quarta-feira, 12 de março de 2014

O SORVETE



O SORVETE

Samuel Castiel Jr.














      Essa guloseima gelada sempre foi meu sonho de consumo nos tenros anos da infância. Era como um prêmio que nossos pais nos davam  quando  aos domingos nos levavam a praça para  brincar e tomar sorvete. Quantas vezes nos perguntavam se desejávamos ir ao cinema, ao circo ou tomar sorvete. O meu voto era sempre a favor do sorvete. Meus irmãos chegavam a ficar irados pois mais lhes apetecia assistir a um filme de Tarzan ou de Faroeste. Assistir Jhon Wayne, Victor Mature ou vibrar com o seriado de “O Zorro”. Ver o Globo da Morte, o palhaço, a mulher de barba ou o atirador de facas para eles  era mais atrativo do que o sorvete. Chegávamos a praça quando o sol já se punha, comíamos pipocas e depois tomávamos sorvete. No intervalo brincávamos de “camon-boy” com revolveres de espoleta, da Estrela. Meu irmão Mimon, o mais velho, era cadeirante, pois nunca chegara a andar com suas próprias pernas devido a um parto prolongado no interior do Pará, que o deixou com a sequela permanente de uma paralisia cerebral. Nós tínhamos que levar o Mimon na sua cadeira, mesmo que as vezes isso atrapalhasse um pouco nossas correrias e brincadeiras.  Acontece que meu pai fazia tudo que o Mimon pedisse a ele, pois o tratava como um filho muito especial, enchendo-o de mimos e carinhos. Certo vez meu pai falou que iria nos levar no próximo domingo  para tomar sorvete na praça. Meus outros irmãos vieram falar comigo que seria melhor ir ao cinema, pois ia passar nas telas do Cine Lacerda “Tarzan, o Rei da Selva”. Protestei e disse que, como sempre, meu voto seria para o sorvete. Sabendo do tratamento especial que meu pai dava ao Mimon, eles fizeram loby e conseguiram que meu pai, como sempre, satisfizesse a vontade do Mimon, ou seja, levaria todos ao cinema. Não tive argumentos para dissuadir meu pai. Fomos todos ao cinema. Acontece que aprendi a lição. Em outras vezes, ficava a semana inteira no ouvido do Mimon, dizendo que seria lançado um novo sorvete delicioso, com uma cobertura especial. Acabei vencendo dessa vez e fomos todos para a praça, tomar sorvete e comer pipocas. Mas, meus irmãos gêmeos não entregaram os pontos. Prepararam uma armadilha que por algum tempo deu certo: ao receber sua bolota de sorvete de morango numa casquinha bem torrada, o Auristélio que era um dos gêmeos, colocou-a em sua boca e a engoliu de uma só vez. Isso foi o suficiente para que ele perdesse o fôlego e caísse para trás. Meus pais e todos nós ficamos apavorados, encerrando nosso passeio e voltando todos pra casa, apreensivos. Muitos finais de semana se passaram sem que voltássemos a praça Mal. Rondon, nem tomássemos mais sorvetes. Acho que eles até enjoaram de tanto ir ao cinema ou ao circo. Um belo dia, concordaram que devíamos voltar a praça para brincar, comer pipocas e novamente tomar sorvete. Acontece que todos podiam ter esquecido da queda do mano, menos eu. Fiquei ao seu lado e quando ele recebeu o sorvete,  adiantei-me e o impedi de engolir a bolota de uma só vez. Como ele foi tomando o sorvete pausadamente, nada de mais lhe aconteceu. Tentei explicar para nosso pai da estratégia montada pelos meus irmãos gêmeos, mas ele não acreditou em mim. Era muita astúcia para uns garotos de 10 anos! Daí pra frente, para evitar que a bola de sorvete fosse engolida de uma só vez, eu me postava ao lado do meu irmão e ficava vigilante. Bastava que eu me descuidasse um pouco para que ele engolisse toda a bola do sorvete de uma só vez e caísse pra trás, sufocado, desmaiado. Percebi aos poucos que aquela estratégia era muito verdadeira para ser apenas uma simulação. A bola de sorvete pode ser de que sabor for,  quando engolida de uma só  vez faz o guloso se engasgar e também desfalecer por alguns segundos. Aprendi então que, por incrível que pareça, há certas pessoas que gostam e se acostumam  com esse desmaio, como se fosse um “barato”, um cheiro forte num lenço ensopado de lança-perfume.
              Por alguns anos ainda continuamos indo a praça Mal. Rondon, até que as namoradas e as paqueras foram substituindo a pipoca e o sorvete. Foi um tempo colorido da minha infância!


PVH-RO, 12/3/14

segunda-feira, 10 de março de 2014

CARTA AO WALDEN


CARTA AO WALDEN

Samuel Castiel Jr.
 






