou gritando que conseguira acertar seu alvo. Correu em direção a sua mãe e a seu pai e, de mãos espalmadas, bateu e deu soco como um vitorioso!                               Feito o reparo da hélice, Arthur desatracou o barco, ligou o motor,e logo estavam novamente navegando em alta velocidade nas águas do Rio Preto.
                         De repente algo aconteceu: um barulho e um chiado de cobra chamou a atenção de todos no barco. Ao olhar para a traseira do barco, no assoalho e próximo ao motor, ninguém acreditou no que viu. A mesma cobra que passava a pouco tranquilamente nadando, encontrava-se agora dentro do barco, com aspecto ameaçador, chiando e pronta para dar o bote em quem dela se aproximasse. Arthur sempre foi muito precavido e nunca deixara de usar e obrigar seus passageiros a usar os coletes salva-vidas. Foi o que os salvou. Assustados, em pânico e com pouco espaço para correr, não tiveram nem tempo para raciocinar. Atiraram-se n'água, tentando se salvar da picada da maldita cobra. Ninguém soube explicar o que aconteceu. Como aquela cobra foi parar dentro do barco depois que foi atingida pela pedra da baladeira do menino José. Nadaram todos para a margem do rio, sob o comando de Arthur. Outro mistério que não conseguiram decifrar é que quando o Arthur voltou ao barco, agora armado com um pedaço de pau para matar a cobra, lá não havia nenhuma cobra, nenhum sinal da serpente. Antes de retomar a viagem, Arthur todo molhado e com cara de poucos amigos foi até ao José e, com a mão espalmada disse: bate campeão! Sua pontaria foi quase fatal! O menino José baixou a cabeça. Nenhum dos três disse mais nada até o destino final da pescaria.

PVH-RO., 07/07/16


sábado, 30 de abril de 2016

A FESTA DO BALBINO

A FESTA DO BALBINO

Samuel Castiel  Jr.


"Escolha  e selecione bem antes de convidar para sua festa!..."  







        Já era aposentado, mas como médico, continuava a trabalhar nesses postos municipais de saúde, pois tinha pavor do ostracismo e da solidão. Por isso mesmo Balbino estava sempre procurando fazer novas amizades. Nos finais de semana costumava frequentar os ambientes onde se encontrava com velhos amigos bebedores de cerveja. Ali ele se divertia ouvindo lorotas e também contando as suas. Nesse sábado, Balbino chegou mais cedo no Bar do Bigode, mas nem desceu do seu carro. Fez sinal chamando seu velho amigo e colega médico Luciano para ir até ele:
-Amigão, você não sabe mas hoje é o dia do meu aniversário!      
Passei aqui só pra convidar você. É um pequeno almoço que estou 
fazendo na minha casa. Logo mais a partir das 13 horas. Você vai?
Chame também o Julinho e todos os outros amigos que estão com você.
     O Luciano ainda tentou justificar que se encontrava ali com outros amigos e que talvez não pudesse se liberar tão cedo.

---Vou tentar Balbino, mas você sabe como é!…São muitas

estórias, cada um quer contar as suas e o tempo vai passando.

__Não tem problema algum: você convida a todos que estiverem 

aí, em meu nome, e vão vocês todos lá pra casa. Vou comprar mais cerveja. Ah! Já ia esquecendo: leve o  sax pois quero ouvir canções românticas ao sôpro do seu saxofone.

    O Luciano, mesmo preocupado, voltou para seus amigos e, em voz alta, pediu a atenção de todos e fez o convite recomendado pelo aniversariante

       Na mesa dos bebedores de cerveja, encontrava-se o Zé do Porco, um velho e fanfarrão amigo de todos.  Depois de explicado onde era a casa do aniversariante, todos acertaram que iriam festejar com o Balbino. Além do mais, o almoço deveria ser farto!...
     O Zé do Porco que se encontrava acompanhado de sua nova ”gata”, uma loura oxigenada, de baixa estatura, bem acima de seu pêso, perguntou ao Luciano se poderia levar com ele o seu novo amor.
---Claro Zé do Porco! O Balbino foi bem claro: convidou a todos, inclusive o dono do estabelecimento.
Ao chegar a casa do Balbino, por volta das 13:00h, já havia uma aglomeração de carros estacionados nos entornos da residência do Balbino. Bem na entrada da casa, postara-se a esposa de um amigo, dando o peito a seu filho, num gesto materno de amor. Mas o que  tornava essa cena mais hilariante era o sol equatorial escaldante e um calor insuportável, fazendo a mãe e o bebê quase se derreterem. Luciano ao entrar no recinto observou logo que havia vários amigos conhecidos da Loja Maçônica, a qual pertencia o Balbino. Num corredor da casa, estava postada a mesa decorada e fartamente servida, onde se podia escolher pratos de mariscos com grandes camarões, lagostas, lulas e mexilhões. Outros pratos de carnes bovina, suína, galetos e frangos. Frutas tropicais como mamão papaya, abacaxis, cajus e laranjas decoravam a mesa. Tudo impecavelmente preparado. O Balbino e sua mulher não mediram esforços nem economizaram para aquele almoço – pensou Luciano.
Apertado, la no final do corredor, um conjunto de pagode animado tocava e batucava os pagodes da época, que tinham como interpretes Zeca Pagodinho, Almir Guineto, entre outros tantos.
A casa do Balbino não era pequena, mas pela quantidade de convidados que não paravam de chegar, as pessoas começaram a se esbarrar, acomodando-se como era possível. O Balbino se desdobrava para receber e atender bem todas as pessoas que chegavam. Quando começou faltar assento, ele trouxe as cadeiras da sala de jantar, depois pegou até uma poltrona velha  do seu quarto de dormir. A bebida oficial era a cerveja, a princípio bem gelada, mas depois nem tanto.
     O Zé do Porco que tinha se aboletado num banco escorado na parede, junto com sua loura oxigenada, estava tranquilo tomando sua “gelada” quando sua “gata” lhe avisou que iria sair na sua Kombi para buscar uma amiga, pois estava se sentindo meio deslocada naquele ambiente. Apesar dos protestos do Zé, sua amada pegou a chave do carro e foi-se embora. A festa continuou e parecia que tinha atingido seu equilíbrio. Os convidados pararam de chegar. Os amigos da maçonaria começaram a deixar o recinto.