         



           Faz um ano e três meses que você se foi. Não tivemos nem sequer a chance de nos dizer adeus. Só vim a saber muito depois quando liguei pra falar com você e sua filha me disse que você não estava mais entre nós. Confesso que fiquei abalado e pensativo. Bateu uma saudade grande. Uma saudade que me paralisou por algum momento em algum tempo do passado. Liguei para o nosso amigo Iuji, que confirmou o seu passamento e acrescentou que achava que tinha sido melhor assim, pois o seu sofrimento era grande demais. Não sei se você também pensa assim. O que sei é que você deixou uma grande saudade! As vezes me pego a pensar como a vida foi cruel com você. Lembro-me de como você era vaidoso, como gostava de viver e das coisas boas da vida. Com a doença, cheio de limitações físicas, parecia um prisioneiro de você mesmo. Quando o visitei pela última vez, vi e presenciei todo seu sofrimento. Passamos aquela tarde juntos a nos divertir com as lembranças do passado que parece tão recente!...Nosso tempo de faculdade em Belém, quando caminhávamos ao sair das aulas até o bairro de Nazaré onde nos despedíamos e cada um ia pra sua casa depois de uma parada no bar Avenida para uma cerveja bem gelada. Bons tempos aqueles Walden, quando apenas o estudo da medicina era a nossa preocupação. Lembro-me do seu cabelo comprido, estilo Beatle, que lhe resultou o apelido de cabelão. Como você gostava de azarar e esnobar as minas, hem? Aos sábados depois das aulas quase sempre íamos para a Avenida João Alfredo, onde havia um desfile de muitas garotas consumistas. Ficávamos quase sempre na Loja LR, onde havia um espaço para beber nosso  choop ou cerveja. Lá encontramos certa vez aquela figura impoluta, chamado Pedrinho, lembra? Tornou-se um amigo daquelas ocasiões, pois sempre o encontrávamos por lá. Confesso que as lembranças daquela época são ainda muito vivas na minha memória. O japonês Iuji que por ser muito metódico, deixava nossa companhia alegando que precisava voltar para o Laboratório do Hospital Amazonas para fazer a análise dos hemogramas. E assim ele quase nunca seguia nossos passos boêmios.O Adilson, que não tinha limites, gostava de sair e se perder na multidão, deixando todos da sua família preocupados. O Fabiano “Pato”, com sua escaleta também era um bom companheiro. O Jovino, sempre querendo se dar bem, chegava a noite pra estudar conosco na sua casa e ficava de olho na merenda que sua mãe ia servir para pegar o maior quinhão. Ficava louco de vontade quando eu falava que ia comer um bifão no restaurante e não o convidava. E como você teve dificuldade de apreender o fenômeno do k-Kaptura da aula de Biofísica! Enfim, todas essas recordações ainda povoam minha mente, como se fossem muito recentes. A Waldenice, por quem você era apaixonado e que acabou se casando com o Ohana, lembra? Nossos mestres da faculdade, todos também desfilam nos corredorers das minhas lembranças: a Professora Betina, da cardiologia, o Mussalem e o Rezende  clinica médica, o Ronaldo Araujo e o Ronaldo Leite da patologia, o Rosado da Neurologia, que apelidamos de Urtigão, O Sampaio da Histologia, o Paulo Azevedo, patrono da nossa turma,  o Herminio Pessoa, o Julio Cruz da ortopedia  e outros tantos que também nos ensinaram tudo que aprendemos de medicina.