O conjunto de pagode parou de tocar. O Balbino, com uma cara de

felicidade, chamou o Luciano e disse-lhe que queria ouvir o saxofone. Como o Luciano tinha prometido, pegou seu instrumento e chamou seu parceiro Genésio. Postaram-se na entrada da casa, pois a mulher que amamentava já tinha mudado de lugar e a criança  suada dormia em seu colo.
Depois de algumas canções com o sax, aplaudidas por todos, o Luciano percebeu que uma Kombi parou em frente a casa do Balbino. Vinha com lotação absolutamente completa! Dela saltaram várias mulheres, desconhecidas e mal arrumadas. Foram entrando e sem cumprimentar a ninguém, apertaram-se entre os convidados. Uma delas, então, disse que não bebia cerveja e pediu uma dose de whisky. O Balbino que não bebia whisky nem tinha whisky em sua casa, lembrou-se que ganhara uma garrafa de presente de algum daqueles amigos, naquele dia. Pediu que a mulher fosse até a cozinha e pedisse o whisky ao seu mordomo, que também servia de garçon.
       A festa continuava quase no seu ápice. Todos já  falavam muito   alto, o vozerio era intenso. O Luciano continuava tocando canções no seu sax e o Balbino se deleitando. Foi então que no meio do vozerio, ouviu-se gritos histéricos, impropérios e palavrões que vinham lá da cozinha do Balbino. Com certeza alguém se desentendeu lá por dentro – pensou Luciano. Mas continuou a tocar, até porque talvez encobrisse um pouco aquele barulho da confusão. Na realidade, a mulher que foi pedir a dose de whisky recebeu um NÃO do mordomo-garçon, que se negou a abrir a garrafa, pois era um dos presentes de aniversário do Dr. Balbino.
---Não vou abrir nada, não vou servir nada! Se quiser beba cerveja como todos! 
---Você é um troglodita ignorante, infeliz e imbecil!...
    E a coisa começou a desandar até as vias-de-fato. Ficou caótico! Uns a favor do mordomo-garçon e outros contra. Brigaram todos.       Para a surpresa do Luciano, a briga veio da cozinha, passou pelo corredor, e atingiu a frente da casa onde o sax tocava.
    O parceiro e guitarrista do Luciano ainda ponderou:
--- Olha Lu, não é melhor a gente parar? A coisa tá ficando “preta”
 rapaz!
---Calma aí, Genésio! Não podemos parar agora. Pode ser pior.
Continuamos então até que, sem esperar, uma das mulheres que chegaram na Kombi veio se embolando com a mulher do Zé do Porco, a qual, mesmo com seu excesso de pêso, deu um “salto-mortal” numa cambalhota mirabolante e caiu de pé em cima da sua adversária. Parecia uma cena de circo. Nisso uma taça de vinho explodiu na frente do Luciano. Era uma vizinha que, injuriada com o barulho e os palavrões, jogara a taça por cima do muro. Foi aí que o Luciano resolveu parar de vez de tocar seu sax, seguindo o conselho de seu parceiro Genésio. Quando o Luciano olhou para o Balbino, este parecia em transe. Parecia que estava em outro mundo, vivendo um pesadelo. O Luciano fechou rapidamente seu sax, colocando-o no estôjo e saiu as pressas correndo , chamando o Genésio para correr  também  e sair dali.
---Mas Luciano, porque nós temos que correr? Afinal não temos 
nada a ver com essa briga!…
--- Vai por mim cara! Não te falei nada mas eu tô na "condicional," se a "dura"  me pega vou ver o “sol quadrado!...” E eu já tô ouvindo as sirenes da viatura se aproximando. Corre neguinho!…

PVH-RO., 29/04/16

quinta-feira, 7 de abril de 2016

SERESTA & SERESTEIROS

SERESTAS & SERESTEIROS
Samuel Castiel Jr.