           Hoje, Walden, a  Belém que conhecemos está muito diferente daquela que vivemos. Acho que você chegou a ver o camelódromo que se instalou na Av. Presidente Vargas, onde os trombadinhas promovem todo tipo de assaltos impunemente. Não se pode mais andar pelas ruas de Belém sem sobressaltos. De uma hora pra outra um pivete noiado pode puxar teu cordão ou relógio, levar tua carteira ou até mesmo de matar. Tive muita pena de ver aquele jardim que eram a praça da República e a praça Batista Campos, abandonadas e invadidas por marginais. Os pedintes nas ruas cresceram assustadoramente, a pobreza da população é bem maior do que era. Condorda? A revitalização e reforma das Docas do Pará parecem que foram a grande conquista da cidade. A chuva impreterível que cai todo dia as 15:00 h continua a ser a marca temporal da nossa querida Belém. Por aqui, Waldem, tudo continua como sempre, agora atravessando um inverno rigoroso, com chuvas torrenciais e contínuas que fizeram o Rio Madeira encher mais de  20 m acima do seu nível normal, transbordando e inundando a mata, as cidades e vilas ribeirinhas, desabrigando milhares de pessoas. O sol quando aparece logo dá lugar a nuvens escuras que não demoram a se precipitar. Muitos estão culpando as usinas hidroelégtricas que estão sendo contruidas no Madeira. Mas creio que essas usinas não tem muito  a ver com essa enchente que é histórica nesta região. Este ano o carnaval foi suspenso aqui em Porto Velho por causa dessa enchente. Mas, enfim, neste ano e alguns meses que você partiu, as coisas que já estavam em crise, só pioraram. A política está cada vez mais descarada. Os corruptos de plantão agora perderam de vez a vergonha. Quando são julgados e presos, a Justiça volta atrás e manda soltá-los. A lei do mais forte e mais rico agora é bruta. A população, composta por grandes bolsões de miséria, continua sem saber escolher seus representantes. Elege e reelege sempre os mesmos e  piores. E assim nossos governantes só se locupletam e nada fazem em benefício do povo, do social. E as pessoas de bem não querem mais participar nem concorrer para um meio de corrupção, mentiras e fraudes. É lamentável que seja assim.  Mas falando agora de amenidades, nossa MPB foi invadida por duplas caipiras, Funk, Sertanejo Universitário e Batidão. Não que eu tenha qualquer tipo de preconceitos com esses rítimos, mas já vão longe os grandes nomes com Maria Bethânia, Gal Costa, Chico Buarque, Emílio Santiago, Nelson Gonçalves, etc. Acho que os dias atuais de agora, merecem esse tipo de música.Voce também acha? Pois é, a violência que impera nos dias de hoje não tem nada a ver com a voz mansa daqueles nossos ídolos da música popular brasileira. Não sei se você ainda chegou a ver alguma edição dos Realyt Show. No caso dos Big Brothers, a Globo fatura horrores de reais, confinando marmanjos musculosos e pirigetes saradas, ratas de academia, enche todos de cachaça e faz tudo acontecer diante de câmaras que são vistas por todo o País. Além desse escrache, temos também agora, com muita audiência num programa de lutas da UFC, “The Ultimate Fighter”, onde o sangue dos participantes jorra e mancha o tablado. O pico de audiência desse programa é elevadíssimo. Chego agora a compreender porque na Roma antiga os imperadores brindavam o povo com lutas mortais entre os gladiadores, ou os soltava nas arenas junto com leões famintos para serem devorados enquanto o publico delirava e ia a loucura. O ser humano é assim mesmo: adora ver sangue, desde que não seja o seu. Mas fazer o que? Essa é a essência da humanidade, que de  vez em quando é explorada de forma torpe.
          Para não ser mais longo, Walden, vou ficando por aqui, com muita saudade dos nossos velhos tempos. Espero que você continue com esse seu espírito alegre, agora livre por toda a eternidade.
          Um abraço forte
          Do amigo de sempre,
          Samuel