     A lua sempre despertou no ser humano sentimentos de mistério e encantamento. A lenda do lobisomem que nas noites de lua cheia sai para espreitar suas vítimas, o canto da sereia a luz do luar levando o navegante para o mar aberto, e também o bôto que nas noites enluaradas vem conquistar e engravidar as mocinhas do vilarejo. Mas, dentre tantos encantamentos despertados pela lua, a seresta e os seresteiros são os mais românticos  desse mistério e encantamento que a lua induz aos homens. Desde tempos imemoriais o homem olhava para o céu e ficava com uma sensação de beleza e encantamento.        O poeta sempre cantou a beleza das noites de lua. Mas o som de um plangente violão e a voz de um seresteiro, parecem que formam a perfeita harmonia nas noites de lua.
     Levado pelo encantamento da lua, Euclides estava ansioso naquela noite. Queria fazer uma seresta inesquecível para sua musa e namorada. Convidou os amigos seresteiros: Marquinho no violão de sete cordas, Paulinho da Flauta, Magna com o repique, Fernandinho do Cavaco e o “Cabeça”, como croner. A proposta era fazer uma seresta memorável, que ficasse na estória. Como todos já estavam acostumados a tocar e cantar juntos, bastaria um pequeno ensaio de última hora pra “passar”as músicas. Foi combinado que se encontrariam as 21:00h na praça Aluizio Ferreira, já que a sua namorada morava no bairro Caiari, um dos bairros nobres de Porto Velho. Tudo certo, tudo acertado. A grande lua iluminava o céu e clareava a noite. A praça estava lindíssima, solitária e perfumada com o aroma das rosas e begônias plantadas em seus magníficos canteiros. Tudo conspirava para uma inigualável seresta!...As 21:00h Euclides ansioso já esperava por todos sentado num dos bancos da praça. Cabelo brilhando penteado e esticado pra trás as custas de um gel fixador discretamente perfumado. Tinha escolhido minunciosmente um repertório eclético que incluía sambas, boleros e guarânias, algumas em castelhano, sucessos na América Latina. Selecionara também meticulosamente samba-canções que fizeram sucesso nas vozes de  Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Lupicínio Rodrigues, Vinicius de Morais, etc. Os amigos de Euclides foram chegando e a proposta era ficar “passando”as músicas ali na praça até que as luzes da cidade se apagassem pois por questões de economia a energia da cidade era cortada as 23:00h e só retornava as 5:00 h, quando a cidade começava se acordar.
    Uma garrafa de pinga servia para dar inspiração e afinar as cordas vocais dos seresteiros. Depois de algum tempo, finalmente aconteceu o que todos esperavam: a luzes se apagaram!...Foi aí então que todos puderam ver a punjância daquele luar. --Parece um Dia!-- exclamou o “Cabeça”.--vai ser A SERESTA!
   Euclides avaliava tudo e saboreava antecipadamente o sucesso que seria aquela serenata!
    Chegou finalmente o momento final. O relógio de Euclides marcava meia noite. Todos então começaram a se dirigir rumo a casa da Aninha, a namorada e musa do Euclides.
    Soaram mágicos os primeiros acordes do plangente violão do Marquinho, solando  a introdução do “Meu Violão Meu Amigo” para a seguir entrar a voz do “Cabeça” cantando essa belíssima canção. E a seresta continuou, impecável fazendo uma harmonia com aquela noite enluarada. Tudo conspirava para o romântico apogeu.
   O Elclides estava em transe, só esperava a sua amada abrir a janela para recepcionar os seresteiros e agradecer tão harmoniosa demonstração de amor!...Trazia uma rosa vermelha no bolso de sua camisa para ofertar e atirar para sua amada no momento que ela abrisse e aparecesse naquela janela.
   Como ainda não havia asfalto na cidade, os carros ao se deslocarem levantavam muita poeira, deixando como rastro uma nuvem de pó avermelhado.
  O "Cabeça" cantava uma canção de Lupicínio quando um carro dobrou na esquina da casa da Aninha e freou bruscamente, com faróis altos em cima dos seresteiros que ficaram todos envoltos pela nuvem de poeira avermelhada. Na sequência saiu do carro um homem alto e magro, gesticulando e vociferando impropérios. Tudo parou! Acabou o encantamento e desapareceu a harmonia do luar. Reinou o silêncio e a perplexidade.
--É o pai da Aninha! --disse o Euclides quase gritando.
Foi tudo muito rápido. O homem sacou de uma pistola e começou a atirar na direção dos seresteiros. Em desabalada todos fugiram como puderam e em rumos diferentes.
   Momentos depois, com o violão nas costas, língua pra fora e ofegante, o Marquinho se encontrou no Mercado Central com o Euclides que também ainda estava assustado e ofegante. Perguntou-lhe então:
--Não entendi nada, Euclides! O que aconteceu?
--Acho que aquele cara não gostou do nosso repertório!…



PVH-RO., 06/04/16

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O SAMBISTA MISTERIOSO

O MISTERIOSO SAMBISTA

Samuel Castiel Jr.










      Leutério estava impecavelmente vestido. Antes de sair, completou seu traje habitual colocando aquele chapéu-coco branco que sempre estava pendurado no cabide atras da porta. Era uma sexta-feira, 13, e seu destino era uma roda de samba e pagode, que estava na moda na zona leste de Porto Velho. Precisava pegar um taxi. Mas ali, nas proximidades do cais do porto, aquela hora da noite, seria difícil passar qualquer taxi. Teria que andar a pé alguns quarteirões. Apesar da lua cheia que clareava o chão, não queria nem poderia suar, estragando seu perfume e molhando sua camisa de seda de marca Dudalina, impecavelmente passada. Seu sapato bicolor preto-e-branco também não poderia ser sujo de poeira ou lama. Enfim, chegando na roda-de-samba, Leutério foi logo se destacando pelo samba habilidoso e ligeiro que trazia nos pés. Ninguém por ali o conhecia. Alguns chegaram a comentar que seria um sambista famoso de uma escola de samba do Rio de Janeiro. Dançava como ninguém! Logo se formou uma roda em sua volta, e Leutério escolhia e tirava pra sambar a garota que quisesse. Quase todas se apaixonavam a primeira vista pelo malandro. Fumando um charuto cubano, soltando grandes baforadas, o sambista aproveitava o intervalo das musicas para bebericar fartos goles de tequila. Mas, o que todos ficavam ainda mais intrigados é que ele não não ficava embriagado nem tonto sequer, e dançava cada vez melhor. As vezes fazia passos e reverências que lembravam um verdadeiro mestre-sala, de uma grande escola do Rio.
      Gertrudes era uma negra, de 17 anos, com pernas torneadas e bumbum arrebitado. A noite toda foi uma das principais parceiras do malandro Leutério. Passos e firulas incríveis saiam dos seus pés , arrancando aplausos da galera sambista.
Alguém chegou até a comentar que o sambista Leutério teria sido aluno do Carlinho de Jesus no Rio, pois o seu chepéu-coco branco jamais caia de sua cabeça, sempre enfiado até a altura do nariz, não deixava boa visão de seu rosto. Mesmo quando fazia os passsos e firulas mais mirabolantes, seu chapéu permanecia imóvel.
As horas foram se passando e o sambista enigmático sambando com maestria, cada vez melhor. Indiscutivelmente, Gertrudes estava caidinha pelo sambista. A lua já estava bem alta mas seu clarão ainda iluminava o terreiro do samba, quando Leutério convidou sua parceira Gertrudes para dar uma volta, pegar um ar num cantinho mais reservado que ele conhecia muito bem, próximo ao rio… Sem titubear, Gertrudes aceitou o convite do sambista. Despediu-se de suas amigas dando uma desculpa esfarrapada qualquer e foi-se na noite, andando graciosa como se estivesse a sambar, pendurada nos braços do passista. Ao chegar próximo ao rio, os dois enveredaram por uma viela tortuosa, muito deserta aquela hora. Chegaram enfim ao barraco tosco do sambista. No seu quarto, uma vela iluminava um ambiente singelo, que os olhos não conseguiam distinguir quase nada mais que uma cama, forrada com lençol branco. Era o suficiente para os sambistas se amarem, agora num compasso mais lento e cadenciado, porém que foi ficando frenético. Quando Leutério passou sua mão nas coxas da sambista, ela quis beijá-lo, porém foi suavemente desestimulada, com o Leutério virando seu rosto. Gertrudes ficou ainda mais intrigada quando o sambista levantou-se e soprou a única vela que iluminava o ambiente:
- Não sei fazer amor no claro! – disse o sambista.
Até então ela não tinha se dado conta que o sambista ainda continuava com o chapéu-coco enfiado em sua cabeça.
Quando os primeiros raios de sol prenunciaram o novo dia, Gertrudes abriu seus olhos e, incrédula, viu o sambista ainda dormindo profundamente. Levemente levantou seu chapéu-coco branco e ficou estarrecida com o que viu: havia um buraco na calota craniana do sambista. Pensou em acordá-lo mas preferiu sair rapidamente dali. Quando contou para uma amiga e confidente, as duas resolveram voltar aquele lugar para conversar com o sambista. Afinal, aquele buraco em sua cabeça poderia ser a sequela de alguma cirurgia, algum acidente e que ele trazia escondido. Ao chegarem ao local, ali não havia nenhum barraco, nenhuma casa, nenhum sambista.
---Gertrudes, amiga, é doloroso mas agora tenho duas coisas a lhe dizer: primeiro - faça o teste de gravidez; segundo – tenho a certeza absoluta que você foi mais uma vítima do boto negro do Amazonas.

PVH-RO., 17/10/16