PVH-RO, 10/03/14

quinta-feira, 6 de março de 2014

CONCURSO DE PIMENTA

CONCURSO DE PIMENTA

  Samuel Castiel Jr.















      Na Bahia a vendedora de acarajé pergunta se o freguês quer comer a guloseima quente ou fria. Caso queira quente, ela entorna o vidro de pimenta até o molho escorrer para fora da comida. No vatapá é a mesma coisa, bem como no tacacá ou maniçoba em Belém do Pará. O critério de quente ou frio é dado pelo ardor da pimenta. E a variedade de pimenta é muito grande em todo o Brasil. Umas são importadas outras nativas. E dependendo da região do país, são mais ou menos ardentes. Outras são apenas cheirosas, sem nenhum ardor, tipo o pimentão. E cada tipo de pimenta se presta para determinada comida, sendo umas mais apropriadas para carnes vermelhas enquanto  outras para caldos, sopas, molhos cremosos, frutos do mar,  peixes ou frangos. Algumas são usadas até mesmo em coquetéis. Entre as mais conhecidas podemos citar a pimenta malagueta, murupi, pimenta do reino, Cambuci ou chapéu de frade, pimenta cumari, pimenta dedo-de-moça, pimenta habanero (originária do caribe e costa norte do Mexico, sendo a primeira pimenta a ser cultivada pelos Maias). Temos ainda a Jalapeno, originária do Mexico, pimenta da Jamaica, pimenta de Bode, pimenta de cheiro, pimenta Tabasco, do Chile, etc. E por aí vai, com uma variedade muito extensa dessas frutinhas queimantes. Mas de todas elas, a mais temerosa de todas segundo o Guiness Book é a chamada pimenta Bhut Jolokia, tida como a pimenta mais forte do mundo, pois atinge o grau máximo na escala de scoville, que mede a ardência das pimentas. Pra se ter uma ideia, é altamente recomendável que se use luvas no manuseio dessa pimenta.
          Jocardêncio era um baiano de Jequié, amante das pimentas. Comprou terras e mudou-se para Rondônia, onde aventurou-se na pecuária de corte, possuindo grandes  fazendas em terras férteis para o pasto, na região de Jaru. Mas nunca deixou de possuir um amor todo especial pelas pimentas. Comprava livros,  vídeos e assistia todos os documentários onde buscava ávido aprimorar seu conhecimento sobre as pimentas. Tinha uma plantação só de pimenta que era cuidada por ele próprio. Comprava sementes de todas as regiões do Brasil e também do exterior. Tornou-se um expert na arte de pimentas e molhos.  Cansado de montarias e gado, resolveu um dia promover um festival de pimenta, onde foi marcado concomitantemente um Concurso de Pimenta, cujo objetivo era medir o grau individual  de tolerância para a ardência das pimentas. O vencedor ganharia uma viagem de ida e volta para o Oriente Médio, com direito a acompanhante. Tudo foi bem planejado e divulgado com bastante antecedência. Vieram pessoas de varias regiões e estados do País. Os participanres foram divididos em cinco grandes grupos. Os jurados foram escolhidos pelo próprio Jocardêncio e todos eram pessoas entendida e experts em molhos e pimentas.
           Foram iniciadas as provas, que tinham um juiz em cada grupo. As regras foram bem divulgadas para todos. A provas consistiam em cada grupo provar as varias espécies de pimentas, começando pelas mais fracas e atingindo o ápice com as mais fortes e mais ardentes. Quem esboçasse pelo menos uma careta ao provar determinada pimenta, estaria desclassificado. Havia garrafas de água mineral em cada mesa, que serviam para lavar a boca dos concorrentes após cada prova. Aos pouco os grupos foram ficando menores, a medida que iam sendo desclassificados os pimenteiros. Na última prova, restavam apenas dois concorrentes, cara a cara.
O juiz de mesa pegou a garrafa de molho, derramou um pouco na colher e disse: -- Essa é a Buth Jolokia, a mais queimante de todas. Quem passar por ela será o grande campeão! Jocardencio pegou a colher e entornou em sua boca, sem esboçar nenhum gesto ou careta. Manelzinho Ardido disse: --Não quero com molho. Estendeu a mão e pegou algumas pimentas, levando-as a sua boca e mastigando-as sem nenhum gesto, sem nenhuma careta. Jocardencio imitando seu adversário tambem pegou algumas pimentas, jogou na sua boca e começou a mastigar. Manelzinho Ardido olhando fixamente para o Jocardencio, apontou o dedo para o rosto do adversário e disse:
--Você perdeu. Está chorando.
    Algumas lágrimas rolaram pelo rosto de Jocardencio, que pernecia impassível.
 --Não é derrota ainda!
--E porque está chorando então? Com a voz quase inaudível, disse:
 --É que me lembrei da Santa e Digníssima Senhora Sua Mãe! Com todo respeito, é claro!...
     Fez bochecho com água mineral. O jurado encerrou o concurso. Manelzinho Ardido na semana seguinte viajou para a Jordânia.


PVH-RO, 28/02/14

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

ARRIBA TOURO

ARRIBA TOURO

 Samuel Castiel Jr.















             Matar aula não é um exercício de cidadania. Principalmente quando seus pais estão se matando pra pagar a mensalidade do seu colégio. Vivíamos nossa mansa e venturosa adolescência. Naquela sexta-feira quando cheguei ao curso de Admissão da Professora Elvira, antes de entrar no prédio, fui convidado a participar do  grupo que iria "gazetar"a aula. O plano era ir tomar banho no igarapé das Pedrinhas, um balneário que tinha água fria e límpida. Como não dispúnhamos de carro, iríamos andando até lá. Entretanto, para chegar a esse balneário, tínhamos que passar por dentro da pista do antigo aeroporto,  que começava onde fica hoje o Ginásio Claudio Coutinho, indo em direção aos Milagres, na nossa antiga Porto Velho. Nesse local,  além  de  aviões  havia  também búfalos nômades e selvagens que vez por outra entravam na pista, colocando em risco pousos e decolagens. 
          O igarapé das Pedrinhas era realmente um oásis, cercado de arvores frondosas, água limpa e fria, deixando que se enxergasse o fundo do igarapé, composto por pedrinhas como se fosse brita, porém eram pedrinhas lisas que não machucavam nossos pés. Havia o galho de uma arvore que pendia por cima  das águas  e nós  o utilizávamos como trampolim. Atirávamo-nos lá de cima dando mergulhos espetaculares. Alguns ainda davam saltos  chamados de mortais, virando cambalhotas no ar.  Depois de  muitos mergulhos, estava na hora de começar a voltar pra casa. O sol já começava a se por e não podíamos chegar  em casa a noite, pois nossa aula acabava as 18:00h. Entre os  seis gazeteiros, estava o Zé Roberto, amigo de todas as horas e um pouco gago, principalmente quando ficava nervoso. Era o mais empolgado com o passeio naquela tarde de verão. Antes de deixarmos o balneário das Pedrinhas, fomos apanhar frutas que estavam maduras nas fruteiras que ficavam no entorno do igarapé. Colhemos pitangas, cajus, tucumãs e goiabas. Amarramos essas frutas com nossas camisas, enfiando uma varinha e carregando tudo sôbre o ombro, como se fosse uma trouxinha de roupa. Mas o Zé Roberto, disse que não iria levar nenhuma  fruta pra casa, pois se assim o fizesse iria acabar se denunciando para os seus pais. Estava vestido com uma camisa vermelha, que tirou e a pendurou no seu próprio ombro. Começamos então a voltar para casa pelo mesmo caminho que fomos, ou seja, tendo que passar pelo bairro dos Milagres e também pela pista do aeroporto. Quando avistei de longe aqueles búfalos, fiquei preocupado. Eram gigantes negros colossais de mais ou menos uns 500 kg, chifres sinuosos e pontiagudos.  Estavam agrupados dentro de uma grande poça de lama e, ao nos avistar, começaram a dar sinais de inquietação. Alguns deles saíram da poça de lama e arrastavam ruidosamente suas patas dianteiras e   cascos  no solo. Foi então que o Zé Roberto pra fazer gaiatice, pegou sua camisa vermelha que trazia sobre seu ombro e começou a fazer gestos de toureiro, de frente para os búfalos. 
--0lé!... Olé!...Vem touro!...
     Nós que vínhamos atrás, vimos um dos búfalos soltar ruidosamente um ruído  pela venta como se fosse um espirro, arrastou seus cascos no solo e partiu pra cima do Zé. O coitado do Zé, assustado e pêgo de surpresa, partiu numa desabalada carreira com o touro no seu encalço. Nós que continuávamos atrás, também começamos a correr para fora da pista que era cercada por arames lisos enviados em morões  de madeira. Mas o assustado Zé, em vez de correr pra lateral tentando ficar fora da pista, ou seja,  fora do alcance do enfurecido touro, correu em linha reta e quase foi alcançado pelo búfalo quando no ultimo segundo se jogou ao solo e rolou pra fora da pista, por baixo dos arames. Em pânico, o Zé continuava agarrado a sua camisa vermelha, o que enfurecia e atraía ainda mais o bicho. Muito ofegante, sem graça, mas já fora do alcance do búfalo, ainda ouvi a voz do Zé todo sujo de lama, gaguejando e olhando pra nós com cara de bobo:
--A A -RRI-RRIBA TOURO!...

PVH-RO,  20/02/14

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A VIZINHA E O MORCEGO

A VIZINHA E O MORCEGO

Samuel Castiel Jr.















             Quando ela se mudou para a estância onde eu morava, confesso que fiquei constrangido, pois eram apenas dois quartos, divididos por uma parede de madeira. Enquanto só eu morava ali, dava tudo certo. Mas uma mulher, “coroa”, separada da minha cama apenas por uma delgada parede de madeira, tinha certeza que não iria dar certo. Fiquei a pensar como pode uma mulher vir querer morar aqui? Era uma casa velha, tosca, de madeira, sendo que na parte de baixo funcionava uma fábrica de mosaicos e em cima ficavam o escritório dessa fábrica e mais dois quartos. O banheiro era comum e ficava no final do corredor. A poeira era infernal, pois subia da fábrica de  mosaicos, que usava cimento peneirado manualmente. O calor era intenso, pois o teto era muito baixo. No corredor havia uma treliça que ia até quase a cobertura. Graças a essa treliça tínhamos a pouca ventilação, que também trazia o pó de cimento. A noite apenas uma lâmpada iluminava toscamente o nosso corredor. Nas noites de lua, entrava também uma réstia de luz prateada través da treliça. A escada que dava acesso aos cômodos, tinha degraus quebrados e balançava quando passávamos por ela.  Talvez única vantagem de morar ali era a localização, ou seja, a Avenida Serzedelo Correia, área nobre no coração de Belém-Pará.
         Amália era o nome da vizinha, que passou a ocupar aquela moradia comigo,  dividida apenas por uma parede de madeira. Era uma mulher branca mas com cabelos de negra, pernas grossas, tendo mais ou menos seus 40 anos e, pelo que se via, bem vividos! Era sozinha, parecia não ter amigos nem amigas. Também não fazia questão de tê-los. Confesso que fiquei incomodado quando ela foi morar ali. Mas, como estudante de medicina, passava o dia na faculdade e a noite ia estudar na casa de algum colega. Quando nos encontrávamos no corredor eu a cumprimentava, mas dificilmente respondia. Acho que vivia de mal humor,de mal com a vida. As vezes chegava tarde da noite e acabava me acordando com o barulho dos seus saltos no piso de madeira. Não se acompanhava nem trazia ninguém a reboque. Pelo menos nas vezes que eu percebia suas chegadas nas escuras madrugadas. Era uma figura quase enigmática.
         Foi numa noite de inverno  quando tudo aconteceu. Era sábado e eu estava dormindo desde a tarde, pois tinha virado a noite toda estudando para fazer prova de anatomia no sábado pela manhã. O nosso corredor estava escuro, pois nem eu nem a vizinha tínhamos nos levantado para ligar a luz do corredor quando anoitecera. De repente a vizinha se levantou, abriu a porta do seu quarto e acendeu a luz do corredor. Dirigiu-se para o banheiro e não demorou muito para dar um tremendo e assustador grito. De um salto pus-me em pé e corri para ver o que provocara aquele grito de pavor na minha estranha vizinha. Encontrei-a pálida, gritando e apontando para cima, enrolada em uma toalha de banho. Olhei e vi um grande morcego que, assustado com a luz e a n ossa presença, passou a dar voos rasantes sobre nossas cabeças. Corri e peguei uma vassoura para abater o bicho. Mas foi aí que o morcego passou a nos desafiar. Voava em nossa direção como se fosse um caça, desviando-se no último segundo graças ao seu radar natural. O bicho ficou feroz e emitia grunido ou chiado que o tornava ainda mais ecabroso. A vassoura na minha mão não conseguia acertá-lo pois ele era mais rápido. Num desses voos rasantes ele acertou a cabeça da vizinha que, para se livrar do bicho azarento, deu um grito e um pulo, fazendo com que caísse a toalha que trazia enrolada ao seu corpo. Correndo nua passou por mim e pelo  morcego, entrando na primeira porta que encontrou aberta e que, coincidentemente, era a do meu quarto. Trancou a porta e foi preciso muita conversa explicando que o vampiro já tinha voltado para as trevas, saindo por cima da treliça do corredor por onde deveria ter entrado. Quando decidiu abrir a porta do meu quarto, Amália já estava enrolada no meu lençol, mas quando se virou de costa para mim, o lençol escorregou um pouco e perguntei-lhe então que mancha preta era aquela que estava atrás do seu ombro esquerdo. Foi aí que a vizinha teve outro ataque histérico, gritando e se sacudindo toda, como se quisesse se livrar do maldito morcego. Jogou-se nos meus braços aos prantos e desmaiou. Tive que passar a noite toda acalmando seus soluços e tremeliques, tentando mostrar-lhe que o morcego fora embora morder e chupar outro pescoço, e que a mancha preta em seu ombro esquerdo era o seu velho e conhecido sinal de nascença, que os médicos chamam de nevus pigmentado. Desde essa noite passamos a ser bons amigos. Acho que nossa amizade necessitava da interface de um morcego.


PVH-RO, 13/02/14

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

UM ROSTO NA VIDRAÇAÇA

UM ROSTO  NA VIDRAÇA

Samuel Castiel Jr.













          Vivia meus 16 anos. Naquele dia meu pai chegou eufórico para o almoço. Olhou para minha mãe, apontou o dedo para mim e disse:
---Lolita, consegui um emprego pra ele. Já começa amanhã.
          Sem  ter o que argumentar, restou-me continuar ouvindo meu pai explicar entusiasmado que era numa agência bancária do Banco da Lavoura, que estava chegando a nossa cidade. Conhecera o gerente através de um amigo comum e, de imediato, já conseguira meu emprego. Seria muito bom para mim começar a trabalhar naquela idade, pois poderia aprender muitas coisas, valorizar o trabalho e sair da molecagem. O serviço era bem simples. Tinha que limpar a agência antes de começar o expediente. E para isso tinha que chegar a agência bem cedo, ou seja, as 6:00 h, fazer o serviço e voltar para casa, tomar banho, vestir a roupa social com gravata, voltando ao banco para abrir a agência as 8:00 h em ponto, de 2ª. a 6ª.feira. O horário do almoço era das 12 as 14:00 h, sendo que a tarde o expediente era interno. Como nossa casa era relativamente próxima a agência, não precisava de condução, podendo mesmo ir e voltar a pé. Aos sábados a tarde, tinha que encerar a agência, deixando-a bem limpa e cheirosa para a nova semana. Também era minha função fazer o café para os demais funcionários. Para quem nunca tivera nenhum emprego, nenhuma responsabilidade a não ser correr de peito aberto  atrás de papagaios, jogar peteca e futebol, seria uma experiência absolutamente nova.
            Mal o dia clareava, já estava eu a caminho do banco, cheio de entusiasmo e disposição, pois com o tempo comecei a gostar do meu trabalho e “vesti a camisa”. Apesar desse meu primeiro emprego ter me afastado dos folguedos pueris, lá estava eu bem vestido, com uma gravata no pescoço e me sentindo muito útil ao serviço bancário, como se fosse grande agente econômico da Wall Sreet. As vezes, confesso, que me sentia constrangido  quando entravam na agência colegas e amigas minhas pra falar com o gerente e ele batia na campainha me chamando:
-- Traga dois cafés por favor!
            No início ficava envergonhado diante das pessoas que me conheciam, mas depois fui me acostumando e algum tempo depois já não me importava muito nem com a campainha nem com os cafés.
             Meus colegas de trabalho eram muito eficientes e me tratavam muito bem. Lembro-me do Mizerani (gerente) do Guinard, do Ormiro, do Zé Lima que antes do banco abrir era açougueiro no Mercado. Lembro-me também do Valter Santos e do Oziris Lobo. E apesar de tantos anos que já se passaram, esses amigos são muito nítidos na minha memória.
             Certo dia saí cedinho de casa, como sempre. As ruas sem asfalto e o capim ainda estavam molhados do orvalho caído na noite. Ia com a cabeça cheia de pensamentos, remoendo a saudade dos folguedos da infância que estavam ficando para trás. De repente olhei para o lado e o meu olhar foi surpreendido por um rosto olhando-me furtivamente através do vidro de sua janela. Era uma casa do tipo chalé, de dois pisos. Aquele rosto angelical, de mulher loura e linda, porque estaria ali, postada, aquela hora, ao raiar do dia, a me olhar passando na rua? Atônito com esse olhar enigmático, fiz que não a vi, pois não quis que percebesse que eu a descobrira. Poderia nunca mais voltar a olhar-me passando... E continuei o meu caminho, pensando que daria tudo para vê-la outra vez, a olhar-me através da sua janela. Nesse dia, as horas pareciam que se arrastavam, o banco parecia que não mais ia encerrar aquele expediente, tão ansioso eu estava para saber se aquele rosto lindo voltaria a me olhar no dia seguinte, através da vidraça. No dia seguinte  passei e olhei de soslaio, e como um raio, numa fração de segundos, nossos olhares se cruzaram. Meu coração recebeu uma carga de adrenalina e acelerou. Acho que ruborizei. Trabalhei ainda naquele  Banco por um ano, quando pedi demissão pois tinha que continuar meus estudos fora do Estado. Mas enquanto eu continuei passando naquela rua, bem cedinho, lá estava aquele rosto enigmático na vidraça. Muitos anos se passaram e até hoje ele ainda povoa minhas recordações. Porque ela me esperava apenas para me ver passar, sem nenhum aceno, sem nenhum sorriso, sem um gesto sequer? Nunca tive e sei que nunca vou ter essa resposta. Foram apenas um rosto e um olhar que se perderam através da vidraça, mas que marcaram indelevelmente a minha memória.


PVH-RO, 10/02/14






            

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

SAMBA,CARNAVAL E SANGUE

SAMBA, CARNAVAL E SANGUE

Samuel Castiel Jr



















           Todo ano a estória se repetia. Chegava a época do carnaval, vinham os ensaios das escolas de samba, a agitação nas quadras, os concursos e a disputa dos sambas de enredo, a organização das alas e seus passistas, as fantasias, etc. Valfrido era passista e panderista da ala de bateria e a sua escola, Acadêmicos do Salgueiro, naquele ano estava cotada para ficar entre as três primeiras colocadas do Grupo-A, isto se não fosse a grande campeã do Carnaval. Como todo bom sambista, Valfrido também era chegado a um rabo-de-saia. E, nessa época, quando se aproximava o período do Carnaval, aproveitava para fazer “chover-na-sua-roça”. Mulato, quase negro, Valfrido era exímio panderista. Fazia acrobacias com o pandeiro, jogando-o pra cima e aparando-o com a sua propria  nuca, agachando-se entre as pernas “saradas” das mulatas e fazendo vibrar as platinelas entre as coxas suadas das sambistas.Tudo isso, lógico, sem perder a ginga e o rítimo do samba. Nesse ano porém, Valfrido estava sentido algo diferente, desde o dia que botou os olhos na nova sambista Alcina, que passou a frequentar os ensaios. Era filha de Floriza, que já fora porta-bandeira e hoje era responsável pela Ala das Baianas. Diziam as bocas miúdas, que tinha um xodó com Presidente da Escola, Amarildo “Tijolo”. Mas a verdade é que Valfrido desde que vira Alcina sambando, ficou encegueirado pela nova passista. Dezoito aninhos, seu corpo era escultural. Pernas e coxas grossas, torneadas, o bum-bum arrebitado, sua feições pareciam de uma vestal negra! Quando ela sambava, Valfrido deixava até seu pandeiro cair...Perdia o equilíbrio! Quanto mais o dia do desfile se aproximava, mais ele perdia a  cabeça, passando horas a imaginar-se na cama com aquela musa negra do carnaval. Chegava a sentir o cheiro bom do seu sexo. Devia ser um tesão na cama, pensava.
      –Valfrido, tira essa mina da tua cabeça, rapaz – dizia seu melhor amigo e também passista, Beto da Cuíca. Ela é afilhada do home, cara! O manda-chuva da escola. Dizem até as bocas de cuiú-cuiú que ele anda ficando com ela. É a mina do zóio dele. Eu aviso a você, cara, e quem avisa amigo é: toma muito cuidado!
            Os dias se passavam, toda semana os ensaios da bateria e sua madrinha, dos passistas, da porta-bandeira e mestre-sala, das alegorias, dos destaques, os carros alegóricos ganhando “vida” nas oficinas e nos barracões. Enfim, tudo se afunilando para o apogeu do grande dia do desfile no sambódromo. Valfrido tinha se aproximado de Alcina e notou que ela também admirava a sua intimidade com o pandeiro. Cada vez mais próximos, começaram um flerte com olhares, toques e passes de samba. Muitas pessoas chegaram a adverti-lo, sempre temendo por sua integridade física, uma vez que violência e truculência eram as tônicas de Amarildo Tijolo, Presidente da Escola, que muitos diziam envolvido com drogas, comércio ilegal de armas e prostituição no morro. Era um homem ignorante, perigoso e frio. Já tinha mandado um recado para o Valfrido, que ficasse longe da sua afilhada Alcina, quando viu os dois se pegando no entorno do barracão.
         O sorteio da Liga das Escolas de Samba confirmou para sábado as quatro horas da manhã o desfile do Salgueiro. Consultada a metereologia acenava com tempo nublado sujeito a chuvas esparsas naquela madrugada em todo o Estado do Rio. As arquibancadas, frizas e camarotes estavam lotados, tudo pronto para o grande desfile.
           Na cabeceira da pista, Valfrido esquentava sua Ala de bateristas:
-- Vamos lá moçada! A hora tá chegando! Vamos mostrar a garra do Salgueiro. Não esqueçam: entrar e sair no Recuo no tempo certo, sem perder a marcação nem as paradinhas!
           Foi quando avistou Alcina. Estava simplesmente deslumbrante e nua. Seu corpo tinha sido pintado pelos mesmos artistas da equipe da Globo, que produzem a Globeleza. Estava lindíssima e, sambando, parecia flutuar!...Não resistiu: afastou-se da sua Ala de Bateria e, sempre com o pandeiro na mão e sambando, foi ao encontro daquela deusa negra. Deu um beijo em seu rosto e sussurrou ao seu ouvido:
-- Você tá irresistível! Um tesão ambulante!... Quero você hoje comigo depois do desfile.
-- Val, pára com isso! Volta pra sua bateria. Nosso desfile já vai começar.
          Valfrido olhou pro lado e viu um palhaço que  chamou sua atenção. Não sabia que sua escola nesse ano trazia uma ala com palhaços.
          Um clarão se abriu no céu e fogos de artifício multicoloridos começaram a explodir anunciando o início do desfile.
           Foi nesse exato momento quando os fogos ainda estavam pipocando que Valfrido recebeu três tiros a queima-roupa, que se confundiram com as explosões da bateria de fogos. Quase ninguém percebeu o que aconteceu mas alguns ainda viram aquele palhaço com uma bola vermelha no nariz fugindo rapidamente e se misturando na multidão.
          Valfrido caiu no chão junto com seu pandeiro. Uma poça de sangue começou a se formar no asfalto. Na sua roupa branca formou-se grande mancha vermelha. Alcina que viu sua queda, quando percebeu o que acontecera, correu para ele e se abaixou suspendendo sua cabeça. Um filete de sangue escorreu de sua boca. Os fogos de artifício ainda estavam estouravam no céu. Com a voz fraca e quase inaudível ainda falou:
-- Os fogos estão lindos! E sua cabeça pendeu inerte.
         A voz do Tijolo surgiu ampliada por um megafone que trazia em sua mão, gritando pra todos que o desfile já tinha começado e a comissão de frente já estava se deslocando. A polícia já tinha sido chamada e iria investigar e apurar o assassinato do sambista. O Salgueiro não poderia ser prejudicado por mais um acerto-de-contas.
-- Vamos que vamos Salgueiro!


PVH-RO, 27/01/13